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28.2.10

 

A Ilha do Silêncio!

 

Martin Scorsese é indiscutivelmente um dos maiores nomes do cinema contemporâneo, porém tal cognome faz com que a sua filmografia seja reconhecida, mas nunca deveras apreciada pelo grande público. Talvez e equivocamente lançado para um cantinho chamado de “cinema para intelectuais” e do “underground corner”, este “movie brat” sempre expressou o seu conhecimento pela História da 7ª Arte e a integridade do mesmo, contudo como todo o cineasta, o êxito comercial é um desejo a alcançar. E não é por falta de encontros com o  mainstream, sendo tal façanha iniciada em 1991 com o “remake” de Cape Fear (tendo já realizado em 1986 a sequela do filme The Hustler de Robert Rossen, The Color of the Money, mas que se revelou num filme mais próprio que comercial), com Robert DeNiro na pele do antigo personagem de Robert Mitchum na clássica versão de 1962. A fita conseguiu render os generosos 182 milhões de dólares em todo o Mundo e abriu espaço do autor na “stressada” indústria cinematográfica.

 

 

O seu maior êxito comercial foi ainda outro remake, desta vez a de um filme de Hong Kong venerado pela crítica e amado pelo público de nichos, Infernal Affairs de Wai Keung Lau e Siu Fai Mak. Esta nova variação, que teve como titulo The Departed, foi um projecto inicialmente anexado a uma nuvem de dúvidas quanto à sua razão de existência (tal como grande parte das refilmagens feitas actualmente). Porém Martin Scorsese dá a volta à situaçãoe concentra-se numa fraude no seu próprio género. O realizadordepositou num filme, que segundo a Warner, um puro exemplo de fita comercial, numa obra tão própria de um autor que retrata a violência como uma dolorosa beleza. The Departed não só rendeu 289 milhões de dólares em todo o Mundo como também presenteou a Scorsese o tão esperado Óscar de Melhor Realizador, tudo isto reivindicando que o mainstream é tão importante para a carreira de qualquer realizador do que muitos julgam e a capacidade de cativar o grande público e ao mesmo tempo atribuir à obra puramente comercial elementos do seu ego, a marca de autor, é algo notável para um homem que sempre desejou pertencer a algo, a novos desafios e a apelidação de novos públicos e audiências.

 

 

Devido a isso, The Shutter Island, marcado como a quarta cooperação com o actor Leonardo DiCaprio, é desde já a sua obra mais comercial, um thriller que na realidade é uma adaptação de um livro aclamado de Dennis Lehane, o mesmo de Mystic River (adaptado em 2003 por Clint Eastwood). The Shutter Island, que podia muito bem ser traduzido na língua de Camões como “A Ilha do Silêncio” (se não fosse a preguiça das nossas distribuidoras), centra-se na história de um agente federal, Edward Daniels (Leonardo DiCaprio) que é convocado a investigar o desaparecimento de uma reclusa de uma Instituição Prisional Psiquiátrica situada numa ilha remota de Massachusetts. Porém o que parecia um simples caso se torna num labirinto psicológico, onde Daniels e o seu parceiro (Mark Ruffalo) testemunham estranhos comportamentos e funcionalidades da Instituição que esconde mais do que o supostamente revela.

 

 

Este thriller remete-nos a uma prisão de grande pressão psicológica onde o autor consegue invocar o perfeito ambiente do livro através de uma complexidade que pode ser comparado com a exaustão de pensamentos e descrição da trama. Tudo isso pode ser transposto por exemplo na forma como Scorsese desconstrói uma arte surrealista e de marasmo através dos pesadelos da personagem Daniels, é inegável o toque de beleza por esses flashbacks oníricos, uma poesia nos frames que enriquecem com os diálogos desenvolvidos e adultos. Mistério, intriga, clima de relembrar os velhos clássicos do thriller como as fitas de Hitchcock, de Fritz Lang e até mesmo o suspense induzido pelos romances de Agatha Christie, The Shutter Island é uma obra tão “old school” como sofisticada visão do autor das mesmas peças.

