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24.11.15

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Spielberg de mãos dadas com os Coens no seio do conflito global!

 

Não é o reencontro com a faceta mais politica e igualmente negra de um Spielberg do subestimado, e por vezes esquecido, Munich, mas há que admirar essa maduração evidenciada de um autor que ousa em não largar o seu árduo trabalho no campo emocional. Bridge of Spies, sob um argumento da autoria dos irmãos Coen (mais Matt Charman), é o regresso da aventura cinematográfica alicerçada em teores distintamente identificáveis do melodrama clássico de Hollywood.

 

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Um filme que reforça a ideia de que este estilo narrativo não está ultrapassado, ao mesmo tempo confirmando as suas costuras de cinema "fora-de-moda", inspirado sobretudo nos thrillers políticos dos anos 60 e 70, com o The Manchurian Candidate como principal plano. Mas, ao contrário do que esta afirmação poderia soar, Bridge of Spies remete a um Spielberg preparado para os novos tempos, mesmo sob iguais matrizes. É esperado a demonstração de fé do realizador às crenças da cidadania americana, minando Tom Hanks (com quem não trabalhava desde Terminal, em 2004) com diálogos de motivação nacionalista e de teor profundamente patrióticos ("o que nos faz sermos americanos é seguir o livro de regras, a Constituição Americana", por exemplo).

 

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O actor que fora em tempos celebrado como um dos mais amados nos EUA, funciona como um autêntico "homem de pé", como a certa altura é descrito, um ser que opera segundo a sua vulgaridade mas que no momento de agir prova ser mais extraordinário do que se julgava. Tais características aproximam Hanks e o seu James Donovan a muitos outros atores clássicos, entre os quais James Stewart sob o comando de Frank Capra, provavelmente a maior influência da carreira de Spielberg. O protagonista desempenha um advogado norte-americano, vivente num EUA exposto aos delírios e às paranóias de um iminente conflito nuclear, estamos aqui atravessar a chamada Guerra Fria e as relações com a União Soviética são cada vez mais intensas, resultante de uma nação orgulhosa mas intrinsecamente aterrorizada pelas previsões apocalípticas.

 

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Contudo, Donovan não será nenhum herói de causas evidentemente americanas, mas sim um "profeta" que carrega consigo uma crítica interna, porém, construtiva e longe da acidez que um Oliver Stone poderia aliciar se tomasse conta de tais rédeas. O tom satírico proveniente da escrita dos Coen é por si receptor de tal crónica sobre um homem que opera contra a vontade e interesses do seu país para mais tarde conduzir aquele que seria um dos actos mais vincado de adoração pela sua nação. A troca de reféns, fruto de um malabarismo conseguido pela experiência no ramo da advocacia, e a ponte, não somente um ponto físico, mas a transição de novos tempos que a partir deste momento o mundo atravessaria.

 

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Não é por menos, que Bridge of Spies esboça alguns dos actos históricos mais acessos desta complicada década, referências e imagens de teor impressionável como a incontornável construção do Muro de Berlim, faz com que o espectador aperceba os estudos levados a cabo pelo par de argumentistas e sucessivamente o realizador em tornar a obra visualmente e descritivamente mais fiel aos tempos que adapta, tudo isso guiado por uma jornada de coração e de moralidades inegáveis. Neste mesmo percurso que opera como um hino de um cinema cada vez mais decadente, aguentado por homens que redefiniram uma refrescante vaga norte-americana em tempos, os atributos técnicos são puras relações simbióticas com a experiência que poderá ser vivida em Bridge of Spies, entre os quais a fotografia (da autoria de Janusz Kaminski) enraizada na época e sensível à escuridão da noite, simultaneamente auferindo um tom de espectacularidade, e a banda sonora de Thomas Newman, que substitui o veterano John Williams (habitual colaborador de Spielberg), que requisita esse classicismo constantemente falado.

 

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O realizador consegue ainda arrancar prestações credíveis no seu elenco, fora Tom Hanks que é confiante no seu desempenho, Amy Ryan como a esposa martirológica, Mark Rylance como o carismático espião russo (o macguffin desta intriga) e até a travessia de Sebastian Koch em águas hollywoodescas (para esquecermos um pouco a experiência traumática no quinto Die Hard [ler crítica]), concentram como anfitriões neste muito satisfatório thriller dramático. Curiosamente, foram precisos "heróis americanos" para transmitir através de histórias passadas, situações modernas, ao contrário de Clint Eastwood que recentemente transcreveu um história moderna sustentada por dilemas e morais deveras ultrapassados [ler crítica]. Longa vida para Spielberg!

 

Aren´t you worried? / Would it help?

 

Real.: Steven Spielberg / Int.: Tom Hanks, Amy Ryan, Mark Rylance, Alan Alda, John Rue, Sebastian Koch

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 15:46
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