Data
Título
Take
7.3.09

Real.: Zack Snyder

Int.: Malin Akerman, Billy Crudup, Matthew Goode, Carla Gugino, Jackie Earle Haley, Patrick Wilson, Jeffrey Dean Morgan

 

 

Alan Moore em conjunto com o desenhista Dave Gibbons criou em 1986 a 1987 a mini-série de comics, The Watchmen, editada pela DC Comics, o qual se constituiu um complexo olhar á filosofia envolto dos super-heróis, reunindo elementos mais básicos de um simples BD, com o género de detectives e uma incursão ao mundo real, como o conflito da guerra no Vietname e a ameaça nuclear da Guerra Fria. A premissa relaciona o olhar de várias personagens acerca da misteriosa morte de um dos Watchmen (uma elite de super-heróis), The Comedian como era conhecido, se encontrava aposentado das suas funções humanitárias, sendo o mais ambíguo do grupo, o assassinato que ocorreu no seu apartamento irá gerar discórdia entre o seio de sobre-humanos e com o mundo que rodeia, revelando a fraqueza de cada herói e apresentando as suas diferentes visões á linha “quebradiça” que separa o bem do mal. “Who Watches The Watchmen”, é uma das frases célebres do grupo de histórias que deixam qualquer “comic geek” nervoso, que no fundo é uma variante do velho ditado “Quem guarda os guardas?”, indicando que qualquer protector não é imune dos mesmos factores que protege. Será os super-heróis capazes de praticar o mal também? Já lá vamos.

Tornou-se num dos mais influenciáveis graphic novels dos meados anos 80, foi graças a essa matéria-prima que o conceito de super-herói perdeu a sua inspiração a Deus e deu contornos mais negro e sobretudo mais humanos às velhas personagens de sempre que foram mais tarde renascidas como seres menos invictos e mais fracos (humanamente falando), foi nesse novo auge que surgiram as novas revisões de Daredevil ou de Batman, muitas delas concebidas pelo talentoso e visionário Frank Miller. Nos dias de hoje, sendo elevado ao estatuto de obra-prima incontornável do Universo dos Comics, Considerado pela Times um dos melhores romances de sempre, The Watchmen foi sempre um produto apetecível para os grandes estúdios cinematográficos a converterem numa longa-metragem, principalmente Warner Brother que adquiriu os direitos já inicio dos anos 90. Terry Gilliam (Brazil, Twelve Monkeys, The Brothers Grimm) foi o homem que aceitou realiza-lo, contudo, após diversas tentativas de construções argumentativas, teve que abandonar o projecto, considerando-o uma BD infilmável, demasiado densa e bastante longa, segundo o autor se este fosse realizado fielmente excedia as 5 horas de duração. O traçado fílmico começou a percorrer mão em mão nos inicio do novo século, agora com a sofisticação das novas tecnologias nomeadamente o CGI, era mais fácil recriar todo o mundo Watchmen, em 2003 propuseram a Michael Bay, que acabou por recusar (que alivio!), em 2004, Paul Greengrass (The Bourne Ultimatum), encontrava-se anexado ao projecto, mas mais tarde recusou para poder trabalhar em United 93 (2006) e no último capitulo da saga Bourne, que estava a dar que falar. Darren Aronofsky (The Wrestler) chegou a ser cotado para o trabalho, mas teve a mesma acção derivado á polémica envolto do seu novo filme The Fountain, foi então que projecto entrou num estado de hibernação, até que Zack Snyder ter feito o hype 300 (2007), uma adaptação fiel de uma graphic novel da autoria de Frank Miller que resultou num sucesso de público, bilheteira e crítica. Foi só preciso isso para que o estúdio fizesse a proposta.

Snyder como fã do comic sentiu a obrigação de adapta-lo, já que não concordava com certas alterações que o estúdio estaria disposto a fazer para facilitar a sua produção. O autor recriou acima de tudo, todo o ambiente da novela gráfica de Alan Moore, tal como havia feito com 300 e optando por ser fiel o possível á linha narrativa da matéria-prima, contudo este admite ter alterado um pouco o final e certos aspectos da história. Snyder aclamou ao público que não poupou esforços, dando uma fita, que no total duraria 3 horas (2 horas e meia na versão de cinema), cuja violência, sexo e a intriga política encontram-se intactas. Infelizmente Moore sempre exibiu ao longo de todo o processo a indignação pelas adaptações cinematográfica, tendo repudiado os filmes anteriores baseados nos seus trabalhos (From Hell, The League of Extraordinary Gentlemen e V for Vendetta) e com eles uma legião de devotos fãs. Todavia, o desenhista David Gibbons divulgou agrado pelo produto final de Snyder, garantindo tratar-se de um esplendor visual fidedigno á obra em si e não poderia estar menos enganado, The Watchmen gerou expectativa aquando o lançamento de novas imagens, posters (alguns deles concebidos pelo próprio Gibbons) e trailers, quanto mais pelos excelentes resultados de The Dark Knight de Christopher Nolan que depositou crença e novo fôlego às adaptações de BDs, não desperdiçando a sua seriedade e a sua teologia recorrente.

