Marginalizados!
Em 20 de Abril de 1999 ocorreu numa Escola de Columbine, Estado do Colorado, um dos actos mais brutais e mediáticos da Historia recente dos EUA, dois alunos decidiram entrar no estabelecimento de ensino munidos de armas de fogos e disparando tudo o que mexesse. No final do massacre, tendo morrido 13 pessoas e ficado feridas 21, os dois autores suicidaram porém o que havia sido feito naquele dia iria ecoar desde hoje na sociedade norte-americana. Em 2003 é editado uma obra literária do autor Lionel Shriver que relatava um horrendo massacre escolar porém visto da expectativa da mãe e como a sociedade a viu depois de tão sangrento acto, o livro intitulou-se de We Need to Talk About Kevin e foi um êxito automático, talvez devido aos fantasmas de Columbine se encontrarem presentes.
Lynne Ramsay (a mesma realizadora de Ratcatcher, 1999) arriscou em adaptar para o grande ecrã o dito livro, que havia sido incluindo no catálogo de obras “impossíveis de filmar” como American Psycho e Perfume. O trabalho não ia ser fácil, mas Ramsay provou ser capaz de manobrar as dificuldades do enredo exposto pela autoria de Shriver, enquanto no livro a estrutura narrativa encontrava-se dividida pelas cartas escritas pela mãe dirigidas ao marido, onde se auto-avaliava e interrogava o que teria corrido mal na educação do seu “criminoso” filho, no filme ela não abordou tal desenrolar, sendo com isso poderia matar definitivamente a narrativa da fita, porém optou por dividi-la em flahsback que analisavam os tópicos pretendidos pelo livro.
Visualizar We Need to Talk About Kevin não é fácil, o inicio poderá gerar confusão face aos imensos flashback e saltos narrativos temporais, mas quando a narrativa se forma e torna-se transparente aos olhos do espectador, logo se torna num drama de cariz forte e alta construção social, porém sem senso maniqueísta, panfletário nem de próprio autojulgamento. Nem os pais, nem o autor dos crimes horrendos são julgados a mercê da sua narrativa, apenas a sociedade que marginalizou a mãe (uma das melhores interpretações de Tilda Swinton), acusando-a fortemente como cúmplice da desgraça dos outros.
Até mesmo no final o qual era previsível um confronto directo, psicológico e explosivamente emocional entre a mãe e o filho Kevin (depois de Afterschool, o jovem actor Ezra Miller prova ser um talento a não perder de vista), agora detido pelas autoridades, tal coisa não acontece se não o improvável, cedendo tudo para um desfecho de uma relação que acaba numa melancólica redenção de sentimentos perdidos. Não pretendendo ser um psicanalista perante tal situação, Lynne Ramsay retrata os envolvidos numa aura e incompreensão tal como nosso psicológico mais profundo e enclausurado.
“Just because you are used to something doesn't mean you like it.”
Real.: Lynne Ramsay / Int.: Tilda Swinton, Ezra Miller, John C. Relly
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