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10.1.09


Por detrás do arco-íris! O romance épico morreu!

 

O australiano Baz Luhrmann regressa aos cinemas, passados sete anos desde Moulin Rouge! aquele que é para muitos o grande regresso do musical clássico, tendo sido elogiado pelo próprio Robert Wise, o autor dos celebres Sound of Music e West Side Story. Desta vez o autor deixa de lado o género musical e remete-se a outro subgénero de igual vertente clássica, refiro obviamente ao épico romântico o integram exemplos mundialmente conhecidos como a obra incontornável de Victor Fleming (Gone With the Wind), que  é decerto o modelo a seguir neste Australia, passando pelo espirito dos eternos e inimitáveis filmes de David Lean. O cinema romântico de fulgor épico pouco ou nada evolui desde Titanic, aquele que para os mais induzidos foi o último “grande” romance, de resto, Pearl Harbor falha obviamente o alvo, Cold Muntain desilude nos Óscares e Australia de Luhrmann acumulou uma certa força messiânica deste subgénero há muito desaparecido e imitável.

 

 

Australia foi um filme caro, tendo custado estimativamente 130 milhões de dólares, infelizmente fracassou nas bilheteiras dos EUA (aquela que a grande “fatia” do box-office mundial), apenas rendendo até agora somente 30 milhões (muito pouco para o orçamento do filme). Mas porquê de Australia ter sido literalmente ignorado pelo grande publico após meses e meses de expectativas? Primeiro, como já havia referido, Australia foi uma produção cara demais para os tempos que decorrem, invocando a memória de Heaven’s Gate de Michael Cimino, o caríssimo flop que foi o responsável pelos cortes orçamentais nos filmes e pela constante supervisão e avaliação dos produtores e estúdios. A verdade é que os tempos mudaram, o cinema perdeu demasiada ingenuidade, os críticos e as suas análises também obtiveram culpa no cartório, e por último, Nicole Kidman, que consta estar a sofrer a síndrome de Tom Cruise, por mais esforçada ou grandiosa seja a interpretação ou a qualidade do filme, encontram-se condenados ao fracasso em derivação da opinião pública quanto à sua imagem. Os seus fiascos já vêm desde algum tempo, o “fenómeno” iniciou-se com  Bewitched  (que esteve presente nos Razzies),seguindo pelo descontinuo The Golden Compass e a desastrosa produção de Invasion, ambos ao lado do actor Daniel Craig.

 

 

Nicole Kidman encontra em Baz Luhrmann a sua única esperança de voltar à ribalta (sendo Moulin Rouge! um dos melhores resultados na sua carreira como actriz) antes que a idade leva a melhor sobre ela, porque no cinema comercial a estética é fulcral, sendo que actrizes cada vez mais novas são contratadas para os importantes papeis, é só reparar na dificuldade que Diane Keaton e Kim Basinger tem tido em arranjar bons papeis ultimamente, no caso da primeira parece que já não há retorno possível. Infelizmente, a sua tentativa de ascensão revela-se também ela fracassada, e mesmo o filme não ter triunfado nas bilheteiras como se imaginara, a actriz não consegue deslumbrar, a sua interpretação chega a ser monótona, com rasgos do seu ego e nada demais, os tempos da variação composta em The Hours já foi há muito.

 

 

No caso das interpretações, Hugh Jackman obviamente se destaca no papel de Drover, nome o qual se designa os “condutores de gado”, variando do seu registo de herói de “mau feitio” característico de Van Helsing ou Wolverine  (o papel que lhe deu fama). Jackman tem vindo ultimamente a destacar-se pela sua versatilidade e ambição nos diferentes géneros, vimos em comédias românticas (Kate & Leopold), comédias mais dramáticas (Scoop), ficção científica (The Fountain) e no drama a roçar a fantasia (The Prestige) e é em Australia que tem a seu dispor uma futura referência para abrir portas para o cinema mais adulto e digno de notoriedade. Contudo a revelação acaba por ser a de Brandon Walters no papel de um miúdo aborígene mestiço que por sinal é o narrador da obra de Luhrmann, uma “performance” doce, sendo o único veículo de magia de uma fita que não consegue transpor, foi nomeado pela Chicago Film Critics Association Awards como a Interpretação mais Prometedora, o premio, porém caiu nas “mãos” Dev Patel no Slumdog Millionaire de Danny Boyle. Destaque também para David Wenham  (mais conhecido como o espartano narrador de 300) no papel de vilão de serviço, uma composição amena apesar deste papel facínora não ser muito directo, devido a uma narrativa com mais olhos que barriga, mas já passamos por lá. Já agora, Wenham não faz lembrar David Thewllis?

