Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Béla Tarr (1955 - 2026): eis a minha rosa atirada à tumba

Hugo Gomes, 06.01.26

b02d6470-4ff2-4669-9423-3d3de79061b6.jpg

“Descobri” Béla Tarr no Exército. Recordo como se fosse ontem: uma crise descomunal de insónias. Tentei de tudo, comprimidos, corridas nocturnas pelo mato do quartel, álcool, trocas de serviço de porta de armas, até filmes chatos tentei. Nada! Não conseguia dormir. Certa noite, já conformado com a minha derrota, vi “O Cavalo de Turim”. Li algures elogios, e numa outra nota de rodapé, em meio pejorativo, que era mais peça de museu do que Cinema (era da revista Empire, não se podia esperar muito deles). Durou-me três dias. O tédio filmado, a câmara circundante assim como a sua narrativa, as batatas e a música de Mihály Víg, tudo isso parecia uma orquestração organizada para o meu sono. Era hipnótico, como um feitiço, e ali lutava com todas as forças para deter o tão esperado João Pestana. Queria acabar o “maldito” filme, aquele Fim do Mundo pronunciado e sentido na angústia daquelas personagens.

Depois de terminado, o fascínio levou-me à conquista da sua obra: vi todos os filmes, adquiri os DVDs, li Jacques Rancière e, finalmente, conheci-o em 2016, numa das suas muitas passagens pela Cinemateca (uma conversa ainda por publicar, por preguiça, timing ou falta de contexto). Foi na esplanada do bar, sob o calor tórrido desse Verão. Apresentei-me, dizendo ser um admirador e sentir uma grande honra em estar na presença de quem considerava um dos maiores “cineastas vivos”. Com o seu ar rezingão, mandou-me sentar, dispensou os elogios [“Cut it”] e perguntou o que bebia. Durante o diálogo, fiz a mais genérica das perguntas: “O que é o Cinema?”. Tarr apontou para a mesa do lado, ocupada por jovens numa alegre cacofonia. “Aquilo é Cinema. Pessoas a interagir, a viver. Se tivesse uma câmara no meio deles, faria Cinema.

Béla Tarr foi o mais convicto dos devotos do tempo esculpido tarkovskiano, criando, ao mesmo tempo, uma linguagem sua, única e reconhecivel, de uma humanidade desesperançada e cinzenta, mas onde, nas entrelinhas, existe uma sensibilidade à espera de ser (re)encontrada. Antes das birras de Tarantino, decidiu parar de filmar: sentia-se cansado da fórmula, sem crença na novidade que lhe restaria enquanto gesto autoral. Preferiu lecionar, ensinar, guiar. Deixou os seus “filhos” espalhados pelo globo.

Cineasta de espírito e de corpo… era um dos meus cineastas. Hoje, em pleno Dia de Reis, despedimo-nos de um corajoso. Bravamente dançou com Satanás, viu a baleia, fabricou famílias e olhou para almanaques afora, testemunhou o Fim do Mundo: da civilização e de tudo o resto. Foi um herói de uma arte hoje mais desmerecida e orfã.

Para sempre, Béla…