Cinema urgente. A Dança da Morte!
Muitas vezes o cinema tem necessidade de afirmar, denunciar, tomar a sua posição, mostrar horrores e testemunhar consciências, a isto chama-se filme-denúncia, que tem o intuito de exibir o que de errado e desumano ocorre no Mundo (reconhecendo que todo o cinema é militante). Claro que nos tempos que decorrem são diferentes do outrora e no que requer a denunciar temos assim a televisão, nomeadamente os telejornais que criavam e recriavam sensacionalismo nos temas mais preocupantes.
Mas será que existe algo mais vulgar que um telejornal? Claro que não, e conforme seja o destaque da notícia como é o caso dos intensivos confrontos na faixa de Gaza ou das atrocidades cometidas no Médio Oriente, um simples espectador apenas o encarará como uma informação daquilo que decorre num canto longínquo da Terra, nada mais, sem o intuitivo de comover-se ou demonstrar disposto para uma futura intervenção. Relembro uma personagem de Joaquim Phoenix no filme de Terry George, Hotel Rwanda, que perante uma conclusiva reportagem sobre um genocídio com o intuito de ser exibido num dito telejornal, cita o seguinte: “I think if people see this footage, they'll say Oh, my God, that's horrible. And then they'll go on eating their dinners".
Ao contrário dos filmes-denúncia ainda temos os testemunhos em forma de película, relatos de vivências que na actualidade parecem ser motivo para a concepção de novas animações convencionais, Waltz with Bashir, de Ari Folman, é um narro na primeira pessoa que se assume algo entre o documentário ficcional dos massacres ocorridos em Beirute, Líbano, levada a cabo por soldados falangistas cristãos e tropas israelitas, o qual Ari Folman (realizador e protagonista) integrava. O massacre foi cometido de forma bárbara, matando milhares de palestinos civis e fazendo com que inúmeros jovens soldados de Israel quisesse forçosamente esquecer o sucedido. Uma das nódoas da história do século XX, contada, testemunhada por um “filho de Israel” como se uma confissão tratasse. A verdade é que não haveria melhor altura para o filme ter surgido nas nossas salas, num momento em que os conflitos na faixa de Gaza, israelita contra palestinianos, parecem intensificar-se dia-a-dia. Waltz with Bashir tem o mérito de não escolher lados, de não encaminhar o espectador para um culpado e de não recorrer a mediatismo nem sensacionalismoao sucedido, o que este documentário misto animação consegue fazer com o espectador é lançar um «BASTA”, um apelo ao fim de um confronto que parece virar rotina nos telejornais e no Mundo que encara como tal.
Poderá assemelhar-se ao aclamado Persepolis, mas ao contrário da fita da autoria de Marjane Satrapi, que se concentra como um testemunho animado aos tons de preto-e-branco no que requer a denunciar, incapaz de evitar os maniqueísmos, em Waltz with Bashir não existe tempo para julgamentos. A animação é talvez das mais vivas e artísticas do novo milénio, esquecendo um pouco do lançamento em massa dos gráficos digitais, a sua narrativa via documental é um dos exemplos mais proeminentes de que o cinema encontra-se em pleno movimento e em evolução. As cenas animadas são surpreendentemente vitalícias, exibindo algum humor negro a criar um mise-en-scené incontornável, e uma noção histórica imaculada onde qualquer pormenor não é deixado para trás.
Foi com a valsa por Bashir que encontrou-se a graciosidade da esperança, essa, de um dia de dois povos viverem em coexistência harmoniosa e não em eterno conflito. Obviamente, essa noção é do mais ingénuo possível e do mais ignorante em relação a qualquer conotação politica e à heterogeneidade idealista. No final ainda há tempo para comoções, porque o cinema tem esse poder, essa vontade e força. O Médio Oriente é por fim encarado com outro olhar e atitude. Foram cerca de duas horas tenebrosas, nesta “A Lista de Schindler” da animação.
PS – O Bashir do título é referente a Bashir Gemayel, um comandante das forças milícias falangistas que subiu à presidência do Líbano, mas cujo seu assassinato foi catalisador dos massacres representados no filme, o título por inteiro é a alusão a uma cena da película em que exibe um soldado israelita a “enfrentar a morte”, disparando sobre o inimigo em terreno aberto, e para evitar as balas dos palestinos, movimentava-se hiperactivamente. Tais movimentos soavam que nem uma dança, por outras palavras uma valsa, Bashir deve-se ao enorme cartaz que se encontrava no momento da sequência.
Real.: Ari Folman / Int.: Ron Ben-Yishai, Ronny Dayag, Ari Folman
O melhor – A atribuição de responsabilidades levado a cabo pela fita sem nunca recorrer ao maniqueísmo
O pior – O facto de ser uma animação e ter sido ignorado pela grande cadeia de cinemas, irá fazer com que Waltz with Bashir não encontre o seu público merecido.
Recomendações – Persepolis (2006), Grave of the Fireflies (1988), Apocalypse Now (1979)
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