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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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A tragédia dos wrestlers

Hugo Gomes, 22.02.24

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Apelidado de "anti-Rocky", esta nova obra de Sean Durkin, um dos mais proeminentes nomes saídos da “trupe Borderline Films” [Antonio Campos, Josh Mond], prossegue na trajetória de tragédia envolta dos Von Erich, o modelo de família-wrestling com foco especial em Kevin Von Erich (Zac Efron). Digamos que o seu título e oposição à história underdog imaginada por Sylvester Stallone devem-se à sua aura defraudada, derrotista extraída até ao último frame e ao adorno fúnebre com que se reveste. 

Esse pesaroso ambiente transmitido num exercício de legado - a urgência dele e o peso deste quer no protagonista, quer dos seus congéneres, a irmandade amaldiçoada por aquilo que não se entende - resgatam "Iron Claw" da mera alusão de coqueluche ao mundo do wrestling americano como parecia estar condenado. Nesse ponto, Durkin, fiel a si mesmo, constrói um filme arranjadinho, bem performado e atento aos códigos do espetáculo cinematográfico hoje vulgarizados em tom biopic. Mas o que mais fascina em "Iron Claw" não é o seu percurso em território reconhecível ou os easter eggs que causam brilho na vista dos aficionados do “desporto”; diria mesmo que temos em mãos um exemplar arquitetado de como um filme pode comunicar com o espectador sem ceder a facilitismos semióticos, decupagem “caracará” ou demasiado implícita. Recorro à memória de três momentos / cenas que me fizeram largar à lúdica ideia com double bill com “The Wrestler” (Darren Aronofsky, 2008), e que visualmente me deixaram entretido com o mise-en-scene [tudo em cena] e o seu descortinar a uma planificação engendrada pelo realizador. 

O primeiro momento num pós-round final, sendo que a família se reúne no ringue , e deta, o patriarca (Holt McCallany), no centro deste improvisado álbum que vemos em plano geral e que por via de um suave travelling vai se aproximando das personagens até inseri-las num plano americano e mais graduado disso. Entre o movimento, um anúncio é feito pelo “chefe de família”, uma revelação que acaba por afetar todos os membros desta equipa consanguínea de desportistas. A face de espanto de um, o desapontamento de outro, a indiferença do que resta; os atores em palco (Jeremy Allen White, Zac Efron, Harris Dickinson, Stanley Simmons) exibem subtilmente as suas expressões sem com isso condicionar nem seduzir a câmara a apontá-los num grande plano ou num impreciso destaque, o espectador tem aqui, enquanto gesto, como um quadro, de pairar o seu olhar e captar os seus pormenores que transmitem na animação. 

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Mais tarde, dois dos irmãos treinam num improvisado ringue montado na sua herdade, a personagem de Efron, campeã daquele mini-combate, posiciona-se no centro do plano, novamente geral, imóvel por momentos, sobre o irmão caído, derrotado aliás, para que no breve instante seja resgatado pelo parceiro triunfado. A câmara avança sobre os corpos dos atores, prossegue para lá na ação principal, apontando horizonte avant. Outro “acontecimento” decorre, o espectador possui essa informação prévia, mas naquele quadro (sim, quadro, como o anterior, expressando uma vontade de interpretá-lo num tom de de tenebrismo caravagiano) existem ações sobre ações, conflitos em camadas com outros, como ... e que bem, um drama familiar, quase labiríntico e espinhoso, uma tragédia grega e destrutiva. Mais uma vez, Durkin não cede a facilitismos trazidos por um certo academicismo. Outro momento, possivelmente fora da estaticidade do plano, está presente num "plot twist”, previsível digamos, em que o realizador impõe ao filme um retardamento, ou antes, brinca com a expectativa do espectador à maneira hitchcockiana. Aqui, Sean Durkin oculta para perpetuar a sua martirologia, o seu infortúnio, a sua sobrenaturalidade, a infame inevitabilidade. 

O resto, não querendo atirar para o termo nocivo de "mais do mesmo", porque não o é, apresenta-nos como um filme de uma firmeza irreconhecida (basta ver a venda que a Academia auferiu para zerar as hipóteses de nomeação desta obra). "Iron Claw", mais que um retrato de wrestling, acima de uma biografia enraizada na sua convencionalidade, é um filme de família sem encará-la como último reduto, e sim como a mais incontrolável maldição. E Zac Efron, sim, esse "miúdo" que nos chega transformado, tem possivelmente um dos seus mais trabalhados e sacrificados papéis. Há que reconhecer o mérito.