O último e incompleto filme de Heath Ledger
Após 4 anos da sua fracassada produção Tideland (2005), Terry Gilliam, o ex Monty Python volta incursar os mundos paralelos e fantásticos intervenientes da sua imaginação. A sua filmografia rica em tais mundos que cruzam o surrealismo suposto com a fantasia metafórica e alucinante, desta vez Gilliam invoca a sua fantasia barroca e artesanal para suscitar um purgatório visualmente deslumbrante, sendo essa fantasia imaginária “dreamland” ser uma espécie de “fóssil vivo” numa época em que tais elementos são combinados com a sofisticação tecnológica e equipada com o fenómeno de moda denominada de 3D, obviamente falo do mega êxito de James Cameron, Avatar. The Imaginarium of Doctor Parnassus é mais uma fábula que cruza os toques já presentes na filmografia de Gilliam, o tom surrealista de Fellini, característica destacada pelos efeitos práticos e cénicos da fita como também na avaliação das suas personagens. Para além de isto tudo o filme que na nossa língua foi baptizada por Parnassus – O Homem Que Queria Enganar o Diabo será relembrado como o último filme de Heath Ledger, que empresta aqui a sua alma, não ao diabo literalmente, mas sim a uma personagem multi-facetada, dito na cultura popular, um sujeito com várias caras. Ledger desempenha a incógnita personagem de Tony, um homem apelativo na sua oração que ajudará Dr. Parnassus (Christopher Plummer), um homem com 1000 anos que encontra-se a merecer da maquiavélica mente do Diabo (Tom Waits), muitas vezes referenciado como Nick. E é nesta jornada de tão bizarras personagens que encontraremos um fértil campo divisório entre o misticismo infernal com a pura lúcida mente de Gilliam. Não sendo um filme perfeito, como é habitual na carreira do ex Monty Python, demasiado ambicioso para a sua própria concepção, mas mesmo assim é dos mais sóbrios filmes do autor que aqui soube comportar-se a altura de contornar a trágica morte de Ledger, utilizando a metáfora de multi-facetado, que no seu conceito foi interpretado por Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law, que prestam a cara às inconclusivas cenas de Ledger, nomeadamente as sequências em que a personagem é submetida ao purgatório de Dr. Parnassus. Internamente jovem, relembrado como uma promessa perdida, Heath Ledger que havia conquistado a estatueta póstuma de Melhor Actor Secundário na gala dos Óscares de 2009, apesar de tudo não consegue deslumbrar nesta fita mas o seu desempenho em tal é de ficar para a posteridade. Parnassus é mesmo assim uma fita bem interpretada, Christopher Plummer é um actor com boa postura trágico-dramática, Tom Waits é um Diabo apostador sínico e bem carismático e temos a revelação de Andrew Garfield (Lions for Lambs) e a bela Lily Cole. The Imaginarium of Doctor Parnassus é um antiquado filme de fantasia que não seguia pela esterilidade digital das mais recentes produções, mas mesmo assim é mais uma das promessas que ficou por cumprir de Terry Gilliam, detector de tão trágica carreira como autor cinematográfico, mas arrisco-me a assinalar como a fita chave que ditará na probabilidade uma revira volta na presença do «D. Sebastião» do cinema fantástico. O Homem Que Queria Enganar o Diabo não quer enganar o próprio espectador, assim sendo temos uma fita humilde, com pretensões para a complexidade, mas honesto quanto às suas complicações.
Real.: Terry Gilliam
Int.: Christopher Plummer, Heath Ledger, Lily Cole, Tom Waits, Andrew Garfield, Johnny Depp, Jude Law, Colin Farrell
A não perder – Heath Ledger pela última vez
O melhor – a imaginaria visão barroca do mundo de Gilliam
O pior – a narrativa não compensa a complexidade do argumento e do visual
Recomendações – Brazil (1985), The Adventures of Baron Munchausen (1988), Alice in Wonderland (2010)

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