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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Pelo retrovisor ...

Hugo Gomes, 11.01.23

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Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976)

“Há uma imagem que me agrada muito, que é a do espelho retrovisor. Há um momento - chamemos-lhe envelhecer, morrer - em que é melhor olhar para o retrovisor. Porque, em suma, podemos ver nele tanto a imagem do nosso passado quanto a forma como essa imagem é modificada por todos os presentes, que já nem sequer espreitamos, e que nos caem dos olhos como palimpsesto efêmero, “dromoscópio”. Contentamo-nos em olhar para trás, para as sobras no retrovisor, para aquilo com o que esse presente se parecia.”

- Serge Daney entrevistado por Serge Toubiana  [Fevereiro, 1992], publicado sob o título "Perseverança" (edição portuguesa, com tradução de Luís Lima, publicado pela The Stone and the Plot)

"Mestres Japoneses Desconhecidos II": ainda há muito para (re)descobrir no cinema nipónico

Hugo Gomes, 03.11.22

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Um ano depois da arriscada proposta Mestres Japoneses Desconhecidos, do qual a distribuidora e produtora “The Stone and the Plot” nos apresentava uma trilogia nipônica fora dos cânones e das referências comuns do cinéfilo ocidental, eis que seguem os seus frutos. A sequela, esperada, traz-nos até nós mais três obras de rara acessão e de quase total desconhecimento para esse mesmo público. 

O resultado é uma década - a de 60 - nas reformulações da nova vaga japonesa, no qual três diferentes realizadores exibiram os seus dotes transgressores (cada uma à sua maneira) e diferentes óticas quanto ao seu país em constante mudança. Uma proposta mais arrojada, demonstrando a coragem ainda existente em curadorias e processos de distribuição cinematográfica no nosso país. Senhoras e senhores, “Mestres Japoneses Desconhecidos II” …

 

Glass-Hearted Johnny (Koreyoshi Kurahara, 1962)

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Transformando a região de Hokkaido num pseudo-western lamacento com vislumbres a neorrealismos italianos (“La Strada” de Fellini tem sido a sua indicada influência, e as similaridades não são poucas), “Glass-Hearted Johnny” (“Johnny Coração de Vidro”) é uma encruzilhada de três seres desamparados, a de um talentoso, mas caótico apostador de corridas, um “moço-de-recados” de um bordel e uma jovem provinciana obcecada pela fantasia do “Joe”, música materializada numa premonição que nunca se realizará. 

Peripécias e mal-entendidos nesta produção dos estúdios Nikkatsu, Koreyoshi Kurahara (realizador do popular “Antartica”, que originou “Eight Below” da Disney) executa uma obra romantizada e de uma fervença melancólica que se vai apoderando como uma canção (aliás, que tal como o comparado “La Strada” será uma melodia de ausência), as ruas desta cidadela suja, abandonada por muitos e desejada por poucos, representa essa solidão partilhável das personagens, cujas angulares trazem-nos as memórias os duelos ao pôr-do-sol desse género tão americano, só que aqui, ninguém ousa em reivindicar as suas posses. 

E é no trio de atores que “Johnny Coração de Vidro” sobressai, desde a “clownescaIzumi Ashikawa, o soturno Daizaburo Hirata e o “muso” de Seijun Suzuki, Jō Shishido, naquele que foi um dos seus primeiros papéis. 

 

A Woman’s Life (Yasuzō Masumura, 1962)

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Dos filmes menos conhecidos de Yasuzo Masumura, realizador por detrás de cultos como “Blind Beast” (1969) e “Irezumi” (1966), ambos circundando a transfiguração do corpo feminino, “A Woman’s Life” (“A Vida de uma Mulher”) já ostentava “sementizinhas” dessas suas posteriores obras, não de uma forma visceral e corporal, porém, colocando a mulher como peça moldável às invariáveis do tempo. 

Baseado no conto de Kaoru Morimoto, uma encomenda imperialista que resultou numa crónica às transmutações da nação, dos seus sonhos de expansão até à pesada derrota bélica da Segunda Guerra Mundial, no centro, uma mulher órfã, Kei (Machiko Kyō, a estrela de muito do cinema de Mizoguchi, e a protagonista de “The Face of Another” de Teshigahara, e de “Rashomon” de Kurosawa) é acolhida por uma família próspera. Encarregada pela matriarca de ser o “leme” desse seio, a nossa “heroína” converte-se, mais do que uma mártir, numa sacrificada, sem emancipação, apenas objetiva com as ambições de outros. 

