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1.1.10

O poder da dedução.

 

Tal como acontecera com outra personagem literária, o James Bond de Ian Fleming, que teve direito à sua sofisticação em Casino Royale, de Martin Campbell (convertendo-o num herói mais moderno e menos cândido), o novo milénio parece também apropriar do seu próprio Sherlock Holmes. Longe da figura vitoriana e imaculada da mente de Arthur Conan Doyle, eis um ser imundo, irónico e violento, cuja dedução extraordinária de uma mente brilhante seja talvez o que resta da fonte primária. Robert Downey Jr. é o "cabecilha" desta nova transformação, interpretando uma versão egocêntrica para com a personagem de Doyle, o qual, nós espectadores, somos deduzidos por uma carisma natural de quem, com tais "utensílios" desempenhou o Iron Man (Jon Favreau, 2008), e não os tiques clássicos da figura literária que fora inúmeras vezes reproduzido no grande ecrã.

 

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Vale a pena relembrar que a primeiro participação desta personagem no mundo cinematográfico decorreu em 1905, com a intitulada curta Adventures of Sherlock Holmes, de J. Stuart Blackton, onde Maurice Costello (uma das estrelas do cinema mudo que não conseguiu sobreviver na transposição sonora) interpretava o homónimo detective. Este início serviu de catapulta para que a "criação" de Doyle, outrora aventureiro do mundo literário que por si gerou um dos primeiros franchisings do século XX, fosse agora protagonista dos mais variados mistérios cinematográficos, desde a série de filmes interpretada por Eille Norwood (que parece ter nascido para o papel desempenhado de 1921 a 1923), passando por Basil Rathbone, que interpretou um dos melhores capítulos The Hound of the Baskervilles (1939, Sidney Lanfield). Mas antes de Robert Downey Jr., afastá-lo do habitual snobismo, é de salientar as encarnações de Peter Cushing no final dos anos 50, Robert Stephens na visão pessoal de Billy Wilder (The Private Life of Sherlock Holmes, 1970) e até Peter O’Toole no começo da década de 80.

 

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Todavia, voltando ao sofisticado Sherlock Holmes de Guy Ritchie, somos surpreendidos com uma cómica figura no limiar da natureza do actor com a insólita caracterização do autor. Com o mesmo tratamento obteve Watson, o fiel companheiro de Holmes, que aqui se encontra longe do anafado e inseguro médico. Agora interpretado por um eficaz Jude Law, eis um brutamontes veterano de guerra que muitas recorre aos arquétipos de “ama-seca” do nosso protagonista, como também o seu mais fiel conselheiro. uma espécie de “alma gémea” de camaradagem, que sem ele Holmes nunca estaria completo. A química entre ambos (Downey Jr. e Law) é facilmente jogável e flexível com a intriga proposta.

 

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Nas ruas hibridamente digitais desta Londres vitoriana, caminha também Rachel McAdams como uma das rivais do nosso detective misantropo, provavelmente a sua única paixão fora o mistério em si (e obviamente o incontestável ego).  Ela que fora a inimiga de Holmes no capítulo Scandal in Bohemia, adaptado em 1921 para o cinema e mais recentemente em 2001 para a televisão produzido pela Hallmark, exibe uma graciosidade estética, mas nunca convence como antagonista que é. Para tal papel recorre-se a Mark Strong, como Lord Blackwood, que funciona como o vilão de serviço, preenchido com uma enigmática aura, provavelmente sob influência de um Christopher Lee. O actor que Guy Ritchie tentou celebrizar em RockN´Rolla (2008), o qual nos ofereceu um forte empenho, é já uma presença habitual nas suas produções, e em Sherlock Holmes poderá por fim, encontrar o seu bilhete de ida para o estrelato. Destaque também para Kelly Reilly que vimos amedrontada em Eden Lake, de James Watkins, aqui, como Mary, noiva de Watson.

 

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Enfim, se a personagem de Arthur Conan Doyle perdeu o seu espírito, nisso verifica-se em Guy Ritchie, que parece realizar um filme sem a sua alma, onde a única sequência que visualizamos e que reconhecemos como toque pessoal do autor é o combate organizado com o nosso protagonista, em que ele com uma experiência notável em artes marciais consegue “desfazer” o seu adversário em poucos segundos. Aqui são utilizados os mesmos efeitos slow motion da mítica cena de Snatch, com a personagem de Brad Pitt, Mickey O'Neil, em perfeita perfomance numa das mais delirantes sequências de acção do cinema recente.

 

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Todavia, apesar da sua intensa sensação de plasticidade transvestida, Sherlock Holmes funciona como um aventureiro divertimento que nos faz esquecer por momentos que estamos perante na mais recente adaptação da velha personagem de Doyle. Não conserva os seus maneirismos, nem sequer espírito, mas à sua maneira mais libertina e livre permanece a sua classe e astúcia. Uma experiência de liberdade criativa e de requisitos autorais!

 

Real.: Guy Ritchie / Int.: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdam, Mark Strong, Eddie Marsan

 

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A não perder – uma visão moderna de Sherlock Holmes

 

O melhor – a dupla Downey Jr. e Jude Law

O pior – existe muito pouco do espírito de Arthur Conan Doyle

 

Recomendações – The Private Life of Sherlock Holmes (1970), The Hound of the Baskervilles (1939), Snatch (2000)

 

Ver Também

The Private Life of Sherlock Holmes (1970)

 

Ver Outras Fontes

Ante-Cinema – Critica «Sherlock Holmes»: Um Detective Aventureiro

6/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:39
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2 comentários:
De Jackie Brown a 2 de Janeiro de 2010 às 01:07
Apesar de tudo, anseio-o bastante.

Abraço

P.S.- Os nomeados para o Cinebloggers awards não saiam hoje?


De Sam a 2 de Janeiro de 2010 às 15:44
Caro Cinematograficamente Falando,

Os Óscares de Marketing Cinematográfico, iniciativa que pretende nomear o melhor que se fez em publicidade de Cinema no ano de 2009, estão de regresso ao Keyzer Soze’s Place.

Assim, convido o autor deste blog a expressar a sua opinião em http://sozekeyser.blogspot.com/2010/01/oscares-de-marketing-cinematografico-2.html.

Desde já, apresento o meu profundo agradecimento na sua disponibilidade para participar nesta iniciativa.

Cumprimentos cinéfilos!


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