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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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«Até Ver a Luz», porque fora isso é a obscuridade que reina

Hugo Gomes, 05.08.14

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Após 15 curtas no currículo, três das quais chegaram a marcar presença no Festival de Cannes, o realizador luso-suíço Basil da Cunha demonstra como o cinema português poderá evoluir na escassez de verbas e subsídios com a sua primeira longa: “Até ver a Luz”. Uma história de “misfits” noturnos em busca da redenção num bairro da Reboleira, na Amadora, onde o realizador reside, aprendendo assim a interpretar o seu redor e de uma forma algo enigmática e sempre subliminar, transcrevê-la para o grande ecrã.

Tendo em conta que não foi há muito tempo que “O Bairro”, produção nacional da autoria de Francisco de Moita-Flores, uma conversão de 20 episódios duma série televisiva para uma “recolagem” cinematográfica, estreou entre nós, “Até Ver a Luz de Basil” da Cunha separa-se a anos-luz da pseudo-telenovela com tiques de mainstream americano e presenteia-nos um “aperitivo” daquilo que há muito os portugueses não se encontravam habituados nas suas produções audiovisuais: olhar realista à realidade dos mais marginalizados. O facto do realizador viver no local onde esta fita foi filmada e concebida, torna-o conhecedor da linguagem social destes “locais malditos de pura marginalização” que nas mãos de Basil da Cunha nos revela uma comunidade rica e viva subjugada à violência e em constante batalha por um “lugar ao sol” na aceitação social. Para além da credibilidade que o autor deposita na trama e nos seus personagens, é de louvar a linguagem cinematográfica que emane na sua narrativa e na transposição dos seus elementos.

Existe alguma influência de Akira Kurosawa na loucura das suas personagens e Jim Jarmusch no seu conceito marginal, na incursão de uma monstruosidade à lá Fellini e um espírito vanguardista não prejudicial ao realismo fílmico. Por outras palavras, há muito mais cinema neste “Até Ver a Luz” do que imaginamos, mais do que o simples exercício naturalista (e falado 80% em crioulo) o qual é realçado graças à preservação de tal factor por Basil da Cunha, existente no ambiente envolto como nos “não-atores”, simples moradores do bairro que dão um contributo importante para a longa-metragem. 

Ainda por mais e tendo em conta os planos de imagem fechada bem enquadradas e concretizados, o primeiro filme longo da sua carreira apenas demonstra o nato realizador que Basil da Cunha aparenta ser.