Na pele dos personagens que habitam as mentes dos fãs dos comics está Jackie Earle Haley como Rorschach, uma espécie de detective cruzado com um psicopata, a sua noção de justiça leva aos actos mais sádicos, é caracterizado pela mascara branca com manchas negras simétricas baseadas no teste de Rorschach (daí derivar o seu nome), estas manchas se modificam conforme o seu estado psicológico. Esta personagem é a medula espinhal de toda a trama, sendo ele também o narrador, Haley que parece ascender depois de alguns caminhos não recomendados para seguir a meio de uma carreira artística, nomeado ao Óscar de Melhor Actor Secundário em 2006 por The Little Children de Todd Field, é capaz de oferecer-nos um carismático, violento, imprevisível e ao mesmo tempo, um humano Rorschach, o ultimo adjectivo revela-se na proximidade do final quando o herói dá-nos um seu ultimo discurso, vale a pena estar atento ao futuro de Haley. Patrick Wilson, também ele nomeado ao Óscar pelo seu desempenho em The Little Children, é Nite Owl, uma variação da clássica imagem de Batman, é o do grupo o mais integre á comunidade média da população e o de todos o mais inseguro e dependente da auto-estima trazida pelo seu fato. Matthew Goode (que vimos em Brideshead Rivisited) é Ozymandias, o mais clássico dos super-heróis, bastante inteligente, o homem mais rico e poderoso do Mundo e um grande fascinado pelos ideais dos egípcios e de Alexandre, O grande, principalmente pela sua visão de mundo unido. Billy Crudup (Charlotte Gray) é Dr. Manhattan, o único com verdadeiros poderes derivado a um acidente molecular que o transforma num ser capaz de prever o futuro, passado e controlar toda a matéria possível, uma influência ao Superman derivado á sua indestrutibilidade e pelo seu dever de proteger a humanidade que parece ser questionado pelo próprio. Malin Akerman é Silk Spectre (Espectro de Seda), a entidade feminina, vestiu a pele de vigilante como herança da sua mãe, também ela super-heroína, uma personagem que se irá revelar como uma peça fundamental deste complexo puzzle e por fim o mártir The Comedian desempenhado por Jeffrey Dean Morgan (série Supernatural), num papel que já valeu comparações físicas com o actor Robert Downey Jr..

Existirá obviamente dois grupos de espectadores que não sairão agradados da sala de cinema, primeiro, os que aclamarão o filme de ser demasiado filosófico e pouco blockbuster, ou seja mainstream, e os religiosos fãs de Moore que logicamente irão seguir o criador, já que este repudia a versão cinematográfica da sua obra-prima. Contudo devo dizer que Zack Snyder demonstra cada vez mais como um sólido autor do cinema mais plástico e tecnológico, 300 (2007), a obra anterior que causou hype em todo o Mundo era uma adaptação mais fiel ao conteúdo de 300 de Frank Miller, que não tem nem metade da mesma dimensão intrínseca e intelectual que The Watchmen de Alan Moore, por isso e como já havia afirmado outros autores que tentaram faze-lo, é uma tarefa quase impossível de fazer, devido isso não existe forma alguma de tirar o mérito e a coragem do realizador em tomar rédeas da obra. Mas afinal o que é The Watchmen? Trata-se de uma crítica social de toques mais filosóficos que espelha o mundo em que vivemos de forma a desmistificar os maniqueísmos presentes nos conflitos gerados isso tudo representado sob a forma mitológica do sobre-humano. Não existe uma noção de Bem ou de Mal definitiva aqui, cada personagem transporta a sua teologia e se debatem com consequências trágicas, no fundo é um conjunto de teses o qual o espectador irá identificar com a sua mas também questionar acerca das outras teorias. É nesse contexto que The Watchmen irá degradar imensos, principalmente aqueles que tem uma visão tão afirmativa desses duas consciências e nunca questionar acerca de uma delas, o super-herói de banda desenhada por sua vez, foi muitas vezes utilizado como manipulação, como marca da razão única, o Bem encarnado, ora vejamos o caso do surgimento do Capitão América, todo ele representado com os ideais políticos da nação (EUA) e elevando-a como o puro modo a seguir, não é por acaso que o primeiro vilão deste famoso herói foi Hitler, como desejo dos EUA vencerem a Alemanha Nazi e saírem triunfantes da Segunda Guerra Mundial, o que eles próprios apelidam de lado de Deus, por isso o objectivo deste semi-divino era influenciar um povo para esses contornos políticos e manusear a opinião publica através dos esteticamente inofensivos comics, começando pelos mais novos. Mais tarde as forças análogas evoluíram sob a forma de vermelho, vermelho de comunismo, ditando a repudia nacional para com a União Sovietica e o bode expiatório, Vietname e é sob esse cenário que The Watchmen julga, tal como a caricatura da imagem de Richard Nixon, a cara da Guerra do Vietname.

