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25.10.08

Real.: Robert Wise / Jan de Bont

Int.: Julie Harris, Claire Bloom, Richard Johnson / Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones, Lili Taylor, Owen Wilson, Bruce Dern, Virginia Madsen

 

 

"We couldn't hear you. In the night. No one could. No one lives any nearer than town. No one will come any nearer than that. In the night. In the dark"

 

Todos nós gostamos de uma boa história de mistério que nos faça sentir algo pavoroso mas ao mesmo tempo delicioso, o medo, e provavelmente todos nós ouvimos relatos quase paranormais em locais tão receptores como as casas, precisamente as abandonadas e as mais luxuriosas. Shirley Jackson, a célebre escritora do oculto, retratou uma mansão imaculada pelo tempo e amaldiçoada pelo incógnito, um local propício para fenómenos estranhos e paranormais, essa história foi intrigada no seu grande êxito, The Haunting of Haunted Hill (1959), que segue as aventuras de um grupo voluntario na concepção de uma investigação sobre o medo levado a cabo por um cientista do ramo do paranormal, os voluntários terão que permanecer dentro da casa (Hill House) para assistirem a experiências bizarras e de explicação nula. O conto serviu de base para no mesmo ano, William Castle dirigir o seu House of the Haunted Hill, uma versão protagonizada por Vincent Price que já figura-se na lista dos grandes clássicos do género. Mas a verdadeira adaptação do livro de Jackson surgiu quatro anos depois, pela mão do “esquecido” génio cinematográfico, Robert Wise, que embala a gótica obra literária num suspense com inúmeras costelas de Freud e uma certa raiz de outro filme do género surgido a 3 anos antes (1960), trata-se do psicologicamente forte Psycho do “notável” génio, Alfred Hitchcock.

Hitchcock definiu o género receptor de medo a lugares nunca antes esperados, enquanto os filmes de terror anteriores assustavam com a derivação de imagens grotescas e da catalogalização monstruosa da narrativa, partir de Psycho, o género o faz com inteligência argumentativa e da ambientação da insegurança psicológica que leva o espectador a lados desconhecidos e designados por medo. Enquanto Psycho era um retrato de um psicopata, The Haunting (1963) é o tratamento de uma perturbada entidade inanimada – a mansão – e da discussão cientifica da existência do paranormal. É esse debate entre o credível e o não credível que o filme de Robert Wise ganha consistência e além de tudo mistério que são óptimos receptores de medo.

Em The Haunting todas as ocorrências de categoria paranormal são capazes de ser explicadas a nível científico e por isso que ao longo do filme temos um debate entre as duas teses que leva o espectador a duvidar de ambas até no final ser levado por aquela que mais apelava. Nesse caso surge a fantasmagórica personagem de Eleonor (Julie Harris) Lance, uma perturbada mulher que dedicou metade da sua vida a tomar conta da sua doente mãe, após a sua morte decide voluntaria-se na experiencia concebida por Dr. Markway (Richard Jonhson) que como já havia referido consiste em permanecer dentro da Hill House e assistir aos fenómenos de teor paranormal. Essa personagem (Eleonor) poderá lembrar muito a Marion Crane (Janet Leight) da obra comparativa de Hitchcock, nem que seja pelos seus pensamentos falados dentro a viatura, ou de facto de ambas fugirem de qualquer coisa, o qual a sua consciência está sempre presente na representação de monólogos. A personagem de Julie Harris é de uma complexidade perturbante que nunca deixa claro os seus maniqueísmos, a sua simbiose com Hill House, provavelmente o único lugar onde esta chamará de “casa”, caindo numa trágica e obsessiva confrontalidade que deixará o espectador “desassossegado” e as suas conclusões agitadas por dúvidas, ou seja a audiência sente insegurança, desconforto e hesitações quanto ao rumo desta história altamente psicológica. Harris presenteia-nos com uma interpretação “corajosa” e o resto do elenco “cai que nem ginjas” na pele de personagens tão bem construídas como por exemplo Theodora, interpretada por Claire Bloom, quem nunca conheceu uma pessoa como ela na vida?

