Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Bem juntinhos ...

Hugo Gomes, 23.08.25

Together-2025-hof-3.webp

Antes de avançarmos para o filme propriamente dito, convém esclarecer que “Together” está neste momento a ser judicialmente processado por plágio. O lesado é a comédia surreal “Better Half”, de Patrick Henry Phelan, cujos produtores afirmaram ter apresentado a ideia ao casal Dave Franco e Alison Brie, que a recusaram por preferirem desenvolver uma produção própria. O filme estreou em 2023, narrando a história de um casal que, na sua noite de cúpula, se funde num só corpo. Quase ninguém o viu, até porque hoje enfrenta imbróglios de distribuição e divulgação, remetendo para aquele velho esquema de remakes americanos em tempos ainda não muito longínquos. Casos como “We Are What We Are”, de Jim Mickle, ou “Silent House”, de Chris Kentis e Laura Lau, beneficiaram desse estratagema de cópia à americana, que por sua vez tudo fizeram para dificultar a circulação das obras originais (respectivamente do mexicano Jorge Michel Grau e do uruguaio Gustavo Hernández). 

Feito este parêntesis, importa dizer que o conceito de “Together” não é (alegadamente) 100% original, embora também não se reduza a mera preguiça criativa, digamos que o meio para atingir o fim revela-se rebuscado … mas já lá vamos. Aqui, a narrativa centra-se no casal Franco-Brie (também na vida real), que se muda para um lugar remoto com o intuito de recomeçar a vida: novos trabalhos, fugas às cicatrizes ainda não saradas. A partir daí, os seus corpos manifestam um desejo de fundir sempre que se tocam, como pretenderam formar uma só entidade (e identidade). 

Michael Shanks declarou em entrevistas promocionais que os efeitos práticos dominariam cada cena, numa vénia não assumida ao que melhor se fez nos anos 80, de “The Thing” (a referência mais óbvia) a “Society”, de Brian Yuzna. porém, ao contar com essa promessa, o espectador sai defraudado, tal como “Together” trai a própria premissa de criar uma “omelete humana”. O filme cede aos rodriguinhos do género, e à tentação de explicar tudo por tintim, forçada e empapada. Diria até que sofre do “efeito” “The Substance”, tendo em conta que as comparações com a obra de Coralie Fargeat são ocasionalmente sobressaltadas, e a sobreliteralidade … essa maldição da audiência moderna … impregna-se, infesta e corroi. 

together-2025.-alison-brie-neon-.webp

Some-se a isto a propensão da cultura americana para enfiar ainda uma alegoria grega pelo meio: o género como castigo. O filme insiste em recordar-nos, com tom professoral, a conhecida narrativa de que, na sua génese, os humanos eram criaturas mistas; de quatro braços, de quatro pernas, de duas cabeças, dois géneros, até Zeus, irado, os dividir em metades condenadas a procurar-se mutuamente. Assim nasceu a distinção entre feminino e masculino, com vestígios de hermafroditismo ainda presentes nos desígnios dos deuses do Olimpo. Contudo, tudo é atirado à cara do espectador como um chave de lógica, como meter o Rossio na Rua da Betesga, minando a simbologia e impedindo o filme de criar uma mitologia própria. E isto é pena, porque havia terreno fértil para comentar as relações nas realidades virtuais de hoje, onde perfis de redes sociais juntam casais numa só identidade (ou despersonalizam ambas perante a despedida das anteriores). 

Só que o filme prefere oferecer explicações óbvias (sobrenaturais, se necessário), traindo a promessa dos efeitos práticos, conduzir-nos para um resultado leviano demais para a expectativa, e, não querendo propositalmente trair o apelo de Shanks, ambiguamente artificial para o gosto vintage. Vale pela química entre Franco e Brie na representação de identidades em risco.