Atrás das Linhas do Inimigo!
O Guerra e Paz português, segundo o produtor Paulo Branco o que mais identifica a última grande produção lusitana, As Linhas de Wellington, uma viagem a um Portugal ameaçado por tropas francesas de Napoleão Bonaparte e defendida com um exército anglo-português arquitectado pelo célebre Arthur Wellesley, Duque de Wellington (aqui interpretado por John Malkovich). A ideia desta produção de fulgor épico mas dramaticamente retractivo e ilustrativo surgiu por parte do produtor português, Paulo Branco que após ter sido convidado para as comemorações do bicentenário das Linhas de Torres Vedras, por parte da Camara Municipal, contactou Carlos Saboga para escrever um guião que aborda tal acto histórico e triunfante na Historia Bélica Portuguesa.
Saboga havia escrito Os Mistérios de Lisboa, outra colossal produção nacional, baseado numa homónima obra de Camilo Castelo Branco, que caiu nas mãos do cineasta chileno Raúl Ruiz que concretizou-o triunfantemente. Aliás esta As Linhas de Wellington era sobretudo um filme de Ruiz, já que este o projectava mesmo antes de falecer, pelo que o seu legado foi deixado para a sua viúva, Valeria Sarmiento. Uma obra que resultou num ensaio detalhista de reconstituição histórica, onde somos celebrados por um rigor técnico invejável não apenas dentro do nosso panorama cinematográfico. Com o dispor de um elenco de luxo e internacional, As Linhas de Wellington é constituído por múltiplas narrativas todas elas de carácter figurativo sobre os horrores e consequências desta batalha, somos apresentados a um país à mercê da misericórdia e levado à deriva.
Um retrato de um Portugal infringido e acorrentado á sua limitação, reflexo daquilo que hoje somos e que convertemos. Todas as histórias apresentadas se cruzam, nem que seja por uma ponta em comum, obviamente com umas a puxar mais interesse que outras, e alguns apenas presentes como mero tópico. Mesmo com esforço reconhecível por parte dos integrados e um elenco prestável e por vezes poético, As Linhas de Wellington apenas peca não pela sua longa duração (claro, que comparado com as quatro horas de Os Mistérios de Lisboa, as duas horas e meia do filme de Valeria Sarmiento não são nada) mas pela fraca aprofundamento de algumas histórias e personagens, e pela inserção de outras que nada auferem sem ser inutilidade na narrativa.
No geral Sarmiento consegue um feito, um filme tecnicamente e de abordagem notável, simbiótico com a paisagem da serra do Buçaco e arredores e um aproveitamento glamouroso de um vasto elenco, porém mesmo que nunca saberemos é de imaginar que nas mãos de Raúl Ruiz o resultado poderia ser outro, talvez mais descritivo e poderosamente dramático. Uma fita obrigatória para todos os portugueses, porque finalmente a nossa rica história já está a servir de palco para o nosso cinema.
Real.: Valeria Sarmiento / Int.: Nuno Lopes, Carloto Cotta, Soraia Chaves, John Malkovich, Jemima West, Marisa Paredes, Filipe Vargas, Marcello Urgeghe, Victória Guerra, Adriano Luz, Miguel Borges, Vincent Perez, Afonso Pimentel, Gonçalo Waddington, Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Paulo Pires, Maria João Bastos, Mathieu Amalric, Melvil Poupaud, Michel Piccoli
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