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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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"Belfast": onde uns vêem brilho, eu vejo bugiganga

Hugo Gomes, 23.02.22

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Entende-se o significado das memórias de Kenneth Branagh e a sua utilização para algo mais do que a mera imputação shakespeariana do qual tem sido a sua obra até então, mas “Belfast” é de um fascínio turístico pelas ruelas de um bairro da Irlanda do Norte, como se fosse em “cidade de papel" abaladas pela História sem dimensão.

Uma criança encantada pelas imagens televisadas ou projetadas e as cores transmitidas que se revelam num escape ao monocromatismo das duas vivências, são os factores a ter em conta neste drama de personagens-passageiras, de tramas incutidos na decoração e a ilustração indolor e um filme pregado ao Academismo mais vincado. Enquanto se hurra pelo "melhor e mais poético de Branagh”, valoriza-se uma estética vencida e passiva acima dos seus eventuais simbolismos, contudo, até mesmo a palavra “poesia” parece encontrar aqui um “recreio infantil”. O meu problema com “Belfast” é só um, carência. Carente em emoção, de carisma, ou até mesmo de ênfase dramática (ao menos se fosse simples na sua condução, mas nem isso), como a entrada a este universo, todo ele transmitido num tom farsante de recordações expiradas. Nada contra Branagh repescar as suas vivências em prol da narrativa cinematográfica, mas em plena saturação, nada de igualmente valioso é nos oferecido. É um pechisbeque.

Enquanto isso, com menos destaque, “Memory Box”, de Joana Hadjithomas e de Khalil Joreige [ainda nos cinemas], é uma lição de como abordar e aproximar memórias e histórias contemporâneas com ternura, significado e efeito. Mas voltarei a ele numa outra altura.