O tempo atravessa, como a do Japão (as elipses são executadas através de manchetes de jornais), até que, em conjunto com o seu país, isolam-se no conforto das “memórias”, das “velhas glórias” e nos “palácios em cacos”. Ilusões e fatalismos, as aspirações que dão lugar a esquecimentos. Eis um filme encantado com o seu desencantamento, cruel como enganosamente doce, é uma música triste cantarolada em mera impotência. A vida, essa, simbolicamente trocista. Um intenso fado.

 

The Girl I Abandoned (Kirio Urayama, 1969)

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Dos três, o mais vincado quanto aos reconhecíveis contornos da “nova vaga japonesa”, trata-se da terceira longa-metragem de Urayama (que trabalhou como assistente de realização nos primeiros filmes de Shohei Imamura), realizador referido como um dos marginalizados pelo estúdio Nikkatsu

Uma obra tricolor (as cores, iniciando pelos filtros esverdeados-esmeralda e os amarelados que identificam os flashback, mais tarde, as cores apoderam-se dos devaneios e onirismo presenteado no epílogo) - inspirado no homónimo romance do muito cristão Shûsaku Endô (o mesmo autor de “Silêncio”, sobre jesuítas portugueses no Japão, adaptado cinematográfico por Martin Scorsese e João Mário Grilo) - que avança por novas burguesias nipónicas, contrastando com as classes mais desafortunadas, e pela reindustrialização pós-Guerra. Um país irreconhecível, cada vez mais divorciado do tradicionalismo, este convertido em bazares e típicos adornos de sala (há uma máscara que se explicita como um atípico zeitgeist). “The Girl I Abandoned” (“A Mulher que Abandonei”) é toda essa crónica enxugada num romance de juventudes inconscientes (e desiludidas, invocando as manifestações estudantis de 68), rompido abruptamente, a espinha dorsal dramática tracejada com um retrato de transmutação. 

Um filme perturbado por receios apocalípticos, com a derrota bélica relembrada enquanto premonitória assombração (neste aspecto as cores vivas apoderam-se). Por razões pouco esclarecidas, o filme, concretizado em ‘68, apenas conseguiu ser lançado no ano seguinte, sem a devida recepção. Ainda hoje é uma obra (tal como o seu cineasta) pouco conhecida e pouco vista, dentro e fora do Japão

"Mestres Japoneses Desconhecidos": o cinema nipónico para lá dos cânones

Hugo Gomes, 03.11.21

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"Mestres Japoneses Desconhecidos" é o título de uma trilogia improvável que é proposta pela The Stone and The Plot, uma distribuidora e produtora independente portuguesa que tem vindo a "quebrar" maldições nos últimos tempos com o lançamento comercial de “O Movimento das Coisas”, de Manuela Serra e a edição portuguesa do amado estudo de Donald Richie ao mais japonês dos cineastas japoneses, Yasujiro Ozu.

A proposta é a seguinte: trazer para Portugal obras inéditas fora do Japão, oriundas da Nikkatsu, o mais antigo e duradouro estúdio, e filmes que refletem bem essa coletividade de gestos diferentes e da máquina industrial que se vivia na altura - uma Hollywood japonesa. Curiosamente, todos datados de 1955 e que abordam, cada um à sua maneira e feito, a ocidentalização do Japão após a Segunda Guerra Mundial (1939-45) e a resistência da tradição como réstia de uma memória do passado gradualmente distante.

 

The Maid’s Kid (Tomotaka Tasaka, 1955)

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Dentro do trio de "Mestres Japoneses Desconhecidos", “O Menino da Ama” (“The Maid’s Kid”) é dos mais convencionalmente melodramáticos, não se querendo com isto rejeitar a sua subtileza dramática e a afinidade emocional, cozinhadas em lume brando. Considerada a obra-prima do realizador Tomotaka Tasaka, o filme segue a jornada de uma jovem rural num trabalho enquanto “criada” numa família abastada dos subúrbios de Tóquio. Ingénua, mas de coração dedicado, depressa a rapariga conquista o seio da família, principalmente a do mais novo membro, tornando-se no substituto de uma mãe “ausente” e desapegada.

