Velho Wall Street, novo Milénio!
Estreava em 1987, Wall Street, que consistiu numa das obras de culto da filmografia do ácido autor Oliver Stone, celebre como persona non grata da sociedade americana, reflectindo nas suas fitas a sua noção crítica do sistema e dos factos que marcam um país como vimos em Platoon (um despertar das memorias do realizador), Born on the 4th July (retrato acidifico da militarização dos EUA) ou até mesmo no recente W. (fita sobre a presidência de George W. Bush). Este Wall Street, que foi antes de mais o filme que garantiu a Michael Douglas o seu Óscar de Melhor Actor, é da carreira de Stone, o mais “entertainment”, cruzando o cinema de máfia com a geração yuppie que florescia nos anos 80.
Esta sequela ocorre 23 Anos depois, a personagem de Douglas, o notório Gordon Gecko, acabado de sair da prisão, confronta-se com uma vida solitária e recomeça do zero as suas etapas de sucessão, vendo no seu genro Jacob Moore (Shia LaBeouf) o seu eventual sucessor e a possível ligação para a sua “desaparecida” filha, aparentemente.
Ao contrário do seu antecessor, Money Never Sleeps (baseado numa das frases de Gecko no primeiro Wall Street) é uma abordagem á crise financeira que os EUA e o resto do mundo pronunciaram pós 11 de Setembro, e que ainda não se livrou totalmente. Este dito regresso á Grande Depressão assim por dizer é engraçadamente trazido por miúdos na película, convertido em momentos semi-apocalipticos e de grande emoção como tensão, por exemplo entre os personagens em plena sala de reuniões. Depois disso ainda contamos com as não favoráveis moralidades, que se baseia nas “soluções” que o argumento de Allan Loeb e Stephen Schiff tenta dar para estas quebras na sociedade.
Se Wall Street de 87 era um filme de realização moderna, mas mesmo assim muito 80s, Money Never Sleeps é sofisticado e de narrativa energética, com claras doses de montagem á la multimédia. Stone tem uma clara adaptação aos novos meios narrativos cinematográficos e com isso traz-nos uma sequela sedutora visualmente.
E tal como a versão dos anos 80, Wall Street é um filme de actores, com isso quer dizer que temos a nosso dispor um leque formidável dos mesmos, daqueles que só um nome como Oliver Stone poderia atrair. Michael Douglas encontra-se em grande forma após alguma ausência no cinema mais comercial, porém não em grande plano, nesse campo pertence um dos factores que nos inspira “modernização”, o “tapa-buracos” Shia LaBeouf, que havia desempenhado o filho de Indiana Jones, aqui súplica para ser o sucessor de Gordon Gecko. Mesmo assim o jovem actor que ficou celebre na mega-produção Transformers de Michael Bay, não chega sequer aos calcanhares da personagem de Gecko e tal como “manso”, os seus caracteres como protagonista requer mais da fama que o filme constantemente nos dá com habituais adjectivos á pessoa que a própria “persona” em questão. Devo dizer que LaBeouf é um erro de casting, mas a sua parceira romântica não, a nomeada ao Óscar, Carey Mulligan e os suas “covinhas”. Já que falamos no elenco não poderíamos deixar de assinalar as melhores interpretações da fita, que couberam a Frank Langella (hipnótico) e o ascendente Josh Brolin (óptimo como vilão).
Será que no final disto tudo, Wall Street – Money Never Sleeps seja uma sequela necessária? Obviamente não. A sua dispensabilidade é o seu maior erro tal como o seu excesso de melodrama, mas encarando que é uma solução mais favorável do que um remake do clássico dos anos 80 para os dias de hoje, então este Wall Street faz todo o sentido. Para sabermos que por vezes até os autores recorrem às sequelas.
PS – Não percam o cameo do actor Charlie Sheen como Bud Fox, que no original de 1987 era apontado como o sucessor de Gordon Gecko.
“Stop telling lies about me and I'll stop telling the truth about you.”
Real.: Oliver Stone / Int.: Michael Douglas, Shia LaBeouf, Carey Mulligan, Susan Sarandon, Josh Brolin, Frank Langella, Charlie Sheen
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