Sábado, 9 de Agosto de 2008

Os “arrufos” entre um morcego e um palhaço!

 

The night is darkeste just before the dawn” são frases como esta que fazem antever a negrura de um dos blockbusters mais esperados de sempre (se não o mais esperado do ano) – The Dark Knight de Christopher Nolan. Para quem desconhece, Nolan não é praticamente um homem de blockbusters, não senhor, o realizador aclamado de Memento é um “fazedor de filmes”, conseguindo combinar o talento artístico numa fluidez que poderemos considerar simbiótica para com as grandes audiências. Memento (2000)  foi a sua entrada no estrelato, com uma finalidade do perplexo mundo ao contrário acessível à maior parte dos espectadores e com um dos argumentos mais entusiasmantes do final do século, seguiu-se então Insomnia (2002), em que o realizador conseguiu provocar em Al Pacino, pesadelos psicológicos memoráveis e Batman Begins, o início de tudo, uma reinvenção realista do herói de capa preta, por vezes maltratado no cinema. Nesse filme de 2005Nolan com auxílio do argumentista David S. Goyer explora as origens do “homem-morcego” e a sua lavagem realista de influências a Frank Miller torna-o num must see do universo dos super-heróis, a sua qualidade foi discutida pelos mais cépticos e comparada com o Batman de Tim Burton, que mesmo passados cerca de 20 anos continua como uma melhores adaptações da DC Comics. Depois de ter pausado em The Prestige – O Terceiro Passo, regressa ao “escuro mundo” do Batman naquele que já é consideravelmente o auge da sua figura –  The Dark Knight.

 

 

O que poderemos encontrar neste The Dark Knight – O Cavaleiro Das Trevas? Muita, mas muitas razões para vê-lo. Nesta memorável aventura do herói criado por Bob Kane e Frank Foster em 1932, ficou marcado por uma extensiva campanha de “gente adulta”, desde posters arrebatadores a publicidade viral, como também e infelizmente utilizado, a aclamação do último papel completo do falecido actor, Heath Ledger, devido a isso e não só, o seu desempenho como o vilão Joker se antevia com uma nomeação ao Óscar e um legado que irá perdurar nos próximos e longos anos. The Dark Knight de Christopher Nolan é a exploração do conceito de herói, numa metafórica filosofia embalada com o entretenimento mais entusiasmante dos últimos anos, e melhor, as suas sequências de acção são maioritariamente desprovidas de CGI, fazendo com que esta incursão de “veia realista” de Batman seja tão credível e sem a artificialidade comum neste tipo de produções. Parece que Nolan fez mesmo um filme “à moda antiga”, de carácter mainstream, mas interessante o suficiente como um épico citadino. Como realizador há dar o mérito à sua capacidade de criar uma Gotham City viva e não fantasiosa e quase “caroleana” como a dos filmes de Burton, trata-se de uma cidade como muitas outras, com os problemas de qualquer uma e até Batman soa como herói limitado mas sobretudo humano, e é nesse termo que o faz superar os outros heróis da DC Comics, nomeadamente o “grande” e “invencível” Superman. Toda esta realidade crível submete a Batman numa categoria a par com outros contos de violência como The Departed ou Heat, modulando o melhor de Mann e suas outras influências. Apetece-me gritar que estamos perante um filme de descendência neo-noir pura.

 

 

The Dark Knight introduz a um mundo pós-11 de SetembroJoker  (Heath Ledger), um misterioso e bizarro homem que promete causar o caos na cidade de Gotham, este dito palhaço assassino fora contratado pelo crime organizado local para impedir a crescente onda de sensibilização que paira sobre a cidade com influências das acções de Batman, o justiceiro que surgiu, também ele misteriosamente, para apoiar a lei e a confraternidade entre os habitantes. Devido a isso, Gotham City conhece outro herói, desta vez sem mascaras, nem gadgets e o seu combate ao crime é um pouco mais seguido pelos regulamentos, trata-se de Harvey Dent  (Aaron Eckhart), o promotor público, um homem de grande futuro para Gotham, como Gotham um grande futuro com este homem. Bruce Wayne  (Christian Bale), alter-ego Batman, vê nesse homem o seu descendente e decide protege-lo a todo o custo e é partir daí que entra Joker, com planos opostos ao do nosso herói. Eis o clássico embate entre duas figuras tão misteriosas como capazes. Será que Batman terá que descer ao seu nível para vencer uma mente tão anárquica e negra como a de Joker?