Mais do que um simples filme de super-herois, The Watchmen é acima de tudo uma dura visão dos acontecimentos passados reflectido nos actos do presente e futuros, questionando também da mesma forma que Robert Wise fez com The Day The Earth Stood Still (1951), será o Homem capaz de conviver em harmonia? Contudo não é preciso dizer que estamos perante algo bastante complexo, profundo, denso e muito bem dialogado, o que reivindica a magnitude da obra de Alan Moore, quanto ao filme, é facilmente adaptável á contiguidade de histórias. O visual é deslumbrante e a acção, mesmo não sendo pipoqueira é vistosa, e a banda sonora é um trunfo como colectânea de musica mais nostálgica, nota-se “tesouros” como Bob Dylan nos créditos iniciais, Leonardo Cohen num dos momentos eróticos e também cómicos com o seu “Aleluia” e “Sound of Silent” da dupla Simon & Garfunkel a interpretar a magistral cena do funeral, e mais num convencional e acertado acompanhamento musical.

Zack Snyder consegue captar a emoção nos seus personagens e consegue o menos provável, vencer a plasticidade como sucedera com 300 e dar um toque mais cinematográfico a uma obra que facilmente se poderia confundir como “livro de tela”. Contudo sente-se uma pressão em todo o filme, mesmo com a longa duração a narrativa enfraquece a meio gás a meio da película e a quantidade de flashs podem confundir quem não esteja familiarizado com a obra. Todavia nada disso exclui o facto de The Watchmen ser um dos mais esperados filmes do ano e um dos melhores acontecimentos cinematográfico dos últimos, naquele que a Empire considera o Citizen Kane dos Super-Heróis.

"The world will look up and shout "Save us!"... And I'll whisper "No.""

 

A não perder – a graphic novel, se faz favor!

O melhor – a essência dos comics não foi abalada

O pior – não possui a mesma dimensão filosófica, contudo é a sua pressão que por poucos não matava o filme.

 

Recomendações – Sin City (2005), V for Vendetta (2005), 300 (2007)

 

8/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:27
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7 comentários:
De Tiago Ramos a 8 de Março de 2009 às 00:18
Excelente crítica e contextualização!


De Catarina d´Oliveira a 8 de Março de 2009 às 08:55
grande crítica e a tocar nos grandes pontos como sempore :)

como tenho vindo a dizer (devo ser a unica lool) ainda houve ali qualquer coisa que nao me apelou. nao sei o que...decidi dar nova oportunidade. vou começar a ler o comic e vou rever o filme...logo falarei com mais cuidado do filme:) acho que merece o cuidado :P


De Filipe Coutinho a 8 de Março de 2009 às 12:45
Excelente crítica. Estavas inspirado. Concordo com praticamente tudo. Um filme muito bom que prima pela qualidade e pelo que representa. Espero ansiosamente pelo Director's Cut para poder apreciar o filme na sua total extensão.

Abraço

PS: Só um pequeno reparo. A música do Simon and Garfunkel chama-se Sounds of Silence.



De ArmPauloFerreira a 9 de Março de 2009 às 12:06
Excelente critica ao filme e uma grande contextualização do universo Watchmen.
Sem ainda ter ido ver o filme, fiquei bem inserido dentro do filme pelos teus argumentos.
Acho que o problema do filme é realmente não se estar contextualizado no universo Watchmen e irem ver o filme a julgar apenas pelos trailers (que dão a ideia de outro filme diferente).
Conheço já a BD e ando a assistir à Motion Comic para poder de seguida ir ver o filme.
É pena mas quem vai sair no fim mais bem servido serão aqueles que virem o DVD em formato extended pois a versão de cinema saiu menor (não se deveria ter feito isso). Eram 3 horas de filme, exibiam as 3 horas de filme!


De João M. a 21 de Dezembro de 2009 às 14:21
Asqueroso!!!

Na minha opinião leva 1/5


De Gustavo a 14 de Março de 2010 às 20:39
não conhecia a Banda Desenhada, mas mesmo assim achei o filme tão mal feito


De Carlos Filipe Jesus a 2 de Abril de 2010 às 16:42
***** este Watchmen, bem como a tua crítica! Parabéns!


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9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
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