Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

A que horas a filipina volta?

Hugo Gomes, 02.06.24

RagingGrace_HERO.jpg

Take up the White Man's burden

Ye dare not stoop to less

Nor call too loud on Freedom

To cloak your weariness;

By all ye cry or whisper,

By all ye leave or do,

The silent, sullen peoples

Shall weigh your Gods and you.

Rudyard Kipling (The White Man’s Burden, 1899)

 

Comparações com o fenómeno sul-coreano “Parasite” de Bong-Joon ho e com “Get Out” de Jordan Peele têm sido usadas para descrever este “Raging Grace” numa perspetiva de mercado, reforçando a ideia de público-alvo através de equações e fórmulas preestabelecidas. Contudo, esta primeira longa-metragem de Paris Zarcilla bebe das iguais fontes dos anteriormente mencionados, utilizando a sua plataforma de cinema de género para explorar questões, ora sociais, ora raciais, e neste caso, o colonialismo, ainda entranhado, a fazer salpicar tinta.

A história centra-se numa imigrante filipina sem documentação legal no Reino Unido, Joy (Max Eigenmann), que trabalha como mulher-a-dias e pernoita em casas vazias dos seus patrões ausentes, utilizando-as como temporário refúgio para si e para a sua filha, Grace (Jaeden Paige Boadilla), uma temática que, porventura, seria bem explorada por um Ken Loach, ou por cineastas de profundo discurso pedagógico. Contudo, há uma reviravolta: uma "sorte grande" para Joy surge acidentalmente na forma de um abastado velho, decadente e moribundo, sozinho na sua mansão e cuidado pela sua sobrinha (Leanne Best). A nossa protagonista é contratada como cuidadora do ancião, e tem como regalia um quarto para permanecer. Só que estabilidade não é palavra no dicionário do cinema de terror, portanto, alguns segredos são descortinados à medida que a narrativa, repleta de nuances e constantes reviravoltas, engana até o espectador mais mais "chico-esperto” que tende em ‘acreditar’ na sua própria intuição.

Raging Grace” é um exemplar de terror político-social que não esconde a sua faceta, até porque o poema colonialista, “The White Man’s Burden” (“O Fardo do Homem Branco”), de Rudyard Kipling, é constantemente citado e interpretado literalmente como trama do filme (publicado em 1899, o texto defende a anexação das Filipinas ao Império Americano, exaltando o homem branco como moralmente superior e, portanto, obrigado a “colonizar” outros povos não-brancos). Embora o filme não seja de todo discreto quanto às suas intenções, a sua fraqueza reside maioritariamente na ingenuidade com que se apoia nas “significados” das suas quebradiças alegorias, e no retrato das personagens e o que as faz interagir umas com as outras (a relação entre mãe e filha está longe de ter o seu, e solicitado, peso no clímax). Esta abordagem acaba por minar a credibilidade das personagens, especialmente a de Joy, que deveria ser a peça crucial para captar a nossa empatia, e consequentemente à causa. Resultado: um exercício … apenas um exercício.