O Menino da Ama'', tal como os outros filmes deste ciclo, descreve um Japão contagiado pelo Ocidente, embrenhado na derrota bélica e com a ânsia de rejeição do tradicional. Nesse sentido é possível constatar através do subtil contraste entre as periferias de Tóquio, onde grande parte da ação decorre, entre as idiossincrasias da família empregadora e a gélida comunidade montês que preserva rituais do arco-da-velha com um saudosismo carinhoso. Porém, este filme não vive totalmente desse contexto sociopolítico e sim da franqueza sentimental que nos traz este enredo de adoções afetivas, e no seu centro uma atriz, Sachiko Hidari (a inocente ama), em quem a câmara confia os mais expressivos grandes planos do cinema nipónico.

Ponto de curiosamente, a mesma atriz que nos traz a bondade em forma humana, trouxe-nos oito anos depois um papel arrojado e sensualíssimo em “The Insect Woman”, de Shohei Imamura.

 

Ginza no onna (Kozaburo Yoshimura, 1955)

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O filme que antecedeu num ano o derradeiro “A Rua da Vergonha” / “Street of Shame”, de Kenji Mizoguchi (1956), e cujo espírito foi transladado para os tempos porno-romanescos do estúdio Nikkatsu, como por exemplo “Noites Felinas em Shinjuku” / “Night of the Felines”, de Noboru Tanaka (1972).

“Ginza no onna” / “As Mulheres de Ginza” é um turbilhão comunitário de um grupo de gueixas na decadência da sua profissão, todas elas cientes da extinção do seu meio vivente e esboçando planos para a sua eventual sobrevivência. Seja por apadrinhamentos, lotarias ou persuasões dos seus clientes, o realizador Kozaburo Yoshimura, com colaboração com um guião de Kaneto Shindô, enquadra a resistência destas “pseudo-tradicionais” num Japão em constante negação das suas mudanças sociais.

Existe aqui um tom de festividade fúnebre, um certo otimismo na derrota a que todas estas personagens parecem estar condenadas. Contudo, o aguçado humor é um antídoto à previsível negritude do movimento frenético deste quotidiano, onde as mulheres são independentes entre si, como o improvisado jazz que intervém ocasionalmente na trama, para que no terceiro ato se reúnam enquanto “família” em prol de uma causa.

Novamente, são encontrados aqui os contrastes entre metrópole/campo, tentando com isto sugerir um embate de classes sociais (e artísticas, com o seu quê caricatural à veia existencialista importada do Ocidente), nomeadamente um “campo” deixado ao abandono, onde uma só vaca adquire um estimável preço de subsistência.

 

A Hole of My Own Making (Tomu Uchida, 1955)

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Quanto às mudanças sociopolíticas do Japão, “A Hole of My Own Making” / “Cada um na Sua Cova” é um dos mais literais na sua representação. Há nele um país de costumes moribundos que deseja resistir à sua ocidentalização, a América como destino desejado e os nostálgicos sem lugar nessa mesma idealização, escorraçados para vidas errantes ou drasticamente deserdados.

Começamos com um “morto”, ou diríamos melhor, alguém que deseja viver como tal, um “vagabundo” convertido que descansa na sua literal cova, como um repouso merecido após viagens intermináveis pelas fábricas pré-guerra abandonadas e os locais que trazem memórias desvanecidas. Depressa julgamos estar perante o protagonista desta história, mas enganamo-nos, é numa boate na companhia de um médico Don Juan que nos apercebemos do erro, acompanhando um homem descaracterizado e sem moral, hipnotizado pelos tesouros prometidos do outro lado do Pacifico, a América como destino desejado, e que, mesmo assim, se enamora pela mais tradicional das mulheres com quem tem contacto.

Tomu Uchida dirige um filme sobre essas rápidas metamorfoses e as adesões de um país refém e com um não declarado Síndrome de Estocolmo. O final, destrutivo e pesaroso, revela a perda como ganho de uma nova identidade. “Cada um na sua Cova” é um ensaio que lança algumas das sementes que a Nova Vaga Japonesa iria requisitar com todo o gosto.

