Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Balbúrdia no Oeste? Queriam!

Hugo Gomes, 08.06.14

million-clip-superJumbo.jpg

"People die at the fair."

 

Vamos lá colocar o ponto nos "is", A Million Ways to Die in the West não é nenhum Blazing Saddles, nem Seth MacFarlane um Mel Brooks. Primeiro de tudo, um destes é mais politicamente incorrecto que o outro, e aviso desde já que não é MacFarlane.

O criador das irreverentes animações de Family Guy e American Dad parece ter ganho o gosto pelas longas metragens, descartando agora os ursos de peluches festeiros e brejeiros de Ted, segue-se para a fronteira da América sulista de 1882, onde vemos Albert Stark (o próprio Seth MacFarlane), um pastor de ovelhas que é descrito como um homem fora do seu tempo, sendo demasiado mole e cobarde para um território tão selvagem que é o seu. Após ter acobardado num duelo e ter sido deixado pela sua namorada, Albert tenta encontrar um sentido para a sua vida, contudo o suicídio é a única coisa que lhe ocorre. Mas tudo está prestes a mudar com a chegada da misteriosa Anna (Charlize Theron) à sua cidade.

São imensas as referências cinematográficas e culturais incutidas por MacFarlane, umas eficazes outras nem por isso, disparadas à velocidade de uma "metralhadora" e sem o timing necessário para se fazer respirar entre a audiência. A verdade é que A Million Ways to Die in the West é qualquer coisa como uma tentativa desesperada em atingir o seu pico cómico, porém sem nunca conseguir verdadeiramente e mais, evidenciando a irreverência de MacFarlane como um puro marketing, mais do que um estilo, e é nesse aspecto que Mel Brooks (apesar de serem de tempos diferentes) leva a melhor. Todo o elemento satírico que o filme tece freneticamente, rapidamente seca dando lugar a um moralismo recorrente que se arrasta até conjugar um final preguiçoso. No seu corpo narrativo e na sátira exposta, o realizador dispara contra tudo e todos, mas sem nenhum objectivo traçado, confundindo tal termo com gags de origem escatológica ou de humor duvidoso. Ou seja, A Million Ways to Die in the West prometeu ser uma comédia ácida, sem pudor nem vergonha, e pior, dotado de alguma inteligência, mas resume-se a um desequilíbrio sem igual, narcisista e de longa duração (demasiado para uma comédia deste género).

Variado entre o mau gosto (gags escusados com excrementos de cavalo e órgãos genitais de ovinos) e o génio ocasionalmente emanado (referências cinematográficas e criticas sociais e religiosas), este novo filme de MacFarlane torna-se num registo esforçado mas "despedaçado" pela ausência dos valores politicamente incorrectos. Sim, esses mesmos! Confunde tais elementos com meros palavrões ou piadas grosseiras, perdendo todo um prisma de critica aguçada e sem receios de chocar tudo e todos. Nesse aspecto, Blazing Saddles consegue ser mais actual e ousado. Vale pelos seus escassos momentos e por Charlize Theron, a estrela subestimada que parece condenada, nos dias de hoje, a salvar todo os filmes que entra. Uma desilusão!