A velha raposa no novo milénio
Ao ver True Grit dos irmãos Coen de certa forma veio a minha memória a versão de Martin Scorsese ao filme de culto chinês Infernal Affairs, The Departed, obra essa, que venceu o Óscar de Melhor Filme e Melhor Realizador em 2007. Estas comparações devem-se a denominação destes supostos remakes levados a cabos por autores de nome na cinematografia norte-americana, porque sendo chamados de “versões”, apercebemos desde sendo que não se limitam á restauração de ideias e sequencias, á reutilização de personagens e situações em prol do mercado financeiro, a verdade é que tal como True Grit dos Coen e The Departed de Scorsese, a assinatura dos cineastas encontram-se registadas nas narrativas, caracteres e montagem, e tal como Orson Welles cita em F for Fake, nem sempre o que copia é menor ao original.
True Grit é a adaptação de uma obra de Charles Portis, que fora convertido a filme em 1969 por Henry Hathaway, num western protagonizado por John Wayne, que vence por fim a estatueta da Academia de melhor interpretação masculina. A versão de Hathaway, mesmo com aproximação dos anos 70, década marcada pela explosão de ousadia quer intrínseca ou gráfica do cinema de Hollywood, é um daqueles clássicos que segue á risca os moldes exemplares daquilo que era produzido pelos grandes estúdios norte-americanos antes da sétima década do século XX. John Wayne apresenta-se limitado á sua própria figura e o resto dos desempenhos são overacting.
Felizmente, a obra dos Coen, é um reflexo do western nos nossos tempos, perde-se o misticismo do género, aufere violência, maniqueísmos são despidos e de repente tudo torna-se cinzento, e não falo apenas da fotografia. E com o pretexto de não ser uma reinvenção do ensaio de Hathaway, mas sim uma adaptação mais fiel á obra literária de Portis, True Grit nos revela como a obra menos “coenesca” da nossa dupla de autores. E se formos por esse ponto, apercebemos da falta de identidade da fita, sendo que somos quase obrigados a exclamar que não estamos perante num filme realizado e escrito pelos galardoados par de realizadores que deram a sua espreitadela no aos poucos renascido género do western em No Country for Old Man (2007). Mas se não seguirmos ou procurarmos os maneirismos e marca dos Coen no filme, somos então surpreendidos num western puro e primitivo que emana certos toques da obra de Eastwood, o peso da idade e eminente da ameaça do fim da juventude são dois pontos perpendiculares dos dois estilos.
True Grit é mais melancólico e triste que a clássica obra antecessora, mas em comparação é uma bela contemplação de actores, entre os quais um fantástico Jeff Bridges, o desequilibrado e embriagado “marshall” Rooster Cogburn que John Wayne não conseguiu ser, e a revelação Hailee Steinfeld, que tem grandes hipóteses de cair em graça com o potencial Óscar de Melhor Actor Secundário. De resto temos Matt Damon, a provar que está longe de ser uma simples vedeta, Josh Brolin a subir degraus na sua ascensão como actor e Ned Pepper a tornar-se num secundário de luxo.
Dito isto, True Grit, Indomável pata os amigos, é um dos melhores westerns dos últimos anos, infelizmente falta-lha um pouco dos caracteres que sempre ditaram o género, mas é no seu completo um filme competente, tecnicamente de luxo e profissionalmente interpretado. Sem cair na heresia, esqueçam por momentos que existiu uma versão em 1969, a visão dos Coen é a definitiva adaptação do conto de Charles Portis.
Real.: Joel e Ethan Coen / Int.: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Ned Pepper
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