O Movimento das Coisas: requisição a Caronte para um Paraíso Perdido

Hugo Gomes, 23.06.21

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Na mitologia grega, mais tarde metamorfoseada no imaginário de Dante Alighieri, Caronte oferecia boleia às almas perdidas na sua barca, para que estas atravessassem o rio Estige ao encontro do círculo do Inferno que mais condizia. Em oposição, somos em “O Movimento das Coisas” levados, em travessia pelo Rio Lima, a um território mais térreo ainda povoado por mortais. A neblina adensa-se nas suas beiras, não augurando regressos sebastianos, e sim, vindas do mundo do amanhã, desta forma vendido, com promessas de progresso e prosperidade, nunca instalando, e sim substituindo o quotidiano anterior.

O Movimento das Coisas”, a única realização de Manuela Serra, anteriormente tida como assistente de Rui Simões no “Bom Povo Português” (1981), chegou ao nosso circuito comercial após uma ausência de 36 anos, nesse período, acumulado prémios e menções em festivais, preencheu o imaginário de muitos cinéfilos e futuros cineastas portugueses, alimentando um fascínio deste mesmo cinema pela nossa ruralidade. O que levou Serra a abandonar o meio e romper radicalmente com o cinema na sua vida é ainda discutível, as entrevistas que tem dado à imprensa apontam desde “forças políticas” até a um “mundo imperativamente governado por homens”, passado pelo simples “desinteresse”. Por qual tenha sido o motivo, este foi definitivamente o filme que Portugal, obscuramente, nunca esqueceu, e os seus aficionados falam por si.

Antes de “O Movimento das Coisas”, o meio rural já mantinha ligação com o nosso cinema, encontrando marco estratégico nas aventuras de António Reis e Margarida Cordeiro pelos Trás-os-Montes (o filme data o ano 1976) (e porque não a raridade hoje preservada por Manoel de Oliveira em o “Acto da Primavera” em 1963, e por aí adiante, exemplos são muitos). Mas o que Manuela Serra realmente captou na aldeia de Lanheses (perto de Viana do Castelo) foi a urgência de filmar e registar um quotidiano ameaçado pelo avanço da indústria furtiva (nesta cópia restaurada tal é realçado através da inserção de um novo plano final, o ponto final necessário para a transmissão da sua mensagem). O que conseguiu (passados quase quatro décadas e sob um novo olhar confirma-se tal) foi o efeito de “cápsula do tempo”, uma montra de trabalhos de campo, desfolhadas festivas, dedicações religiosa e os seus ditos rituais centenários, e a modéstia de quem tudo faz / fez para manter estes temas vivos (pelo menos durante o seu prazo de validade), nomeadamente as mulheres, forças hercúleas no dia-a-dia.

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Porém, não posso deixar de notar a capacidade de Serra em conjugar esse prisma num riquíssimo e dialogado esforço de montagem, em cumplicidade com uma planificação pormenorizada, digo isto, tendo em conta o legado criado por estas ‘Coisas’, hoje abundante em inúmeros festivais portugueses, onde nota-se sobretudo uma condescendência, não apenas para com os habitantes dos povoados escolhidos, mas para com o material e a forma como este se manifestará em filme. São poucos os que ainda preservam essa veia cinematográfica na ruralidade, ao invés de ceder ao facilitismo formal, diversas vezes elogiado por elites de pensamento crítico cinematográfico. E é por isto, e não só, que “O Movimento das Coisas” é um filme crucial na nossa História, um modelo ora acidentado, ora poetizado sem bucolismos latentes.

Afirmo sem receio de apedrejamentos, que duvido, até à data, que haja mais belo filme sobre o campo que este filho único de Serra. Tão único como a porcelana pintada à mão do qual a anciã consome a sua “sopa tinta improvisada”.

 

Em anexo, a minha entrevista com a realizadora aqui.

Manuela Serra: "a corrida pelo desenvolvimento leva-nos ao esquecimento de "coisas" meramente importantes"

Hugo Gomes, 16.06.21

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Manuela Serra na rodagem de "O Movimento das Coisas" ao lado do diretor de fotografia Gérard Collet

Foram precisos 36 anos para "O Movimento das Coisas" chegar finalmente às salas de cinema comerciais, sem que fosse apenas em algum festival. Mas apesar desta ausência, a saudade persistia nas novas gerações de cineastas e aficionados que surgiam após o triunfo em festivais como Manheim ou Festroia (em 1985).

