Era uma vez …
A década de 80 foi propícia do cinema de fantasia, foi a época de Neverending Story de Wolfgang Peterson, um olhar retrospectivo ao conto de fadas e de Labyrinth, de Jim Henson, mais conhecido como o “pai” dos Marretas. Ambos foram dois sucessos de um género que expandiu nos “loucos eighties” mas que enfrentou o decréscimo na década seguinte. Felizmente o cinema fantástico puro e de teor épico encontrou novo folego no novo milénio muito graças The Lord of the Rings de Peter Jackson. Bem, mas voltando ao início, foram muitos os ensaios de mundos alternativos e fantásticos, recheados de princesas, cavaleiros, feiticeiros e criaturas lendárias que surgiram nos anos 80, uns mais bem-sucedidos que outros que obviamente contudo existem outros que não conseguiram gozar nem de uma brisa de sucesso, apedrejados e quase esquecidos. Um desses exemplares de filhos bastardos foi a quase desconhecida obra de Ridley Scott, Legend, que surgiu quatro anos depois de Blade Runner, outro filme injustiçado do realizador mas que desfruta nos dias actuais um estatuto de clássico e culto invejável.
Mas o que falhou nesta fita de fantasia? Primeiro, Legend – A Lenda da Floresta é conhecido nos tempos que decorrem pela sua produção complicada e turbulenta, pelos imensos cortes que obteve para poder estar apto para o lançamento comercial o que acabou por comprimir em demasia a historia e por fim um orçamento curto dado pela Universal Pictures que limitou a ideia original de Scott quanto ao filme. Por fim Legend teve direito a um lançamento limitado e mesmo assim desapontante, os peritos acusavam a fita de ser demasiado negra para os mais novos e a intriga imatura para os mais velhos poderem apreciar. Tudo isto resultou num filme meio esquecido mesmo na enorme acessibilidade cinematográfica que hoje somos capazes de disfrutar e até uma certa renegação do seu autor em sua relação.
Legend é uma alusão á face mais negra dos contos, invocando o tempo quem este tipo de histórias eram contadas e recontadas pelos anciões para grande grupos á noite e em costume em volta de fogueiras. Todavia a sua trama é demasiado simplista, um ser demoníaco abraçado pelas trevas e que se dá pelo nome de Darkness (Tim Curry) deseja governar o mundo magico que integra, porém ele é enfraquecido pela luz do sol. Determinado em destruir o dia para assim iniciar o seu reino de terror e escuridão, Darkness contrata um grupo de goblins para exterminar as manadas de unicórnios que abundam nas densas florestas, estes mágicos animais são os responsáveis pelo amanhecer e pelo pôr-do-sol. Bem-sucedidos na sua missão, as repugnantes criaturas ao mando do Senhor das Trevas conseguem levar a espécie a um só individuo, que fora capturado e levado para o seu castelo em conjunto com a princesa Lili (Mia Sara). Por fim cabe a um filho da floresta, Jack (Tom Cruise), tentar salvar a sua amada e prolongar o dia.
Um inexperiente Tom Cruise que não aquece como protagonista e Mia Sara a transportar algum caracter á sua personagem porém em vão, tudo devido á fragmentação em consequências dos cortes que a fita sofreu e o romance entre ambos é demasiado inocente e pueril para garantir solidez, sendo em Darkness, uma alusão mitológica do Diabo, interpretado com garra por Tim Curry (The Rocky Horror Picture Show), que deparamos com a figura mais interessante deste universo rico em termos cénico contudo pobre na concepção. E é em nível técnico que Legend de Ridley Scott é um primor, regaçando uma beleza negra vinda directamente da Idade das Trevas do conto de fadas, a sua intriga mesmo maltratada pelos cortes e infantilizada pela sua previsibilidade não ofende nem se descuida, como também não anseia teor épico nem nada de mais elaborado. E por fim uma das grandes valias do filme como também simbiótico com o desempenho sombrio de Tim Curry é mesmo a caracterização da personagem Darkness, elaborado, provocador e deveras aterrador, a imagem mítica e mais tradicional do ser infernal.
Ridley Scott pode não ter tido a melhores das sortes nem a melhor das inspirações quando preparou esta Lenda da Floresta, e é triste ver um filme em que os aspectos técnicos sobrevalorizam o resto. Mas é uma fita que apesar de tudo, daquelas imperfeições e da promessa do que poderia ter sido, é uma das obras mais curiosas do género de fantasia mesmo nos dias actuais e para devo também insinuar que é uma pelicula que está a envelhecer muito bem. Por fim recomendo uma visualização á versão de realizador, disponível em DVD e com mais 20 minutos de cena inéditas.
“The dreams of youth are the regrets of maturity.”
Real.: Ridley Scott / Int.: Tom Cruise, Mia Sara, Tim Curry, David Bennent
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