Reacher: O futuro do herói de acção?
Há coisa de meses, encontrava-se presente nas nossas salas de projecção, uma das mais vastas colecções de heróis de cinema alguma vez imaginada, obviamente não falo de The Avengers e a suas figuras em fato de licra, mas sim The Expendables 2, a sequela visionada por Sylvester Stallone que reunia a maior parte dos “velhinhos” action-mens do anos 80 (e não só). Todos faziam parte do mesmo modelo; figuras imaculadas, invencíveis que pouco tempo têm para demonstrar as suas facetas mais fracas e humanas. Stallone, Schwarzenegeer, Willis e claro, Chuck Norris, fazem parte desse mesmo catálogo onde exércitos não são desafios renhidos e os vilões, sempre de teor megalómano, eram abatidos que nem tordos, por fim tudo terminava com um inevitável abanar da bandeira.
Contudo os tempos mudaram, o 11 de Setembro ainda permanece presente no coração de qualquer cidadão americano como do resto do Mundo, que para além de tragédia inesperada e desumana serviu como uma exposição das fragilidades de um país que acreditava constantemente ser dono da verdade e da justiça e fabricante de heróis. A partir dessa data algo negra, as mentalidades mudaram assim como a postura do herói do cinema de acção modificou, tornando-se mais frágeis, mais humanos já que a falha e o fracasso faz parte das suas vidas como também é nisso que lhe aufere forças para continuar as suas respectivas demandas. E é contra essa tendência pós-Bourne que já chegou a contagiar a eterna personagem de Ian Fleming, 007 – James Bond, surge-nos um novo alvo do cinema de acção, Jack Reacher, criação literária de Lee Child, onde o actor Tom Cruise recria sob o signo de Dirty Harry. Ele é implacável e incorrupto, nem lei nem doutrina, nem morais nem reflexões o fazem realmente mover, apenas a justiça pelas próprias mãos como um vigilante se tratasse.
O actor parece embarcar no estrelato com esta sua nova aparição de ícone de acção, encher a personagem da imaginação de Lee Child com brutalidade, carisma e uma frieza mecânica algo digna das verdadeiras máquinas de matar do cinema, além disso a completa com uma dedução que faz invejar a Sherlock Holmes. Cruise resulta como Reacher tal como o realizador e argumentista Christopher McQuarrie (também escreveu The Usual Suspects de Bryan Singer) concretiza plenamente a transcrição do universo de Child para a grande tela, com ela a invocação de uma figura quase em extinção como também o ambiente digno e ritmado dos thrillers de acção dos anos 70, onde Steve McQueen, Charles Bronson e claro Clint Eastwood ditavam as suas leis nas ruas.
O início de uma futura saga que promete ser obsoleta nos tempos de hoje, desencaixada da nossa realidade cinematográfica, mas que porém torna-se num filme de acção vibrante e algo nostálgico que tal como protagonista não assume as consequências. Jack Reacher é uma aposta ganha na acção, cujas sequências são nítidas e desempenhadas com espectacularidade e classe. A intriga não irá certamente vencer nenhum prémio de criatividade mas não trata o espectador como idiota e além demais consegue ressuscitar alguns fantasmas indesejáveis, invocando por exemplo os ataques terroristas na Noruega em 2011 recriadas de maneira déjà vu num início assombroso.
Por fim existe algum humor bem conseguido que descontrai o espectador e um elenco secundário capaz, que vai desde a beleza e charme de Rosamund Pike, as veteranas presenças clássicas de Robert Duvall e Richard Jenkins e Werner Herzog como um vilão sádico e de instinto supérstite. Jack Reacher está aprovado, que venham mais.
“You think I'm a hero? I am not a hero. And if you're smart, that scares you. Because I have nothing to lose.”
Real.: Christopher McQuarrie / Int.: Tom Cruise, Rosamund Pike, Werner Herzog, Richard Jenkins, Robert Duvall
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