O fora-da-lei sem collants!
Vivemos numa época em que as desmistificações das velhas histórias de sempre são motivos de criatividade (ou talvez falta dela) no meio cinematográfico, já assistimos as conversões de King Arthur por parte de Antoine Fuqua e o seu complemento, The Last Legion de Doug Lefler, o revivalismo mais moderno e menos místico de Sherlock Holmes, a famosa personagem literária de Arthur Conan Doyle pelas mãos de Guy Ritchie, agora assistimos a vez de Robin Hood sob a responsabilidade da equipa produtiva de Gladiator, nomeadamente a presença do realizador, Ridley Scott e do protagonista, Russell Crowe.
Scott sempre se ambicionou aos chamados épicos históricos, sendo que The Duellists (1977) e 1492 – Conquest of Paradise (1992) deram lugar ao luxuoso Gladiator (2000), vencedor do Óscar de Melhor Filme e de Melhor Actor Principal (Russell Crowe), onde iniciou-se uma douradora colaboração entre director e actor. O épico de 2000 se exibiu como uma lufada de ressurreição dos velhos e invejáveis filmes de época onde a verdadeira arte e destreza se encontrava na reconstituição histórica presente nos cenários construídos de raiz, o guarda-roupa, as tramas sociais e as colossais batalhas, a partir daí Scott se auto-titulou de “rei do épico moderno”, sendo que tal cognome tem servido como promessa, tal como S. Sebastião esteve para o trono português. The Kingdom of Heaven de 2005 foi no entretanto a proximidade dessa fama, mas que resultou em algo demasiado ambicioso que o estúdio (20th Century Fox) arruinou com os mais variados cortes, é então que a desmistificação de Robin Hood é a segunda oportunidade do realizador reavivar o estilo épico que conseguiu com Gladiator.
Tendo a origem do arqueiro fora-da-lei como desculpa para esta nova incursão, em Robin Hood assistimos ao melhor e o pior de Scott em matéria de épicos, uma simples retrospectiva da sua filmografia. Russell Crowe veste a pele do Robin dos Bosques, um homem guiado por uma profecia reveladora para o futuro da Inglaterra, um soldado que toma a identidade de um cavaleiro morto em batalha. O actor foi criticado durante a produção da fita pela idade avançada e da baixa forma física, todavia tal como sucedera com o recente Sherlock Holmes, Crowe nos oferece um irreconhecível Robin Hood longe da graciosidade de Errol Flynn ou Douglas Fairbanks nas respectivas versões. Digamos antes que é o regresso do actor ao seu papel de Maximus no tão cobiçado Gladiator, fazendo assim Robin Hood numa espécie de versão 2.0 do grande filme de 2000.
Mesmo sem identidade própria, Robin Hood se escapa á palmatória pelos primeiros minutos, quando a narrativa dá lugar a uma bem engendrada trama que combina questões sociais e politicas da época, como abordagem das invasões gaulesas às proximidades do império britânico. O elenco não envergonha em nada, sendo que Cate Blanchett é das raras actrizes que consegue dar carisma aos seus personagens, Mark Strong é cada vez mais uma excelente escolha para vilão e William Hurt, Max von Sydow e Eileen Atkins são peças chaves. Caras pouco conhecidas; Léa Seydoux é no entretanto um nome a reter, a sua personagem não sendo das mais bem constituídas é de grande presença graças ao forte carácter da actriz que anteriormente vimos num pequeno papel em Inglourious Basterds de Quentin Tarantino, por sua vez, Oscar Isaac (Ágora) consegue criar o Rei João como sempre foi imaginado, louco, imaturo e sedento de poder, relembrando Joaquin Phoenix como Commodus no comparado Gladiator.
O problema de tudo isto é que Ridley Scott conseguiu o seu épico, mas nada do que vemos nos faz relembrar Robin Hood, somente passada duas horas quando Crowe pega no seu arco e flecha, sendo aí o vislumbre da mística figura folclórica. A narrativa descarta os seus personagens aos poucos, como também devo dizer que a batalha final saiu um fracasso inconsequente, e é com alguma tristeza que ainda digo que Ridley Scott fez algo de pretensioso, mas sem identidade ou com fidelidade á matéria-prima, um déjà vu com proporções épicas, resumindo um estilo de cinema com mais de 100 anos num blockbuster do nosso tecnológico e consumível tempo. Scott volta a desiludir.
Real.: Ridley Scott / Int.: Russel Crowe, Cate Blanchett, Oscar Isaac, Mark Strong, Eileen Atkins, William Hurt, Max von Sydow, Léa Seydoux, Danny Huston, Mark Addy, Kevin Durand, Matthew Macfadyen
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