Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

"A Mulher Que Fugiu", mas que continua no mesmo sítio ...

Hugo Gomes, 16.12.20

202011933_1_rwd_1380.webp

Ouve-se a certa altura, a passos do seu final, uma mulher referindo à popularidade do seu ex-marido [romancista] desta forma – “A maneira como ele se repete é absurda”. A frase parece cair nas minhas mãos como uma nota de suicídio, um “mata-me por favor” vindo do realizador “mais consensual do momento”.

É que filme após filme e quase sem descanso, o sul-coreano Hong Sang-soo tem mimetizando um estilo, uma estética despida e intencionalmente amadora, e retalhos de um quotidiano entediado (“A vida é aborrecida”, outra tirada ouvida por estas bandas) até à sua exaustão. É um efeito-estufa, o de criar um universo reconhecido até à última gota para que a viagem na corrente da sua filmografia seja percorrida em trilhos seguros e sem qualquer imprevisto. Mas será essa própria fidelidade autoral num sinónimo de genuinidade autoral? Será que poderemos considerar o constante gesto repetitivo como a cerne de um artista?

Possivelmente, como o leitor já deve ter percebido, sou uma voz rara na atual cinéfila, um cético na autenticidade e dos critérios que fazem qualificar este cineasta como um apogeu da sua arte, mas mais que isso, acredito que a repetição é diversas vezes usada como um escudo, uma impunidade crítica a favor da empatia. Primeiro, Hong Sang-soo não ‘nasceu’ detendo aqueles característicos zooms (como é óbvio!), privilegiando-o dessa inexperiência com a câmara para muitos (só de pensar na tamanha indignação causada por um travelling em “Kapò”, de Gillo Pontecorvo), e segundo, o tom que cada vez mais se aproxima às aventuras e desventuras emocionais e “filosóficas” do francês proverbial Eric Rohmer. Ou seja, há uma importação colonizada em Sang-soo, um cinema sul-coreano com alma europeia, com facilidades de agradar os grandes pólos de crítica internacional.

EprBy8tXcAIfKHj.webp

Não me interpretem mal, não considero Hong Sang-soo um zero redondo e a negrito, é na sua criatividade como argumentista o qual esforço em acompanhar (recordo da agradável barafunda narrativa de “Hill for Freedom”, uma construção-puzzle num dispositivo credível), porque a sua formalidade fixou-se numa homogeneidade cansável (basta verificar a sua estreia em 1996 – “The Day a Pig Fell Into the Well” – uma relação desencantada para com o quotidiano mas encantada na sua estetização) como a própria rotina quotidiana (como muitos defenderão).

Porém, em “A Mulher que Fugiu” (“The Woman who Ran”), filme inacreditavelmente premiado como Melhor Realização no Festival de Berlim, é somente o bloco de carvão extraído do lápis, não há réstias de evolução nem preocupação formal (há um gato que aparece sem aviso e que tem contraído orgasmos e histerias por essa cinefilia fora, sem contar com os tais “zooms” aleatórios) ou de guião (a visita de uma mulher às suas diferentes amigas, orbitadas por prejudiciais presenças masculinas, é um punhado de rotinas esvaziadas). O que pairamos nestes 70 minutos é a derivação de um estilo e a prevalência de costumes brandos (a atriz e musa Kim Min-hee repete-se novamente como espectadora dos seus próprios filmes e dos criados para encher telas de “faz-de-conta”).

No entanto, repesco a minha anterior pergunta para a deixá-la no ar: será que poderemos considerar o constante gesto repetitivo como a cerne de um artista?