Uma comédia romântica lisboeta!
“In António-Pedro Vasconcelos i trust”. É de louvar que ainda exista alguém na industria cinematográfica portuguesa que consiga reconciliar com o público, ao mesmo tempo conseguindo transmitir algo mais que o mero amadorismo desleixado do costume. Vasconcelos é o verdadeiro realizador do cinema comercial português e desde O Lugar do Morto (1984) tem vindo a provar isso, combinando personagens bem construídas com intrigas que não se perdem em maneirismos ou na “xunguice ditamente tuga”. Até o seu último filme, Call Girl, que prometia mais um explorar quase pornográfico à pose sexual de Soraia Chaves, tornou-se num refrescante thriller ao nosso cinema ausente dele.
Agora é a vez de A Bela e o Paparazzo, pelo título se adivinha alguma variação do conto que a Disney ofereceu em 1991, mas afinal se trata de uma novelesca crítica aos órgãos de comunicação que parecem ser unicamente movidos pelo mediatismo e pela cultura decadente do português. Além desses temas que poderiam de facto servir para dar de algum modo o alerta e dramático ao filme, se convertem em algo tão descontraído face à homenagem que Vasconcelos queria dar dos "velhos clássicos" portugueses, aqueles que ainda continuam a ser o orgulho nacional em matéria de cinema. Nessa dita homenagem é de louvor deparar, tal como em Call Girl, com um patamar superior nos diálogos das personagens, o que o tornam memoráveis, não assistindo assim, ao excesso do calão e do mau funcionamento como em muitas series televisivas juvenis, nem sequer do pretensiosismo poético ou do incompreendido “non sense” de Manoel de Oliveira e companhia. O que vemos aqui, é sim, um elevado número de quotes, frases belas bem naturalmente integradas no diálogo, sem nunca perder o pingo da sua astúcia.
A Bela e o Paparazzo não é mais do que uma crónica ousada e mas ao mesmo tempo amorosa de uma actriz de telenovelas que possui o sonho de ser algo mais que uma simples audiência. A actriz, Mariana Reis (Soraia Chaves), por mero acaso, conhece João (Marco D’Almeida), que trabalha como paparazzi de revistas de escândalos e de mediatismo, mas claro escondendo a sua identidade da Mariana, a fim de viver uma intensa paixão. Tudo se enrola numa previsível história de amor, digna de Roman Holliday (William Wyker, 1953), composto por um ingenuidade formal e todos os lugares-comuns da dita comédia romântica americana, que tornam-se em recantos inexploráveis para o nosso pequeno cinema comercial. Em paralelo temos as peripécias de Tiago (Nuno Markl), um alter-ego do comediante e cronista, que declara independência do seu prédio e é a partir dele que vemos o maior número de referências do cinema romântico e clássico em geral. Quem não se lembra daquela raquete ténis utilizada para escorrer a água do esparguete no galardoado filme de Billy Wilder, The Apartment com Jack Lemmon? Pois bem, a dupla Vasconcelos e Markl incute tal termo, uma homenagem para alguns, pretensiosismo cinematográfico de fazer de conta para outros.
A Bela e o Paparazzo é também um veiculo mais sólido para Soraia Chaves comportar-se como actriz, o qual perde o seu anterior ar pornográfico que tem sido alvo (Call Girl, O Crime do Padre Amaro) e são lhe devolvidas os papeis que todas as actrizes anseiam, mais respeitosos como pessoa e como arte. Sem como isso querer insinuar que temos a nosso dispor uma actriz excepcional, porém, a sua vontade de aprender e a progressiva busca de sua entidade artística poderão fazer que daqui uns anos se converta numa Marylin Monroe do cinema português, isso provavelmente vos garanto. Quanto ao resto do elenco, não há dúvidas que a direcção dos actores foi conduzida de forma profissional, e nisso há que dar os parabéns. Eis um dos melhores projectos portugueses até á data, uma ternurenta e mas ao mesmo tempo ácida aventura amorosa. O mais divertido desde os proclamados clássicos! A reconciliação mais saudável com o público desde então.
“Numa noite um rapaz encontra uma rapariga sentada num banco de jardim, ela chorava com um telemóvel nas mãos. A partir daí o objectivo daquele rapaz era faze-la rir a todo o custo. Tropeçou, foi contra aos postes, recitou sketches dos Monty Pythons, até que por fim conseguiu lhe arrancar um sorriso. Se num dia sorriu, outro despiu, e foi então que uma vez esse rapaz acordou em sua cama e a rapariga não lá estava, em cima da mesma cabeceira estava um papel que dizia: tu fizeste me rir, mas ele é que me faz chorar”
Real.: António-Pedro Vasconcelos / Int.: Marco D’ Almeida, Soraia Chaves, Nuno Markl, Pedro Laginha, Nicolau Breyner, Virgílio Costa, Ivo Canelas, Maria João Falcão, Maria João Luís
A não perder – esperança no produto nacional
O melhor – Um homem chamado Vasconcelos
O pior – a promoção através da imagem de Soraia Chaves poderá iludir espectadores
Recomendações – The Apartment (1960), Roman Holiday (1953), Canção de Lisboa (1933)
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