O filme que Salazar não quis que ninguém visse!
Há 70 anos, Portugal era muito diferente do que se encontra nos dias de hoje. Assistíamos a um país limitado no seu tempo, retardado por assim dizer, sem qualquer chance de desenvolvimento em qualquer dos sentidos. Vivíamos uma perante ditadura. António Oliveira de Salazar regeu uma nação a punho e ferro, censurado e amputado. E foi há menos de um século que uma equipa norte-americana de cinema concretizava nas nossas terras um filme tão distinto na nossa filmografia como verdadeiramente único. Enquanto filmavam a dita obra, pouco tempo foram descobertos pelo regime, o qual informaram-se sobre o filme em questão e sobretudo o seu conteúdo. Provocador que era o argumento, ataque directo da ditadura em si. Os envolvidos foram assim expulsos da nossa nação enquanto os actores portugueses que desempenhavam a fita … bem … os seus destinos foram menos felizes, tendo sido levados para a prisão do Estado, Tarrafal, onde acabaram por morrer.
O filme maldito tinha como titulo O Barão e era uma adaptação de uma obra homónima escrita Branquinho da Fonseca e do conto O Involuntário, também do mesmo autor. Com triste rumo a fita ficou perdida durante décadas até ter sido descoberto e recuperado pós-25 de Abril pelo Cineclube do Barreiro, mais concretamente pelo realizador Edgar Pêra, que decide então homenagear tal feito concretizando assim um remake. O Barão fala-nos de um inspector do Ministério da Educação (Marcos Barbosa) que chega a um aldeia perdida e remota a fim de executar uma inspecção a uma escola primária. É recebido então pelo Barão (magistral empenho de Nuno Melo), figura “draculesca” que governa a localidade com a maior das friezas e sem um pingo de misericórdia. Porém é na verdade uma "criatura" fragilizada em busca do amor que está a condenado a nunca consumar.
As referências à ditadura portuguesa está à vista de todos, pormenores ácidos e metáforas cruéis de um país governado pela ignorância e obsessão. Nuno Melo interpreta assim este “vampiro” da sociedade, o qual cita constantemente “quem manda aqui sou eu”, a figura impar do actor a um personagem que serve apenas de puro ataque a Salazar (até Coimbra não é mencionada em vão). Fora do Barão, todo o redor corresponde a um país à procura de piedade e cegamente oposta à esperança e luta. É então que chegamos à serva do Barão, Idalina (desempenhada com classe e alguma sensualidade mórbida unificada com graciosidade por Leonor Keil), que apesar de servir o seu mestre, este teme-a graças ao seu jeito desafiador, rebelde e nada conformista, uma clara metáfora à liberdade imposta pelas forças resistentes que actuaram no nosso pais e que culminaram mais tarde a marcante data do 25 de Abril.
Com tanta referência que soam a metáforas julgadas ao "Deus dará", O Barão é um filme raro de pura expressão técnica, manipulação que por si já é uma menção. Destaca-se as expressivas legenda em inglês até à insegura manipulação visual obsoleta, por exemplo a sobreposição exaustiva de imagens. Tão singular e único na nossa filmografia, Edgar Pêra conseguiu com uma homenagem cinematográfica converte-la num espelho angustiado de épocas negras governadas por figuras igualmente negras, vampiros da sociedade, ingénuos para com o futuro de uma grande nação. A ditadura fascista portuguesa representada como um filme de terror anos 30 se tratasse, morreu já faz tempo. Mas as suas assombrações ainda ecoam na nosso sociedade, talvez seja por isso O Barão possui uma aura tão imponente e de certa forma herege.
“I’m the one in Charge – Aqui quem manda sou eu”
Real.: Edgar Pêra / Int.: Nuno Melo, Marina Alburqueque, Marcos Barbosa, Leonor Keil
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