Outro, mas continua o mesmo!
Após três anos desde o primeiro filme, o grande vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim (na altura foi uma decisão altamente discutida sobretudo pela mensagem politica que o filme transborda), eis que chega ao nosso país a sequela, Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro. Um filme de acção embuçado na realidade brasileira que volta a dar que falar, regressando ao seu tom de denúncia, desta vez direccionada à corrupção policial e acima do mesmo. José Padilha, havia-se tornado num autor após o sensacionalismo (nada exagerado) da obra anterior, o que evidenciou homenagem em apresentar a sequela no Festival de Berlim, porém fora de competição.
Tropa de Elite 2 volta emergir como um conjunto de crónicas do personagem Nascimento (novamente encarnado pelo formidável, Wagner Moura), desta vez promovido a Tenente-coronel e com um cargo importante no Gabinete de Segurança Pública, que observa impotente a queda do seu trabalho no ramo das forças especiais no combate ao crime face ao “veneno” que infecta o seu próprio sistema. Agora tendo um relevante papel de pai, Nascimento poderá ter amolecido, pensando instintivamente na segurança e bem-estar do seu filho. Para tal tenta controlar o seu ambiente em redor, mas tal como fera ameaçada, ascende sem pudor nem politicas na defensa daquilo que mais crê. Ao contrário do filme anterior que transcendia alguma violência visceral, Tropa de Elite 2 é menos brando com as palavras, furtivo nos pensamentos, mas sobretudo sempre com um olhar esperançoso em relação ao futuro do funcionamento do Brasil.
Nascimento está para os brasileiros como Dirty Harry está para os americanos, ele é o denunciador, o narrador, o critico de um sistema que funciona quando convém e convivente com os "podres" da corrupção. Ele cala “tubarões” com as suas mãos e nunca pensa duas vezes antes de falar. Condenado a ser um símbolo anti-heróico do país do Pão de Açúcar e do Cristo Redentor, Wagner Moura imortaliza um personagem, recria-o com ódio, angústia e mesmo incompreensão. Quanto ao realizador José Padilha, este encontra-se mais maduro no seu trabalho por detrás das câmaras, tecendo uma teia narrativa que transportará o espectador para dentro da intriga e obriga-lo a tomar partidos. Tropa de Elite é isto, um filme de acção longe da neutralidade, sem maniqueísmos, nem ideologias, mas sim, funcionando como um pedido de ajuda, provocador, de quem não pode mais assistir à decadência da sociedade em diferentes frentes.
Como sequela, Tropa de Elite 2 é um portento, um dos melhores alguma vez produzidos. Mas não se trata disso, nada resume a um 2 pendurado no título e à reciclagem de personagens, mas esta continuação, um retorno de uma história de violência tão realista para o dia-a-dia brasileiro, directo e de um discurso violento, comprova e revitaliza a crença na necessidade das sequelas. Segundo esta nova obra, trata-se de algo mais que somente comércio, o fortalecimento de uma mensagem e o visitar dos velhos personagens, confirmando seus desenvolvimentos . Este é um episódio que dificilmente foi concretizado em 2007 com a produção de Tropa de Elite, sendo que ambos se complementam, formando um projecto de maior magnitude. Objecto de culto, mais, motivo de intervenção.
Real.: José Padilha / int.: Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro, Milhem Cortaz, Maria Ribeiro, André Mattos
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