Robert Wise é detentor de um verdadeiro clássico do cinema de suspense, consegue até mesmo assustar sem usar qualquer tipo de artifício explicitamente grafico ou propositado, sendo lento, discreto e acima de tudo com a cabeça no lugar no que requer na coordenação de tão intrigante argumento, infelizmente houve quem aproveita-se da notoriedade deste filme datado de 1963 para produzir um remake para os dias ditados pelas novas tecnologias e pela inserção dos CGI. Em 1999 estreou-se The Haunting, uma versão mais sofisticado em termos visuais e sonoros, com um elenco de luxo e um realizador perito em acção ou outrora trabalhado na indústria como director de fotografia e no departamento de câmara e electricidade. Trata-se de Jan de Bont, que havia iniciado a sua jornada como realizador com o êxito Speed (1994) seguindo-se com outro êxito: Twister (1996) e um fracasso a todos os níveis, Speed 2 – Cruise Control (1997). O realizador já havia afirmado antes de iniciar as filmagens do filme, que não pascia de filmes de terror com sangue a rolos e nisso verifica-se nesta “frouxa” obra (desculpem o descaramento) de horror. Existe pouco sangue, vísceras ou cenas gore (estas duas ultimas, nenhuma á vista), na verdade existe poucos os ingredientes que possam fazer deste filme uma obra violenta e merecedora da categoria onde insere, e quanto á carga psicológica trazida pelo filme de Wise, aqui é praticamente nula.

Eleonor (Lily Tyler) é reduzida a uma caricatura histérica, Catherine Zeta-Jones no papel de Theo é de puro carácter estético, Liam Neeson traz algum carisma, mas a sua personagem é esquecida nos estranhos rumos da premissa renovada e Owen Wilson (bem, mais do mesmo!). O filme de 1999 difere do clássico para além dos CGI e outros factores técnicos e das caras “lavadas” das personagens, de uma narrativa mais interessada em exibir os seus dotes tecnológicos do que criar um suspense que possa prender o espectador, e o facto da demasia dos efeitos especiais levam a pensar que por vezes não é preguiça dos autores em envolvidos, reduzir tudo a essa facilidade tecnológica. Os CGI neste tipo de filmes são tão deslocados como ir a um McDonalds pedir um cozido á portuguesa, não combina, e a propósito de esse efeitos visuais trazerem algo de falso as cenas que surgem, faz com que a fita perca o pouco de suspense que tinha e a credibilidade da historia.

A primeira parte até é satisfatória, mas depois de meia-hora, depois de a casa luxuriosa que parece ser originaria de um cruzamento entre a mansão Charles Forsten Kane com a casa fantasma da DisneyLand ter sido conhecido por superficialidade, o filme revela-se numa sucessão de “sustos”, efeitos especiais em quase todas as cenas e as personagens a correr de um lado para o outro sem razão aparente, o pior é quando assistimos á caracterização da entidade fantasmagórica que nos faz rir pela sua ridícula forma de lembrar o Grinch do Dr. Seuss. Desta trapalhada toda poderemos contar apenas com a qualidade do som, que nos faz lembrar a respiração da casa, ofegante e chamativa, mas que infelizmente o filme não é. Um dos piores remakes de um filme de terror, um grande produção de um clássico discreto, os dois contrastes que reflectem uma realidade do cinema actual.

The Haunting (1963)

O melhor – A carga psicológica nas personagens e na casa

O pior – cai muito no debate de teses e pouco segue o terror puro

 

Recomendações – House of Haunted Hill (1959), The Amytiville Horror (1979), The Exorcist (1973)

8/10

 

The Haunting (1999)

O melhor – os efeitos sonoros

O pior – a caricatura das personagens, a pretensiosismo das grandes produções neste filme de terror

 

Recomendações - The Amytiville Horror (2005), Spirit Trap (2005), The Skeleton Key (2005)

3/10

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:28
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últ. comentários
Título do post muito criativo.
Legal o tema do post. Parabéns.
Aguardando. Blog bem legal!
Um luxo de actores num filme de lixo, repito LIXO....
Gostei muito da crónica. Vou acompanhar o seu blog...
Takes
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