Pureza numa Roma impura!
Deslumbrante, sincero, cruel, como se estivesse entre o Inferno e Paraíso, foram estes os pensamentos que me surgiram ao ver uma obra tão moderna para o seu tempo como este La Dolce Vita. Muito longe do classicismo moralista e bastante pregado á religião de Hollywood, o cinema italiano foi de certa forma reconhecido pela sua ousadia, pela sua coragem e pouco receio de libertar-se na tela, onde o sexo e a crítica, duas palavras servidas como tabu na sociedade presente eram descritos como obras de artes de tratassem. La Dolce Vita de Frederico Fellini foi um dos seus pontos máximos de sua carreira, não só porque o inicio da colaboração entre o realizador e o seu actor predilecto, Marcello Mastroianni, como também foi um projecto envolto de tamanha polémica, o qual o autor o classificou como publicidade. Foi tentativa de alvo de censura, como também foi boicotada pela Igreja Católica, sendo Itália a “Casa” dessa religião (Vaticano). Porém tudo isso só serviu para realçar La Dolce Vita, filme esse, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1960.
A fita primorosa de Frederico Fellini retrata as aventuras e desventuras de um jornalista de escândalos, Marcello Rubini (Marcello Mastroianni) que se confronta com a podridão da alta sociedade e da manipulação religiosa (representada na cena do Milagre de Nossa Senhora). Não só pelo facto da critica religiosa estar presente na fita tenha desagrado a comunidade cristã, mas sim pela descrição de um vasto conjunto de imoralidades e pecados que são cometidos com uma leveza impressionante, a verdade é que na jornada decadente de Rubini, somos submetidos a um enorme conjunto de personagens todos eles compostos por mentiras, luxúria e alguns actos bem mais brutais, porém são vistos nos olhos dos outros ou nas lentes das câmaras dos paparazzis como um espectáculo lucrativo ou encarados com toda a normalidade.
Neste universo difícil de ingerir, a única pureza desta Roma que segundo o próprio Fellini é o estado de alma das personagem que o habitam, está descrita em Sylvia, a actriz norte-americana que viaja para Itália para participar num filme, interpretada por Anita Ekberg (War and Peace), sendo ela protagonista da pura inocência na cena da Fontana di Trevi, o momento mais emblemático com uma personagem bastante sensual e ousada no seu tempo, mas de certa forma pura e livre, uma santa entre os pecadores. Continuando nesse misticismo de La Dolce Vita é de nomear a revoltada prostituta da sociedade, Anouk Aimée como Maddalena (o qual Fellini invoca a homenagem á figura bíblica de Maria Madalena), um amor convertido em obsessão suicida, Yvonne Furneaux como Emma, a bomba relógio humana, Alain Cuny como Steiner (com um desfecho arrepiante, principalmente e volto a citar para um filme dos anos 60, cuja liberdade de expressão era mais abafada), o perdão em forma de figura paternal, Annibale Ninchi como pai de Marcello e a vendida com coração, Magali Noël como a dançarina Fanny. O neo-realismo que abraça a desgraça moral do ser humano, um jornalista em busca da paz intrínseca que se perde entre a loucura e o pecado, na eterna busca da Doce Vida.
Real.: Frederico Fellini
Int.: Marcello Mastroianni, Yvonne Furneaux, Anouk Aimée, Anita Ekberg, Alain Cuny, Annibale Ninchi, Magali Noël
A não perder – Uma das obras mais importantes da sétima arte
O melhor – a critica de Fellini representada em toda a narrativa
O pior – já ter descoberto alguém que afirma que La Dolce Vita não tem argumento, é puro lixo. Mas pronto, opiniões são opiniões.
Recomendações – 8 ½ (1963), Kiss Me, Stupid (1964), Il Casanova di Frederico Fellini (1976)
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Cinema is My Life – La Dolce Vita
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