Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Amor em clima de razão

Hugo Gomes, 23.05.24

simple-somme-sylvain-festival-cannes.jpg

amor |ô| (a·mor)

nome masculino

  • Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atracção; grande afeição ou afinidade forte por outra pessoa.
  • Sentimento intenso de atracção entre duas pessoas.
  • Ligação afectiva com outrem, incluindo geralmente também uma ligação de cariz sexual. 
  • Ser que é amado.
  • Disposição dos afectos para querer ou fazer o bem a algo ou alguém. 
  • Entusiasmo ou grande interesse por algo. 
  • Aquilo que é objecto desse entusiasmo ou interesse.
  • Qualidade do que é suave ou delicado. 
  • Pessoa considerada simpática, agradável ou a quem se quer agradar.

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2024

 

Definição de um sentimento, um conceito, uma religião imposta numa universalidade para com a nossa existência. Talvez tenha sido no salto evolutivo que culminou na emergência da consciência humana, que o amor foi concebido como uma resposta para o até então incompreensível: as relações interpessoais, os afetos, a sexualidade e até a devoção religiosa. Amor é isso, o objeto de estudo ao longo dos milénios na tentativa de categorizá-lo como uma entidade absoluta.

Nesta obra da atriz/realizadora Monia Chokri, “Simple comme Sylvain” a protagonista, Sophia (Magalie Lépine-Blondeau, “Laurence Anyways”), uma professora de filosofia, leciona intermitentemente sobre o amor sob o prisma dos diferentes filósofos e seus respectivos pensamentos (desde o desespero à demanda). Nestes interlúdios informativos, são demarcadas as estações da sua vivência: um amor, dizem uns; uma atração, referem alguns; simplesmente sexo, apontam outros.

A verdade é que o amor é um inseto metamórfico nesta falsa comédia romântica. Falsa porque existe nela espaços de reflexão quanto à estrutura subjacente ao romance, conforme formalizado na contemporânea “cultura popular”, seja nos vínculos literários, seja subsequente transposição para à tela, o cinema, onde se difundiu por milhões e milhões, incorporando também a sua vertente mercantil: o amor do Dia de São Valentim, dos postais e bombons em forma de coração. É uma produção desconstrutora, mas sem respostas definitivas, até porque Chokri - tal como a sua protagonista, esta mulher entediada que termina o seu duradouro relacionamento para iniciar outro com uma pessoa fora do seu círculo intelectual e sem similaridades de personalidade (“os opostos atraem-se”, cantiga escutada vezes sem conta) - desconhece os aprofundamentos desse amor-tese.

Fala-se em resultado químico, atrativo estético ou correspondência ao turbilhão emocional a que nos submetemos nesta sociedade que imperativamente demanda amor, seja na forma monogâmica ou poligâmica, abstracta, platônica, espiritual ou teológica. O debate é induzido ao longo dos 110 minutos deste, até à data, mais certeiro projeto da emancipação de Monia Chokri (“Babysitter”, “La femme de mon frère”) na cadeira de realização.