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3.11.12
3.11.12

Um Bond com cicatrizes!

 

Podíamos sentir-nos enganados, e temos todos os motivos para isso, visto que prometeram-nos um Bond à moda antiga, “old school” como quiserem chamar, contudo, não foi este o caso. Ao invés disso o que nos apresentaram foi um 007 fragilizado, um ser humano sob a pele de frio tarefeiro ao serviço de sua Majestade, um James Bond com um passado, com memórias e com afecto, e imaginem só, até mesmo com tendências para choros. Porém, este não foi a primeira mudança de um James Bond, que segundo os peritos, a figura que a nova geração merece, com Casino Royale [ler crítica]de Martin Campbell (2006), um reboot que pretendia afastar de toda a “parolice” e a exaustão de gadgets que havia instalando nos seus últimos tomos, a criação de Ian Fleming já havia sofrido algumas drásticas alterações. Sem obviamente falar da escolha de Daniel Craig para o tão requisitado papel, cujo seu físico foi desde sempre um abalo para os fãs, que contrariava tudo o que estes defendiam na personagem que perdurava à cerca cinquenta anos no cinema.

 

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Em Casino Royale vimos James Bond apaixonar-se e a sofrer pelos irremediáveis actos amorosos, o seu universo foi transformado e convertido aos dias mais actuais, com isso adquirindo astúcia e perícia. Apresentou vilões frágeis mas com sempre pé no realismo e as “bond girls”, anexados atractivos visuais, ganharam uma nova dimensão neste recente no franchise. Passados dois anos surgia entre nós a segunda aparição de Craig como BondQuantum of Solace [ler crítica], que detém à data, ao lado de Octopussy, no capitulo com o título mais sugestivo. Este episódio filmado por Marc Forster (Monster’s Ball, Finding Neverland), não obteve a mesma frescura concentrada em Casino Royale, mas conservou a ousadia no seu próprio universo e a actualização digna de uma era pós Jason Bourne  (indicado como o principal influente na metamorfose do personagem de Fleming).

 

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Agora com Skyfall, a fasquia foi novamente apontada ao auge, sentimos então que este capítulo foi feito a ser pensado como o último de um legado majestosamente transportado por Daniel Craig. Nesta obra de acção de Sam Mendes, o homem por detrás de um dos filmes norte-americanos mais influentes dos anos 90, American Beauty, encara James Bond como uma peça de museu, um objecto obsoleto, atirado e julgado numa época que segundo M, de Judi Dench, envolvida em sombras, sem transparência, onde parece não reconhecer mais a identidade e natureza do inimigo. Este é o autêntico “Este País Não É Para Velhos”, um tratamento quase darwinista de um herói clássico, porém, adaptável para as eventuais e futuras gerações.

 

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Tal como o personagem, até em Skyfall, o universo de James Bond desaba, modifica, transforma-se, enquanto é cruzado com os elementos da velha guarda. As referências que marcaram e que ditaram o franchise com a nova legislação que atravessa o puro cinema de acção. Com a apresentação de velhos personagens sujeitas a novas facetas (um Q geek e jovem promissor interpretado por Ben Whishaw, até a célebre Moneypenny faz a sua entrada neste capitulo sob o olhar atento da mudança sem preconceitos), uma assumida “bond girl” com um carisma fora do normal dentro desse estereótipo (Bérénice Marlohe é um achado), visto que tudo aponta para Judi Dench, e a sua respectiva M, funcionar sob essa patente. Por fim temos Javier Bardem a oferecer psicopatia ao vilão Raoul Silva (fala-se de ser um personagem de nacionalidade portuguesa), o regresso em grande e até sádico dessas figuras antagónicas megalómanas que a nova saga sugeria ter abandonado. O retorno deste modelo aponta claramente para uma homenagem servida ao espirito de tão célebre franchise.

 

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Skyfall funciona como um filme impar na carreira de tão famoso agente da MI6, que nos reserva um catálogo de top sobre os próprios códigos dos ensaios de acção, colocando em risco a sobrevivência do legado, mas submete-la ao seu último estatuto. Mas acima de tudo é dos poucos, e não somente dentro da saga, mas também do cinema em geral, que consegue equilibrar acção brutal com delicadeza mensurada e a auto-referência, algo que Christopher Nolan não havia conseguido fazer com outro personagem lendário e convertido, Batman, tendo "tropecçado" com o seu esperado desfecho em The Dark Knight Rises. Todavia, Sam Mendes tornou esta nova incursão numa experiência de tamanha qualidade, inteligência e respeito para com a sua personagem.

 

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Vale ainda a pena destacar o genérico inicial acompanhado ao de “Skyfall” de Adele, o qual recria um dos momentos mais clássicos desde Goldeneye, interpretado por Tina Turner. É que surpresas esperam neste Bond revisitado e transformado, o qual arrisco-me a afirmar o facto de estarmos perante no mais perfeito e emocionante filme de 007 até à data. Merece ser sobretudo recordado.

     

Where the hell have you been? / Enjoying death.

 

Real.: Sam Mendes / Int.: Daniel Craig, Javier Bardem, Judi Dench, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Ben Whishaw, Helen McCrory, Ralph Fiennes, Albert Finney

 

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9/10
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publicado por Hugo Gomes às 02:01
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1 comentário:
De Gustavo a 16 de Novembro de 2012 às 22:48
Apesar de ter gostado mais de Casino Royal, este é um dos melhores filmes de james bond. Parabéns


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