O Schindler português!
Num país como o nosso que idolatra os seus heróis do tempo da ditadura, é triste que muito pouca gente conheça a extraordinária e inspiradora vida de Aristides de Sousa Mendes, o cônsul de Bordéus, que salvou mais de 30.000 vidas. Desafiando as ordens da sua pátria, Aristides de Sousa Mendes concedeu vistos a inúmeros refugiados da Segunda Grande Guerra, inclusive sendo a maioria judeus, perseguidos pelos nazis que invadiam de momento a França. Esta imponente figura da solidariedade colocou a moralidade e a ética acima do patriotismo, mesmo tendo recebido ordens directas de Salazar para não transmitir mais vistos, pondo em causa a sua carreira e a sua família. Escusado será dizer que os últimos dias do cônsul de Bordéus fora de pura miséria e o nome como também os seus actos foram vitimas de inúmeras tentativas de exclusão na nossa História, porém o seu comportamento desafiador que conseguiu salvar almas continua vivo através daqueles que ele próprio ajudo, e desde então o seu legado foi mantido nas sombras. É quase imperdoável que no nosso país ainda tenha sequer existindo qualquer referência cinematográfica a esta personalidade revolucionaria e sinónimo de solidariedade, excepto os documentários que já haviam sido produzidos. Como tal, o filme de Francisco Manso e João Correa teve acima de tudo objectivo de preencher essa lacuna no panorama cinematográfico.
Escrito por João Nunes (Assalto ao Santa Maria) e António Torrado (O Ultimo Condenado á Morte), Aristides da Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus é uma fita concebida a fim de reavivar a memória da figura em questão e resgata-la do esquecimento popular e isso confirma-se da maneira como esta biografia é apresentada. Vítor Norte veste então a pele deste nosso herói de uma forma carismática e de uma arrogância rebelde característica, segundo as fontes, como também do actor. Contudo o seu desempenho não parece estar completamente de acordo como a narrativa, que é deveras esquemática no que refere a exibir os actos heróicos de Aristides de Sousa Mendes, e como tal irá originar uma grave limitação para os actores tentarem explorar os seus personagens, e assim sobressai-las do então apenas registos históricos. Porém este é um filme feito com boas intenções e são essas intenções que a própria fita retrata constantemente, infelizmente sem nunca conseguir alcançar a força desejada.
Mas para felicidade nossa este é uma daquelas obras cinematográficas que deseja arduamente separar-se do simples produto de aspirações televisivas (tal como aconteceu com o infeliz filme biográfico de Salazar, protagonizado por Diogo Morgado), e nisso verifica-se no seu invejável conteúdo técnico, que vai desde uma banda sonora composta pelo belga Henri Seroka, capaz de rivalizar com algumas grandes produções de Hollywood e a fotografia sensível à luz dirigida por José António Loureiro. Este é sobretudo um produto mimado nessas categorias.
Para finalizar quero apenas salientar que a estreia de um filme sobre Aristides da Sousa Mendes nesta época o qual se avizinha a austeridade financeira não é fruto do acaso. Relembro que o cônsul de Bordéus desafiou ordens máximas para garantir as vidas de muitos, até mesmo contrariando o nosso Governo, resumindo naquele tempo por António Oliveira de Salazar. O seu acto deveria ser um exemplo principalmente para os nossos governantes, o qual deveriam arranjar coragem e colocar os valores morais e éticos acima da fidelidade institucional ou simplesmente partidárias. Porque mesmo num país tão pequeno como o nosso, também é capaz de albergar heróis.
Real.: Francisco Manso, João Correa / Int.: Vítor Norte, Carlos Paulo, João Cabral, Laura Soveral, Leonor Seixas, São José Correia, Manuel de Blas
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