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2.10.09

Anos sob pressão!

 

John Dillinger foi muitas vezes comparado como um Robin dos Bosques do século XX, mas ficou marcado como um dos maiores, se não o mais conhecido, gangster da era da Depressão, característica pela crise económica global o qual encontrava-se anexada a fome, o desemprego agravado, degradação e neste caso a violência, o crime organizado por exemplo. Um regresso à época do Faroeste, onde os supostos “cowboys” encontram-se “disfarçados” de gentlemen num cenário donde o qual os EUA seguia os grandes avanços tecnológicos e sociais. Dillinger foi talvez o gangster americano mais amado e mais adaptado ao cinema, a sua vida romanesca o levou a ser história para uma dezena de filmes entre os quais Dillinger de Max Nosseck, realizado em 1945 ou a versão 1973, como também serviu de inspiração para muitas outras personagens fictícias, consolidando com um novo estereótipo, o do gangster dos anos 30. O seu riso malicioso é imagem de marca de um criminoso apaixonado pelo pecado capital e carnal, pela adrenalina e pelo amor da sua Billie Frechette, que no filme é interpretado por Marion Cottilard.

 

 

Public Enemies, tal como eram designados os mais procurados criminosos da época, é o novo filme de Michael Mann, um pioneiro do neo-noir (um descendente directo do clássico film noir) e da handycam (característica verificada nos suas ultimas obras), o qual oferece ao espectador uma sensação de realismo e vivência acrescida. Mann é também um mestre nos romances citadinos abundantes de violência e crime organizado como Miami Vice (que no geral era um romance entre a personagem de Colin Farrel e Gong Li, tendo como pano de fundo era uma infiltração policial) e Heat (1995), o parente mais próximo de Public Enemies, o qual as relações entre um criminoso procurado e uma descoberta amorosa como também a sua química com o policial que o perseguia são retratadas como meras alusões a Shakespeare. Contudo tal equação é de maneira idêntica, porém de enquadramentos temporais diferentes, para com a obra Public Enemies, que poderá ser induzido como um spin-off da obra mestre do realizador. 

 

 

Se em Heat tínhamos dois dos pesos pesados da interpretação norte-americana, Robert DeNiro e Al Pacino, nos eventuais papéis de “gato e rato”, em Public Enemies temos na provável das ideias os seus antecessores no mesmo ramo, todavia são hoje os protagonistas dos maiores êxitos de bilheteira, Johnny Depp (a trilogia Pirates of Caribbeans) e Christian Bale (de The Dark Knight de Nolan) na equivalência dos mesmos desempenhos. Depp é Dilinger, o criminoso com o seu sorriso malicioso (detalhe característico de John Dillinger) e Bale é Melvis Purvis, um furtivo agente da FBI que persegue insaciavelmente Dillinger, num perigoso jogo. Tudo isto poderia resumir a uma simples variante de The Jackal, mas não, Mann sempre teve “olho” para mais e tal como ele fez com Heat, em Public Enemies enche-o com os elementos do cinema neo-noir (enquanto que a fita em questão poderia invocar a sua influência primordial, tendo em conta o ambiente envolto). Não é por menos que este Public Enemies é mais um romance “manneano”, cujos tons shakespearianos fazem sentir numa meia hora final de puro fulgor poético. O romance é protagonizado por Dillinger (Johnny Depp) e Billie Frechette (numa bem conduzida Marion Cottilard), mas que não se resume ao ênfase de toda a sua narrativa, o filme prefere antes seguir o registo que tributa, deixando o dito romance para segundo plano, enquanto tenta aproximar o seu criminoso ao "herói".

 

 

Public Enemies poderá ser das apostas cinematográficas mais majestosas do ano, não muito derivado do seu conteúdo, mas pela rigorosa reconstituição histórica e pelo facto de Mann ser um poeta vivo no que requer na concepção de alguns planos. A verdadeira homenagem ao cinema de gangsters dos anos 30, 40 e 50, com referências a tudo e mais alguma coisa e com Depp a provar ser dos actores mais versáteis do seu tempo (desta vez tem ares de Clark Gable). Infelizmente, o mesmo não pode dizer de Christian Bale, que parece ter ficado na “sombra da bananeira”, preferindo dar a sua presença que propriamente recriar personagens, em Public Enemies ficou-se pelo seu “alter-ego” adquirido nas duas obras de Batman ou no recente Terminator Salvation.

 

 

Todavia sente-se que Public Enemies (Inimigos Públicos em titulo traduzido) tinha tudo para ser uma grande obra, mas preferiu ficar como um grande filme. A sua narrativa esquemática e de registo limita Mann a “lançar asas ao horizonte”. Mesmo sendo uma revisão de Heat, parece por vezes encontrar-se mais próximo do académico American Gangster de Ridley Scott, porém a vitalidade de Mann faz toda a diferença … e Johnny Depp também.

 

"I was raised on a farm in Moooresville, Indiana. My mama died when I was three, my daddy beat the hell out of me cause he didn't know no better way to raise me. I like baseball, movies, good clothes, fast cars, whiskey, and you... what else you need to know?"

 

Real.: Michael Mann / Int.: Christian Bale, Johnny Depp, Channing Tatum, Emilie de Ravin, Marion Cotillard, Billy Crudup, Giovanni Ribisi, Stephen Dorff

 

 

A não perder – um filme de gangsters que bebe da mesma agua que as fitas congéneres dos anos 30.

O melhor – A última meia hora

O pior – ficar-se pela esquematização narrativa, Bale em versão automática

 

Recomendações – American Gangster (2007), Heat (1995), Dillinger (1945)

 

Ver Também

American Gangster (2007)

Heat (1995)

 

Ver Outras Fontes

Ante-Cinema – Critica «Inimigos Publicos»

Split Screen – Inimigos Publicos, por Tiago Ramos

Cinema is My life – Public Enemies

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:34
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1 comentário:
De Tiago Ramos a 4 de Outubro de 2009 às 15:35
Uma das melhores surpresas do ano. Uma realização excelente de Michael Mann!


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últ. comentários
Título do post muito criativo.
Legal o tema do post. Parabéns.
Aguardando. Blog bem legal!
Um luxo de actores num filme de lixo, repito LIXO....
Gostei muito da crónica. Vou acompanhar o seu blog...
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