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27.3.11

Budapeste visto por Chico Buarque

 

Chico Buarque é uma das maiores personalidades do Brasil, ele é artista musical, dramaturgo, como também escritor. E como escritor que Chico Buarque se destaca neste Budapeste, adaptação cinematográfica do seu consagrado livro editado em 2003, vencedor do prémio Jabuti de Livro de Ficção do Ano em 2004. Livro esse que segundo José Saramago cita “(…) algo novo aconteceu no Brasil com este livro.". Quanto a Budapeste, tal como título indica, a acção da narrativa se centra na capital da Hungria que segundo o protagonista, um provável pseudónimo de Buarque, não é cinzenta que muitos acreditam, mas sim amarela.

 

 

A história se centra num “ghost writer”, os escritores anónimos, que vivem sobre a sombra de escritores de nome que recebem os louros pela produção destes, porém o brasileiro José Costa (ou Kósta Zsozé) quer mais do que simplesmente prestar serviço a outros, quer provar ser um escritor e ser reconhecido como tal, fazer da sua paixão algo merecedora. Quando recebe um desgosto amoroso, Costa se perde nas ruas de Budapeste e pouco a pouco perde a crença na sua linguagem mãe e abraça o húngaro, que segundo a misteriosa patinadora, Kriszta (Gabriella Hámori), é a única língua que o Diabo respeita, porque simplesmente não se aprende em livros.

 

 

Budapeste nos revela a fotogenia da obra literária para o cinema, aproveitado o ambiente da capital húngara para nos trazer a história de José Costa (Leonardo Medeiros) e a sua eterna batalha para dominar a língua húngara e esquecer as suas raízes, trocando o brasileiro solarengo para o nublado e frio Budapeste, mas sempre cheio de vida e rica em sabedoria. As suas aventuras se revelam a nível intrínseco, mas pouco intenso, tudo porque a obra-prima de Chico Buarque era de inicio difícil de transitar para o cinema. No seu processo de transição, perdeu-se cor, sentimentos e pureza, porém as imagens estão lá o que nos aufere excelentes momentos de pura genialidade artística. Das cenas mais marcantes da obra poderemos destacar, o corpo da mulher como livro, a lição de húngaro sobre correria e até mesmo frases de puro acentuo como “Para esquecer aquelas palavras ditas a Vanda, talvez fosse necessário esquecer a própria língua em que foram ditas. Talvez fosse possível substituir na cabeça uma língua por outra. Durante algum tempo minha cabeça seria assim como uma casa em obras. Palavras novas subindo por um ouvido e o entulho descendo pelo outro.” ou “A poesia desaba por dentro. Como o amor”.

 

 

Apesar da sua beleza quer visual quer sensorial, Budapeste não é um filme fácil de se gostar, sublinho que se assemelha a parecer longo graças a evolução do seu personagem principal, dinâmico em toda a narrativa, e para o grande público, os habituados aos blockbusters e grandes produções norte-americanas, o renegarão devido aos seus momentos ditamente “mortos”, que muitos classificavam. Com isso não permitindo que vejam os vestígios da grande obra por detrás de Budapeste, a aventura de um estrangeiro que vende a sua alma para se camuflar com o rio Danúbio, a artéria principal da cidade húngara. Vindo directamente da mente de Chico Buarque (que faz uma pequena aparição na fita) e executado com talento pelos seus protagonistas (destaque também pela participação dos actores português; Ivo Canelas e Nicolau Breyner) e pelo conceituado realizador Walter Carvalho (Abril Despedaçado, Central do Brasil, Carandiru). Para quem acredita no poder das palavras!

 

“Eu jamais tinha escrito um só verso em português. Mas em húngaro tornei-me poeta. Poderia escrever qualquer coisa.”

 

 

Real.: Walter Carvalho / Int.: Leonardo Medeiros, Gabriella Hámori, Giovanna Antonelli, Nicolau Breyner, Ivo Canelas

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:52
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1 comentário:
De Gustavo a 3 de Abril de 2011 às 15:47
Apesar de ser confuso, achei um excelente filme brasileiro, a mente de Chico Buarque é fenomenal


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