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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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25 de Abril: "É para o senhor falar o que quiser"

Hugo Gomes, 25.04.21

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Sobre o 25 de Abril e a sua representação no audiovisual (de forma a expandir do território cinematográfico), existe um momento que sempre me faz palpitar o meu coração. Aconteceu no documentário “As Armas e o Povo”, do coletivo cinematográfico em 1975, um registo do célebre dia de 1974 até à concretização do primeiro 1º Maio no ano seguinte.

Aí, um dos representantes desse grupo - o cineasta brasileiro Glauber Rocha - corria pela festiva população lançando questões triviais de forma a despoletar sinceridades nos seus entrevistados. Um deles foi um ancião, emocionado com os festejos e ainda mais quando Rocha lhe dirige com o microfone na mão e o incentivo - “é para falar o que o senhor quiser”. Naquele momento, o dito senhor poucas ou nenhumas palavras consegue articular, cai numa candura, num silêncio imperativo, não pelo facto de não ter nada para dizer, mas porque nunca lhe foi solicitado a palavra, muito mais no que lhe bem apetecer. “Está muito emocionado o senhor”, ouve-se atrás dele, uma tentativa de lhe tomar a tal oportunidade, até que o idoso de bandeira na mão rompe esse mesma autocensura para “disparar” o seguinte discurso: “A mim parece inverosímil que após 50 anos de opressão e de falta de liberdade, o povo se tenha libertado dessa mesma opressão e que sinta hoje, nos últimos dias, uma alegria que é verdadeiramente indescritível.” No final, possivelmente influenciado pelo sotaque de Rocha, lança um cumprimento caloroso ao Brasil: “Saudades dos meus irmãos brasileiros, o qual estamos ligados pelo coração e pelo espirito …

Momento bonito, e eu que tenho um enorme pavor em usar tal “simplório” adjetivo, mas é em cenas captadas como estas que me transportam à mais sincera essência do 25 de Abril. Não um somente feriado, ou um data histórica do Portugal moderno, mas a destruição de certas e profundas amarras, simples, das quais hoje damos por garantidas, ou que nem sequer percebemos … por outro lado, tendo em conta o crescimento desinformado que por aí anda, nem um esforçamos fazemos para entender essa sensação. Aquilo que o referido senhor sentiu no preciso instante em que foi abordado pelo cineasta, disfarçado de repórter, nunca o senti, e espero, felizmente, nunca o sentir.