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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Bebuns, lâminas e diabretes

Hugo Gomes, 25.10.25

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É louvável fazer um filme, ainda mais com dois tostões. Nada impede o processo criativo. “O Velho e a Espada" soma elogios pelo seu hercúleo acto de filmar uma “fantasia negra”, e ainda mais pelo género que abraça, despretensiosamente, e rebuscamento no sentido de uma farsa para o espectador assumir sem convicções. Até porque o seu realizador, Fábio Powers (nome sem grandes ambições artísticas, diga-se de passagem) é um objecto algo OVNI caseiro nestas andanças cinematográficas nacionais. Porém, não é caso único. Há umas boas décadas, este tipo de exercício, com efeitos especiais de tuta e meia e em modo cosplay, enredo comichoso de videojogo de Game Boy e diálogos a oscilar entre o cheesy e o filosoficamente piroso, encontraria lugar cativo no culto e na escassa pseudo-indústria que possuímos (sabendo nós, aliás, que poderia ser um filme bem diferente em outras eras).

Hoje, depois da expansão digital, da democratização do cinema, da diluição entre plataformas e formatos, das redes sociais e dos broadcasters “amadores” que são os canais de YouTube (a servir muitos deles como ateliers e hubs criativos), “O Velho e a Espada” é uma mera curiosidade, como quem escuta uma maquete caseira gravado por aquele vosso amigo e a sua banda de garagem. Não há grande diferença entre este fenómeno e o que saiu da internet: do primeiro “Balas e Bolinhos” (reza a lenda com um orçamento de 300 euros e metade para tabaco) a O Estrondo, ou os caricatos trabalhos lúdicos de Rui Constantino (desafio-vos a pesquisar). O que distingue este filme dos demais é apenas a corrente ironia cinematográfica: um lado meta que brinca com o formato que antes respeitava e, de caminho, estica um dedo médio a quem (eventualmente) investiu emocionalmente na jornada do velhote, António da Luz (falecido pouco tempo depois da rodagem). Por outras palavras, nem a farsa a mantém intacta.

Repetindo a declaração inicial: fazer um filme, nestas condições e com estas artimanhas, merece vénia … cá vai a minha … bem, está feita. Só que não nos tentem vender gato por lebre, se faz favor. De boas intenções está o Inferno cheio [ler com a voz de Luís Loy].