Agora numa nova cópia restaurada distribuída pela “The Stone and the Plot”, este é um  retrato sobre a ruralidade, conservada numa beleza ímpar e frágil, erguida pela incontornável presença feminina. Foi na aldeia de Lanheses, em Viana do Castelo, que nos deparamos com um oásis neste biótopo desvendado pela corrente do rio Lima.

Rodado em 1980, o filme é uma inspiração, um dos maiores na cinematografia nacional, e isto não é somente lisonjeador. Mesmo que certas “forças” o tenham tentado “estrangular”, o cinema português nunca mais foi o mesmo. Mas também é o único realizado por Manuela Serra, que antes trabalhara como assistente de realização de “Bom Povo Português”, de Rui Simões.

O que aconteceu? O que levou a esta espera e a um corte racial com o cinema? É por aí que começa o diálogo com Manuela Serra...

Começo com a pergunta que, possivelmente, mais lhe fazem, sobre a sua desistência do cinema, não só da atividade mas também no consumo. Pelo que li numa outra entrevista, a Manuela Serra deixou de ver cinema a partir de 1995-1996.

É verdade! Cortei com o cinema, até antes dessa data via cada vez menos. Há quem faça e encontre no cinema uma forma de expressão. Julgava eu ser essa a solução para a minha vida, nem que fosse de sobrevivência. Infelizmente, aconteceu o contrário. Não tendo o meu reconhecimento, ou ser devidamente reconhecida, não me deram hipóteses para continuar o meu percurso. Metendo as "coisas" desta forma, houve pessoas que me impediram, essas, ligadas ao poder.

Mas essas “forças” que a impediram de continuar estiveram também presentes no não-lançamento de "O Movimento das Coisas"? Ou seja, tiveram responsabilidade no “desaparecimento”?

Acho que foi no quadro geral. Durante a década de 80, estas "coisas" derivavam de quem estava no poder, no cinema ou no seu instituto. O facto de não ter uma posição política, nem sequer um partido, para além de não nutrir simpatia por nenhum, não garantiu ferramentas para ter acesso. Têm que existir pessoas interessadas nestes cargos de poder, principalmente no que toca à atribuição de subsídios. Portanto, se eu não dava o que eles queriam, seja a nível político, ou um caso amoroso, e a acrescentar com isso o não-reconhecimento do filme, as minhas hipóteses eram obviamente nulas.

Esta versão restaurada tem a adição de um plano final, a de uma fábrica de aura ameaçadora. Que nos diz que tudo aquilo que vemos no seu filme, a tradição, cultura, estilo de vida, pessoas, vão desaparecer, ou já desapareceram, devido à industrialização.

Todos nós sabemos como o interior do nosso país está desértico, penso que existe consciência disso e dessas alterações. No entanto, não podemos atribuir isso a um só elemento. Mas a maneira como os seres humanos destroem o nosso habitat é tão absurdo para mim. Isso não está expresso no filme, digamos que o plano final acentua essa ideia, embora isso já estivesse implícito através do som ameaçador inserido na fábrica ou o gesto que existe nela, que é debruçado numa máquina, em contraste com o trabalho que é feito no campo com alegria.

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O Movimento das Coisas (Manuela Serra, 1985)

Sim, como a festa da desfolhada que filmou. "Coisas" que poderão não mais existir.

Não tenho a certeza sobre isso, porque no outro dia estava a ler uma crítica que dizia o contrário – “O que a Manuela Serra diz não é verdade, isto ainda existe nas aldeias” – portanto, é natural que algumas tradições desapareçam, mas também está a acontecer o oposto, a atenção e preservação dessa cultura tradicional.

Seguindo para um certo paralelismo atual, talvez com motivação na tauromaquia, há uma espécie de união do mundo rural contra as políticas que ameaçam o seu modo de vida. De certa forma, a ruralidade é hoje uma resistência.