 

 

Há quem acuse de Australia ser um filme demasiado conservador, outros, um cliché pegado e ainda há quem refira como um “cheesy movie” (alcunha norte-americana para filmes “pastelões”), o filme de Baz Luhrmann tem o mérito de ser uma obra feita para agradar um vasto público, para faze-los sentir que estão perante de uma obra-prima, para o mais velho espectador causar nostálgica dos anteriores clássicos hollywoodescos em que unir homem e mulher era a maior das jornadas. Muito “dinheirinho” foi gasto no tratamento visual, na fotografia e nos efeitos especiais, auferindo ao espectador uma riqueza óptica que favorece o entusiasmo durante as cercas de 3 horas de filme, até nisso Australia aspira a épico. Mas o que senti ao ver este ambiciosíssimo romance foi a sua constrangedora falta de identidade, inicia-se como um filme de época a chegar à variação de A Casa da Pradaria, transforma-se em western / aventura e simula um final deveras grandioso, a narrativa regressa e a roçar o “dramalhão” e por fim, um encerramento algo bélico, porém fracassado, o qual Pearl Harbor de Michael Bay “abate” sobre a nossa memória. No fim disto tudo onde se encontra o homónimo continente? Pois é, falta o misticismo do território, sobra obviamente muita referência que podia ser baseada na cultura australiana, mas termina por comparar a magia aborígene com o clássico de The Wizard of Oz, onde o tema “Over the Rainbow” parece estar sempre presente até mesmo na sonoplastia que nunca varia de tom.

 

 

Sem dizer que Australia chega mau filme, concluiu que se trata de um produto plástico, sem grande emoção embrulhado num “papel de embrulho” deveras atractivo, Baz Luhrmann queria à força construir um novo “E Tudo o Vento Levou”, a nova clássica obra-prima, mas o resultado virou numa certeza incompetente. Com certeza agradará a muitos e não condeno por isso, porque dentro dos seus limites esta Australia ainda revela alguns méritos como filme hollywoodesco, mas só isso.

 

“If you've got no love in your heart, you've got nothing... No dreaming, not story, nothing.”


Real.: Baz Luhrmann / Int.: Nicole Kidman, Hugh Jackman, Brandon Walters, David Wenham




A não perder  – a tentativa de Nicole Kidman cantarolar a musica “Over the Rainbow”.

 

O melhor –  A qualidade técnica e visual

O pior –  Tentou inserir “um paquete numa piscina” em termos narrativos

 

Recomendações – Gone with the Wind (1939), Cold Mountain (2003), Pearl Harbor (2001)

 

5/10
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publicado por Hugo Gomes às 18:07
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3 comentários:
De Fernando Ribeiro a 11 de Janeiro de 2009 às 00:28
Acho que já conheces a minha opinião sobre este filme. Confesso que esperava que desses uma nota maior mas ainda assim é uma avaliação bastante aceitável.

Grande abraço.


De candida a 5 de Fevereiro de 2009 às 21:37
este filme é uma pioseira do princípio ao fim. não vale nada, quanto muito uma estrela.


De Lucas a 15 de Fevereiro de 2010 às 14:52
Adorei o filme, fez me lembrar os velhos epicos romanticos, muito melhor que a treta de Cold Mountain.

Viva Baz Luhrmann, Viva 4 ****


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