 

 

Christian Bale veste mais uma vez a pele do milionário Wayne, ou seja Batman, a sua popularidade cresceu alargadamente desde o ultimo filme do “homem-morcego”, o actor predilecto de Nolan bem se esforça, mas o protagonismo cai facilmente em direcção a Heath Ledger, naquele o qual volto a referir, seu último papel completo, Joker. Há quem acuse que a fama desta interpretação teve como efeito da morte prematura do actor, considero tal facto, mas é neste Joker, fruto de grande trabalho de Ledger, que se consegue destacar mesmo com o seu alto hype. Relembro que Ledger trabalhou bastante na negra composição deste vil, seguindo os filmes de Clockwork Orange de Stanley Kubrick, uma verificável fonte, e nos livros mais negros desta personagem e pronto uma “pitadinha” da ascendência gore à lá Saw para situar a “antiga” personagem na moda. Quanto á disputa da melhor encenação da mesma personagem, falo obviamente do embate que tem gerado discussão, Nicholson  e Ledger, o primeiro que vestiu a pele do carismático “bad guy” em Batman de Tim Burton, e segundo do que se ouve, o falecido actor provou ser superior em tudo em relação ao celebre actor de Shining também ele de Stanley Kubrick, em relação a esse ponto só tenho uma coisa a declarar, ambas as incursões são da mesma personagem mas ao mesmo tempo diferentes. Nicholson encenou a variante mais clássica, o seu papel era simbiótica para a caracterização de Gotham através de Burton, Batman e Joker completavam-se, tal como Ledger cita em The Dark Knight “you are just a freak … like me!”. Quanto a Heath Ledger, o seu Joker é uma imagem mais fiel ao mundo em que vivemos, um mundo abalado pelo terrorismo, pelo idealismo radical e neste caso pelo anarquismo, melhor adjectivo na sombria figura de Joker de The Dark Knight. Conclusão; Heath encontra-se perfeito num papel assombroso e carismático, e mesmo sendo muito cedo aclamá-lo como uma dos melhores vilões recentes do cinema, a par com Hannibal Lecter de Anthony Hopkins e o incontornável Dark Vader da saga Star Wars.

 

 

Todavia não é só Heath Ledger e o seu Joker que tomam conta do filme, Aaron Eckhart consegue arrepiar pela sua versatilidade e a composição de um Harvey Dent trágico e a certa altura alucinando. O seu Two Faces  (Duas Caras), alter-ego de Dent, é um vilão assustador e enigmático, decerto não possuirá o mesmo protagonismo de Joker de Ledger neste filme, mas tendo em conta que o argumento de The Dark Knight gira envolto da personagem de Eckhart, o actor de Thank You For Smoking consegue captar o requisitado e muito mais, provando ser um talento subestimado nos das de hoje. Gary Oldman e Morgan Freeman são dois actores que se encontram como é de esperar num filme, quer no carregamento de presença, quer a sua popularidade atractiva; Freeman é igual a si próprio, ou seja comodo e quanto a Oldman, devido a importância do seu personagem, o actor consegue segurar o seu papel sem falhas aparentes. Outro actor de presença quase imprescindível, transmitido a veia mais moralista e filosófica de BatmanMichael Caine na pele do fiel mordomo Alfred. Enquanto na antologia do herói, era normalmente apresentado como uma personagem semi-decorativa, em The Dark Knight, tal como em Batman BeginsAlfred é de composição mais influente e afirmativa, trata-se de uma parte da alma do “homem-morcego”. Um dos factores mais positivos nesta continuação é porém a mudança de Katie Holmes por Maggie Gylenhaal, a actriz compensa em melhoria a má interpretação da actriz anterior e mesmo sendo ofuscada nesta obra, a sua presença num blockbuster desta envergadura poderá abrir novas portas para esta, já que se encontrava bastante limitada ao circuito de filmes indies. Apenas em baixa, encontra-se Christian Bale como Bruce Wayne, de presença mais reduzida (Heath Ledger parece roubar qualquer plano que entra), o actor entra num modo automático à deriva desta orquestrada narrativa. Falando em orquestras, não poderei deixar de referir a banda sonora composta pelo luxuoso mas sempre “bem” Hans Zimmer, a transmitir um fulgor épico merecido.

 

 

Além do elenco, ainda podemos contar com um argumento inteligente, complexo e tratado com a seriedade que merece, muito mas muito longe da indigente qualidade de filmes do mesmo tipo. Christopher Nolan tem a virtude de cumprir aquilo que tem vindo a prometer, uma arrebatadora obra de acção, um thriller negro o qual o seu sucesso não é descabido de todo. Não é o melhor filme do mundo, nem nada parecido, mas é sim o entretenimento mais completo dos últimos 3 anos. Um invejável blockbuster a marcar o melhor deste Verão de 2008 e o melhor filme de Batman alguma vez feito (palavra!).

 

Let’s put a “smile” on that face

 

Real.: Christopher Nolan / Int.: Christian Bale, Heath Ledger, Michael Caine, Aaron Eckhart, Gary Oldman, Morgan Freeman, Maggie Gylenhaal, Cillian Murphy

 


 

O melhor –  Um filme comercial que cumpre aos mais diferentes níveis

O pior –  Ser aclamado como o melhor filme de todos os tempos, o que é exagerado

 

The Dark Knight” – 10 estrelas “Depois há um senhor chamado Christopher Nolan que resolveu, a par do seu irmão, escrever um dos mais brilhantes argumentos que já visualizei em película.(…) The Dark Knight" é simplesmente obrigatório. Eu irei vê-lo uma segunda vez ao cinema e, quem sabe, uma terceira. Não se estão a rir?? "Why so serious??' Cinema is My Life

The Dark Knight – 10 Estrelas- " "The Dark Knight" não é um mero blockbuster, é muito mais que isso. É não só um dos grandes filmes dos últimos anos, como também um dos melhores alguma vez feito sobre o universo dos super heróis. " Ante-Cinema

 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 17:03
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