 

 

A verdade é que toda essa intensidade não era possível se não fosse um actor que cada vez mais recusa o estatuto de vedeta, Leonardo DiCaprio, que consegue criar uma trágica personagem por vezes avassalado pela incerteza que partilha com o público até ao final, sendo este equilibrado com um twist que atinge o clímax em todo o seu esplendor. Michelle Williams é a tragédia em pessoa, num desempenho sólido e invulgar neste tipo de produções e projecções argumentativas, por outro lado, Ben Kingsley parece ter regressado finalmente aos bons desempenhos, neste caso ele é o sempre suspeito Dr. Cawley, muito relacionado com Daniels, mais do que ele e o espectador imagina. No resto do elenco temos Emily Mortimor a conduzir um momento glorioso, Max von Sydow que é sempre carismático e Jackie Earl Haley que sempre teve destaque nas personagens psicóticas. Com tanto talento junto, Mark Ruffalo é náufrago à deriva, neste oceano interpretativo.

 

 

Outros factores que superlativam o filme são as características técnicas; os cenários semi-góticos chegam a ser arrepiantes, acompanhados por uma fotografia cativante de Robert Richardson, quer no registo realista quer no onírico presente na narrativa. A banda sonora é porém trepidante. A entrada neste jogo de ilusões irá provocar certos danos, tudo porque mesmo disfarçado de produto tipicamente industrial, Martin Scorsese consegue a sua obra-prima, um thriller que deixará marcas!

 

“I wonder, is it better to live like a monster, or die a good man?"

 

Real.: Martin Scorsese / Int.: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Michelle Williams, Emily Mortimor, Max von Sydow, Jackie Earl Haley, Elias Koteas

 

 

 

 

A não perder – cinema comercial ou cinema de autor, fica no vosso critério.

 

O melhor – A complexidade e o onirismo surrealista da obra

O pior – nada assinalar

 

Recomendações – One Flew Over the Cuckoo’s Flew (1975), Ten Little Indians (1965), Identity (2003)

 

10/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:37
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7 comentários:
De Jackie Brown a 1 de Março de 2010 às 00:29
Ei, gostaste mesmo!

São estas críticas muito positivas que me estão a por doido. Tenho de ver este filme!!

Abraço


De Joao M. a 7 de Março de 2010 às 16:21
vi mas n gostei muito, é tipo seca, mas gostei do papel de Leonard Di Caprio


De Gustavo a 14 de Março de 2010 às 20:30
Martin Scorsese não faz maus filmes, não senhor, eu adorei este e segui a tua recomendação, foste tu que me fizeste ver este filme. Boa critica, parabéns


De Ricky Torero a 1 de Maio de 2010 às 21:36
Não achei muito bom como dizes, é muito aborrecido e confuso, longo demais


De mariana a 7 de Novembro de 2010 às 18:10
Este filme é de génio!!
Engana todos desde o inicio. Dá a volta á cabeça.
Mesmo assim não sei se realmente ele estava louco.
Acho que dá para as duas versoes.Isto é o mais estranho.
No inicio do filme ele não tem os cigarros com ele,ou algo deste genero.Talvez tenha sido drogado.è confuso..


De Pedrao a 28 de Setembro de 2014 às 13:04
Boa critica e boa nota irmão. Muito sinceramente acho que, quem não gostou do filme ou até o tenha achado uma "seca", aconselho sinceramente a revê-lo.
Enfim, hoje em dia é difícil encontrar filmes deste "calibre".

Um abraço Hugo


De Frederico Daniel a 22 de Janeiro de 2016 às 17:16
"Shutter Island": 5*

É um filme obrigatório. Com o seu desenrolar vamos descobrindo tudo e isso é-nos mostrado de uma forma magistral.

Cumprimentos, Frederico Daniel.


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