Admito que possa ser uma fase. Por vezes, a corrida pelo desenvolvimento leva-nos ao esquecimento de "coisas" meramente importantes e é isso que tenho expressado no meu filme, mesmo o gesto que existia – a ausência de pressa e de pressão – que as sociedades modernas invocam no seu estilo de vida. Estamos reféns da aceleração, é como se pedíssemos que fossemos máquinas, sem sentimentos, apenas eficientes nas operações. Felizmente, há muita "coisa" que se está a corrigir.

Por isso é que “O Movimento das Coisas” é uma obra de natureza harmoniosa, que quis escapar ao stress vivido nas cidades.

Exato, por isso é que fiz este filme, por estar saturada da cidade e perceber a evolução ao meu redor, que muitas vezes era gerada pela pressão nas pessoas. No meu tempo, havia uma expressão que era “aquela máquina”, dirigida principalmente ao homens que ambicionavam ser exatamente isso, máquinas, encarando-o como um adjetivo positivo. Se pensarmos no que isso representa...

Máquinas, no sentido de perda de humanidade, sentimento e compaixão?

Exatamente.

Falou de homens, mas “O Movimento das Coisas” é um filme maioritariamente povoado por mulheres, uma sociedade erguida, trabalhada e "sustentada" por elas. É também sabido que o projeto inicialmente tinha como título “Mulheres”.

A minha primeira ideia foi exatamente essa, então escrevi algumas notas em 1977. O meu ponto de partida é que a grande diferença entre homens e mulheres era indiscutivelmente a maternidade, portanto quis iniciar o projeto com uma cena de parto... só que me roubaram a ideia [risos]. Sendo assim, algo despertou a minha atenção, foi que as pessoas que se começaram a aproximar, principalmente mulheres, desejavam implantar, cada uma, a sua ideia. Lembro que havia quem queria converter o filme num retrato mais politizado e focado no sofrimento das mulheres que operavam nas fábricas. Era um importante retrato, mas não era isso que desejava. Pretendia criar sentimentos, mais do que impor um discurso, tanto que mudei completamente a ideia. E, como tal, fiquei sozinha neste projeto, o que me libertou e garantiu liberdade para avançar para esta aldeia.

Em 2015, dois jovens realizadores – José Oliveira e Marta Ramos – convidaram-na a revisitar a aldeia de Lanheses, 35 anos depois da rodagem de “O Movimento das Coisas”. Que diferenças constatou nesta sua última visita?

Algo que notei foi em relação à personagem de Isabel, a jovem que trabalhava fora de Lanheses, que continua esse ritmo, assim como muitos "jovens" do filme, que apenas encontraram trabalho longe da aldeia. Não tive muito tempo nessa visita, pelo que não constatei se realmente "sobrevivia" o trabalho de campo. Depois encontrei alguns prédios novos que não coincidiam com o resto, o que são marcas do desenvolvimento, mas... podia ser pior.

Mas o rio continua lá.

O rio continua lindíssimo.

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"35 Anos Depois, O Movimento das Coisas" (José Oliveira e Mário Fernandes, 2014)

Hoje, “O Movimento das Coisas” adquiriu um estatuto algo lendário e incontornável, principalmente para quem estuda cinema em Portugal, e com isso tornou-se uma recorrente inspiração e referência. Surgiram depois muitos outros retratos rurais. Mesmo com o seu assumido corte com o cinema, chegou a ver algum deles?

Apesar de não ver cinema, tenho notado e visto alguns trabalhos na televisão e até mesmo nas minhas idas ao Fundão [ao festival Encontros Cinematográficos]. Considero isso muito positivo, apesar de tudo funcionar assim no mundo do cinema. É verdade que o filme nunca foi esquecido, seja na memória dos cinéfilos, estudantes, em ciclos de cinema ou até mesmo na Cinemateca. Nada disso deixou que o meu filme morresse. E a imprensa estrangeira também contribuiu para isso.

Sobre este, por fim, lançamento por parte da distribuidora The Stone and the Plot, de Daniel Pereira. Quem é que abordou quem?

