Domingo, 24 de Agosto de 2008

Real.: Billy Wilder

Int.: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Cecile B. DeMile

 

 

A modernização deixa sempre um sabor nostálgico, é quando simplesmente ditamos que algo se torne obsoleto, inutilizável e antiquado, é o conceito de substituir uma rotina, um acto, um hábito ou simplesmente a figura de uma pessoa. Essa sofisticação esteve sempre presente na humanidade, aliás somos o que somos hoje graças á nossa mentalidade de inovar, sempre reflectir no futuro e pouco no passado, simplesmente pensar que sempre podemos fazer melhor do que aquilo que já se fizera. O cinema também passou por inúmeras dessas fases; do cinematógrafo até á câmara, do cinema mudo ao falado e do filme preto-e-branco ao technicolor, tudo isto fez os seus danos colaterais, filmes que de um momento para outro tornaram-se imprestáveis, actores que tornaram-se descartáveis e realizadores que tiveram que adaptar para não mergulhar nessa onda de esquecimento. Ainda hoje esses filmes ainda são vitimas da “moda do dia”, deixando o seu papel primordial, o entretenimento, e tornando-se em peças de arqueologia, verdade seja dita, cada menos pessoas assistem um filme anterior á década de 70, e quem o vê, vê com olhos de “apreciador de arte”, admirando as rudimentares técnicas de produção ou tentando tirar proveito do argumento ou das interpretações em desuso dos actores da época. São cada vez poucos os jovens que assistam a um filme anterior á sua data de nascimento, são muitos os que seguem “insaciavelmente” os filmes-pops que abundam, ou seja amontoam nas nossas salas. Quando parecia o cinema estar assentado no seio da sociedade, eis que surge as campanhas vorazes da artilharia digital caseiras que nos paira um presságio da morte lenta do cinema. Billy Wilder, um dos mais talentosos realizadores e argumentista da sua época, visionou este cenário no seu Sunset Boulevard.

Sunset Boulevard é conhecida como uma rua em Hollywood, e é nela que se concentra a história desta obra-prima de Wilder, como também onde reside uma antiga estrela do cinema mudo, Norma Desmond (Gloria Swanson) iludida e esquecida face ao mundo, o qual a sua noção do mesmo está congelada nos seus tempos de glória, um fracassado argumentista, Joe Gillis (William Holden), que encontra na antiga estrela de cinema mudo a sua hipótese de renascimento, mesmo que isso custe ser aquilo que este mais despreza. Dois seres rejeitados pelo tempo, vividos em memorias de glorias antigas o qual juntos, encontram ambos.

Para quem julga que o cinema clássico americano é de um pureza inocente confrangedora, sem teor crítico ou controverso, cheio de moralismo e bons valores, bem pode-se enganar ao ver Billy Wilder que escreve e realiza um negro retrato por detrás das estrelas de Hollywood. Um filme noir com todos os seus estereótipos, mas sempre com vontade de inovar e melhor, sem nunca se prender ao passado, neste caso a historia retórica do cinema. Sunset Boulevard brilha com a alma que o autor deposita, soa por vezes como uma biográfica cinematográfica, talvez muito pelo seu realismo, o uso correcto de nomes de estúdios, actores, referencias a filmes verdadeiros e até mesmo a aparição de realizadores celebres, falo de Cecil B. DeMille, o eterno realizador de os 10 Mandamentos, que aqui interpreta assim próprio, aliás a sua inserção neste filme não vêm por caso, já que o autor maioritário de épicos bíblicos é um adaptado, que sobreviveu incólume á transição do mudo ao falado, e do preto-e-branco às cores vivas do cinema, como exemplo a realizador de duas versões de os 10 Mandamentos, a primeira em 1923 (mudo) e em 1956, que segundo muitos a sua obra-prima, a epopeia versão com Charles Heston.

Estamos perante um filme incólume da era dourada de Hollywood, onde os planos são fabulosos e de um realização prestada excepcional, o mesmo que as interpretações, a destacar Gloria Swanson. No que requer às personagens temos uma composição escapatória às muitas incursões clássicas do seu tempo, falo referidamente da ironia “moderna” do protagonista, que ao mesmo tempo é o escolhido para narra esta história de crime com holofotes, e tal como Orson Welles fez com o seu magnifico Citizen Kane, Wilder faz o mesmo com a sua narrativa, o que claramente será a influência de filmes magistrais do cinema contemporâneo como Casino de Martin Scorsese ou até mesmo Memento de Christopher Nolan. Negro, irónico, crítico, profeta e possuidor de uma alma quase jurídica por parte de Billy Wilder, certamente este Sunset Boulevard – Crepúsculos dos Deuses é uma paragem obrigatória na retrospectiva da história do cinema. E aquele final continua a arrepiar.

O melhor – das interpretações á narrativa, tudo

O pior – como referido, a passagem do tempo, a mudança de mentalidades e da cultura cinematográfica actual

 

Recomendações L.A Confidential (1997), Adaptation (2002), Confessions of a Dangerous Mind (2002)

 

Sunset Blvd” – 10 estrelas "No tempo em que o cinema não precisava de grandes cenas de acção, erotismo, gore ou "actores de pipoca", a sétima arte fazia dos diálogos e das interpretações dos seus intervenientes, verdadeiras obras de arte, memoráveis e intemporais. "Sunset Boulevard", datado de 1950, é o exemplo perfeito do que é cinema, no verdadeiro sentido da palavra, aquele que a maior parte das pessoas já esqueceu, ou, simplesmente, pensa que está demodé. Afinal, os filmes a preto e branco pouco ou nada atraem as novas gerações, pelas razões em cima enunciadas. Nos tempos áureos do cinema não se faziam blockbusters e, infelizmente, esse facto, hoje em dia, é encarado com resistência face à visualização das projecções bicolores." Cinema is my Life

 

Sunset Blvd” – 10 estrelas "O culminar de toda uma sátira perfeita à vida de Hollywood. No fundo, o que vemos é uma forma de decadência tão bem glamourizada, tão credível, que quase não sentimos repulsa pelo que sucede. Um verdadeiro paradoxo cinematográfico, e uma crítica à louca vida de Hollywood, que nos proporciona um dos melhores momentos da sua história." Ante-Cinema

 

10/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:23
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