Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
28.1.10

8,5 + 0,5 = 9

 

Depois do 8 e Meio vem o Nove, uma afirmação que não só transmite alguma sabedoria matemática (pronto, no básico senso comum), mas em termos cinematográficos transpõe nos à mercê de dois filmes que reflectem o tempo, a adaptação e o autor. Se Nove é uma espécie de descendente directo de 8 ½, o celebre filme de 1963 dirigido por Federico Fellini, uma onírica autobiografia onde o autor utiliza o seu heterónimo para descrever-nos o comum entre a vida cinematográfica e a pessoal (mais relacionado com o seu lado amoroso), é verdade a afirmação de que o filme de Rob Marshall não existiria se a visão pessoal de Fellini nunca tivesse sido feito.

 

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Nine (Nove), antes de virar filme, foi um musical da Broadway de êxito e quando se iniciaram rumores da sua adaptação cinematográfica, só um nome era capaz de preservar a sua essência na conversão de palco para ecrã. Rob Marshall é assim um realizador competente no tratamento do musical, sendo que o autor se expressa um enorme sonho de ter vivido nas eras em que os grandes musicais eram feitos e recebidos unanimemente nos cantos de Hollywood, exibiu tal talento e paixão na sua obra de 2002, Chicago, onde viu a vencer o Óscar de Melhor Filme, deixando para trás filmes como Gangs of New York, de Martin Scorsese e The Pianist, de Roman Polanski. Chicago era nele todo uma preservação do musical de palco fundida na narrativa mainstream de um filme (mesmo sendo conhecido nos dias de hoje como uma dos maiores equívocos dos Óscares, segundo as más línguas), a fita de Rob Marshall foi o seu bilhete de ida a um mundo cinematograficamente colorido, coreografado e sempre com desejo de palco.

 

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Depois do semi-fracasso de Memoirs of a Geisha, Marshall regressa à mesma formula de Chicago, cuja entidade musical está presente numa narrativa paralela acompanhados pelos variados elementos de um espectáculo de Broadway. Porém é verdade que Nine tem mais de Chicago do que de Federico Fellini, que infelicidade nossa o espírito influente do autor encontra-se apenas encarnada nas personagens e situações que são forçadas a manter o misticismo do seu teor, mesmo que a narrativa grita por aquilo que o realizador nos deu. Nine inicia-se como uma jornada musical do realizador Guido Contini (pseudónimo de Guido Anselmi, por sua vez o alter-ego de Fellini) que se encontra no meio de um bloqueio criativo, e vivendo sobre a sombra dos seus velhos êxitos, decide então explorar a sua própria alma afim de se libertar e concluir o seu novo filme, Itália.

 

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Se o espectáculo de cores, luzes e até mesmo a dança não nos impressiona, o elenco, esse, é já outra conversa. Daniel Day-Lewis é Guido Contini, o pseudónimo da personagem autobiografia de Fellini, mais uma demonstração do talento superlativo do actor, por outras palavras um sujeito apto para as mais destacáveis metamorfoses artísticas. Marion Cottilard, que interpreta a mulher de Guido, Luisa Contini, exibe o porquê que o Óscar de Melhor Actriz por La Vie En Rose não foi em vão, uma perfomance forte, agressiva, destroçada e sempre trágica, o mais sólido desempenho da fita. O seu desempenho numa das suas sequências musicais (Take It All) revela os seus dotes de talento que nenhum cinéfilo poderá ignorar.

 

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Marshall extrai em Penelope Cruz toda a sua sensualidade e exigência artística na dança, a sua perfomance musical no Call from Vatican é fenomenal e atrevida. Kate Hudson apesar de ser daquele tipo de actriz que brilhou uma única vez (Almost Famous de Cameron Crowe, desde então nunca conseguiu outro feito, tendo caído em projectos mal amparados e comédias românticas de sucesso fácil), em Nine, não é desta que se vinga. Porém a sua sequencia musical a liberta toda a sua energia para dança e “cantoria”, é que de certo que “Cinema Italiano” perdura nos ouvidos de muitos espectadores. Fergie possui a melhor voz, não é por estas, nem por outras, que a personalidade será sempre conhecido como uma cantora e não actriz, o seu momento musical é belamente coreografado “Be Italian”, uma homenagem á personagem Saraghina, em 8 ½, interpretada por Eddra Gale. Judi Dench e Sophia Loren são duas “senhoras” distintas do cinema, Loren prova com 70 anos que ainda detém uma beleza impar. Por fim e infelizmente, Nicole Kidman em modo ofuscado, presenteando um desempenho com mais glamour que alma, uma fantasmagórica sombra sem vida.

 

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Nine é assim, uma fita musical que de certo irá fazer parte da lista de favoritos de muitos, mas possui uma demasia no brilhantismo dos seus cenários e do respectivo elenco, que faz com que esquecemos que no fim disto, Rob Marshall não soube criar mais nada para além de invocar espírito repetente do seu Chicago. Eis um musical desequilibrado, mas com momentos de puro cinema.

 

"You're a world class liar, darling. Go out there and lie for Italy. Lie for Italia."

 

Real.: Rob Marshall / Int.: Daniel Day-Lewis, Marion Cottilard, Penelope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Sophia Loren, Fergie

 

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A não perder – um realizador perito para musicas à la Broadway, mas sem alma suficiente para preenche-los no grande ecrã.

 

O melhor – o elenco de luxo

O pior – Marshall deu-nos outro Chicago.

 

Recomendações – 8 ½ (1963), Chicago (2002), Moulin Rouge (2001)

 

Ver Também

8 ½ (1963)

 

Ver Outras Fontes

Split Screen – Nove, por Tiago Ramos

 

6/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:27
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