Desde que o filme estreou nos Encontros Cinematográficos do Fundão, criou-se uma ligação com as pessoas desse meio que me levou a conhecer o Daniel. Foi ele que me encorajou a estrear “O Movimento das Coisas”. Ele foi o responsável. É como você dizia, um filme com 35 anos só agora estreia nos cinemas, mas devo acrescentar que as montagens terminaram em 1981. O filme estava pronto nessa altura, mas ficou sem produtora, que era a Cooperativa Virver. E houve, como devo dizer, histórias "menos bonitas" acerca de dinheiro, fiquei parada quatro anos. Nesse período, trabalhei na pós-produção, que era a sonoplastia e música. Ou seja, para fazer apenas isso, aguardei quatro anos enquanto resolvia esses assuntos monetários com o Instituto de Cinema.

Já que "tocou" na música, gostaria que me falasse da colaboração com José Mário Branco e as melodias que nos acompanham ao longo desta viagem em Lanheses.

São "restos" da Cooperativa Virver. Conheci e trabalhei com o José Mário Branco na Cooperativa, assim como o sonoplasta Luís Martins. Mas existe nisto tudo algo muito importante, é que o Mário Branco viu o filme durante o seu processo de montagem e gostou imenso, por isso trabalhamos lindamente juntos. Entendi perfeitamente o que ele queria, que ideias tinha para o filme e das suas diferenças sequências. Julgo que também o filme aderiu muito bem às suas ideias.

Quem tem medo de Sério Fernandes?

Hugo Gomes, 12.01.21

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Nunca é ocultado o facto do realizador Rui Garrido ter sido, em tempos, aluno do tão atípico professor José Eugénio Sério Fernandes, docente da ESAP - Escola Superior Artística do Porto. Grato e ainda umbilicalmente agarrado a essa experiência, a sua primeira longa-metragem tem como objetivo assentar numa “passagem de testemunho”, onde o filme, creditado como tal, é tomado pelas forças algo espirituais de Fernandes.

A obra faz serventia dessa subtil, mas dominante, conquista, nunca desviando o documentário do “objeto-estudo”, e em certa forma, tendo como principal função com que a sua memória não caia no esquecimento (apoiando-se na velha máxima do cinema enquanto arquivo e de imagens anamnésticas para futuros incertos). E o “artefacto em exposição” não se resume à figura em si, ela é vista como uma terminada cinefilia ainda pregável nos cantos e recantos deste país, apenas sobrevivendo por entre as experiências angariadas pelos seus alunos e pelos nichos (muito) mais fechados.

Ora bem, O Mestre da Escola do Porto tem algo a seu favor o qual Garrido bem conhece e aproveita, o fascinante Sério Fernandes, desde a sua humanidade até ao discurso fervorosamente apaixonado, nunca vergando a sua aura de velha guarda cinéfila conduzida numa característica militância sobre a definição de Cinema a ser apregoado para posteridades. Tendo uma carreira longínqua onde se destaca as suas peças publicitárias [o qual fundou a Bei Film] e a longa-metragem de experiências sob experiências – O Chico Fininho (1982) – Sério Fernandes é um ser alienado e igualmente fiel ao seu próprio devaneio, narrando com tamanho ecstasy o seu papel na “instituição” denominada Cinema Português e ostentando um carinho inclassificável pelos seus animais (a sua ligação com os seus “patudos” são de uma sensibilidade transbordante).

O filme convida o espectador a conhecê-lo num registo do “eu”, deixando que Fernandes o domine praticamente, assim como toda esta jornada, Garrido passa para segundo plano na tentativa de acompanhar as indicações do seu mestre (como por exemplo, a rigidez com que a costumeira gaivota deve integrar na metragem). No fundo é uma Odisseia, emprestado título ao seu homónimo, megalómano e excêntrico projeto (cujas metade das bobines foram atiradas ao mar e que se previa que a outra porção fosse enterrada no Metro do Invicta, nunca chegando a acontecer) que facilmente extrai risos trocistas da nossa parte para que no final possamos redimir à sua abstrata “loucura”. Para Sério Fernandes, aquele determinado plano estático ou gesto de autoridade no autoral acarreta “toda a História do Cinema” (falta-nos mais esses tons quixotescos de quem olha para a imagem resumindo nela todo um universo cinematográfico).

E é isso, aquilo que estava previsto ser palco para o “cromo 101 da coleção de 100” transforma-se numa congratulação de aluno para o seu mestre. A condescendência ficou à porta, o amor pela arte entrou com convicção na preservação do último dos cinematograficamente românticos.