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25.1.10
25.1.10

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A vida num filme, um sonho numa fita!

 

Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) é um realizador bem sucedido e de nome internacional que se encontra numa fase negra quanto a inspiração. Perdido entre uma crise de identidade e numa loucura artística, Guido vê a sua vida pessoal a desmoronar, enquanto, incansavelmente, procura aquilo que havia perdido, ou talvez aquilo que nunca havia tido. 

 

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Fellini 8 ½ é descrito como uma autobiografia do próprio realizador Federico Fellini, essa personalidade marcante do cinema italiano que invoca em Guido Anselmi, um alter-ego ao serviço de um oculto testamento. Uma visão intrínseca de um filme que cresce de dentro para fora e que convida o espectador a encontrar-se em frente a um pleno espelho de misticismo e de palavras soltas, reorganizadas na tendência de um onírico que desafia as ditas convenções de neo-realismo. Nesse foco com a arte executada e inovada por italianos, o surrealismo é bem-vindo, fomentando fantasmas e alimentando fantasias, pecados e ideais de um homem que tal como a personagem representada por Mastroianni se auto-titula como um dos grandes mentirosos, arrastado por uma vida sucessivamente guiada por mentiras e de ilusões imaginadas sob o efeito alucinogénico.

 

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Depois de La Dolce Vita, onde o dito neo-realismo dá braços a uma parábola achincalhado à comunidade artística, em 8 1/2, Fellini parece querer destroçar não só, o cinema italiano, assim como a sua própria posição enquanto artista mundial. A falta de inspiração e essa jornada assumida, não é só mais que macguffins para um reencontro pessoal do nosso "herói", mais perdido do que achado. Entre linhas, a crítica, réstias deixadas de A Doce Vida são emanadas por um desleixado fatalismo, até porque Fellini é um mero mortal, induzido pela sua posição, e estatuto assim adquirido, mas igualmente honesto para compreender que está longe de se encontrar acima de qualquer Homem. Entre os seus pecados, a luxúria insaciável, essa fome desgovernada que enquadra-se como o seu maior dilema humanitário e a sua profunda fantasia, essa que não nega e que não esconde dos demais. Através dessa sua grande "falha", enquanto herege que se auto-engana como homem de Deus, as memórias deslavadas, retratadas sob uma linguagem cinematográfica e o próprio signo de Fellini, a sua grande mentira que funciona como a sua verdade adulterada.

 

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8 ½ reside assim como um tributo do autor para ele próprio, onde deposita nele todo um Homem que só ele conhece, a obra de uma vida, assim por dizer. Por isso uma vez dentro de sua mente somos quase como obrigados a repudiar o seu ofício surrealista que aborda os seus sentimentos passados, cheios de simbolismo e representações fílmicas que de certo nenhum outro ser vivo poderá decifrar, nem sequer tentar ou pretensiosamente citar. Porque no fundo tudo aqui filmado e concebido foi apenas criado para agradar, não um vasto publico, mas sim um único Homem, o próprio Fellini. Porém, Marcello Mastroianni, um dos actores predilectos do italiano realizador, conseguiu de certa forma abordar uma personalidade complexa e inerentemente insatisfatória, se era isso o pretendido de Fellini, não saberemos. Contudo, é um desempenho e tanto, senão honroso de um ventríloquo assumir-se temporariamente como o seu ventriloquista.

 

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Voltando ao bem comum que Fellini expressa constantemente, a Bela Mulher Italiana, representada por um belíssimo leque de dotadas actrizes que vão desde Claudia Cardinale até a uma exuberante Anouk Aimée, como Luisa Anselmi, esculturas vivas que servem de separadores para uma vida indecifrável readaptada sob código morse. No final, como cita Jean Rougeul, que compõe um crítico de cinema “para os produtores, um filme falhado é um factor económico, para o realizador representa a beira de um fim”. Felizmente, 8 1/2 foi uma catarse de um realizador, longe do fracasso, e perto da cumprida meta pessoal. Um dos melhores filmes de Federico Fellini e provavelmente uma das mais enigmáticas obras do Cinema Mundial.

 

"Mie care, la felicità consiste nel poter dire la verità senza far mai soffrire nessuno."

 

Real.: Federico Fellini / Int.: Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimée, Sandra Milo, Rossella Falk, Jean Rougeul

 

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A não perder – um espelho distorcido e indecifrável da incontornável figura de Federico Fellini

 

O melhor – ser um filme diferente dos outros

O pior – ainda existir gente que pergunta “Federico quem …?

 

Recomendações – La Dolce Vita (1960), Il Casanova di Frederico Fellini (1976), Nine (2009)

 

Ver Outras Fontes

Cinema is My Life – 8 e ½

Split Screen – 8 1/2, por Tiago Ramos

 

 

10/10

publicado por Hugo Gomes às 23:35
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3 comentários:
De Tiago Ramos a 26 de Janeiro de 2010 às 00:20
8 e ½ (título português) é uma das mais fantásticas obras do Cinema. A confirmação de um cineasta genial, único e competente, que resulta num dos mais inspirados filmes da História do Cinema. Uma obra-prima!


De Flávio Gonçalves a 26 de Janeiro de 2010 às 00:32
Tanta crítica boa, Jesus! Não passa desta semana, a visualização, definitivamente. Gostei de ler a opinião, a primeira da iniciativa! ;)

Já agora, mudei-me do Flavio's World para O Sétimo Continente - www.osetimocontinente.blogspot.com - Se puderes, passa por lá, comenta e linka-o!

Abraço!


De Roberto Simões a 27 de Janeiro de 2010 às 10:11
Aqui sim, estou perfeitamente de acordo com a nota e a sentença! ;) 8 1/2 é, simplesmente, um dos filmes mais geniais alguma vez feitos.

Cumps.
Roberto Simões
CINEROAD - A Estrada do Cinema
(http://cineroad.blogspot.com/)


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