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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Bola Preta #1 - Por detrás de uma geração sacrificada e de uma cinefilia estagnada. Uma conversa com Rui Alves de Sousa

Hugo Gomes, 25.09.25

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Beau Travail (Claire Denis, 1999)

Não há revolução sem violência”. Recordo estas palavras ao sair do novo filme de Paul Thomas Anderson (“One Battle After Another”) e ao tentar encaixá-lo no mundo que nos cerca cada vez mais. Contudo, escolhi outra forma de resistência: a de um podcast sobre crítica, cinema, cinefilia e latências (ou até lactâncias, se preferirem). Não quis formatos rigidamente definidos, nem estúdios com auscultadores para soar profissional. Quis, sim, uma vista para o Tejo (e a Serra da Arrábida a acenar no horizonte), uma ‘litrosa’ como companhia e um parceiro no crime: o primeiro desta jornada, já tão habituado (ou calejado) nestas andanças do ‘podcasting’. Rui Alves de Sousa, radialista da Antena 1 e editor/colaborador da “À pala de Walsh”, aceitou o desafio. E permitiu, assim, esta resistência: a de fazer um podcast sob a ordem da palavra, do diálogo, por vezes labiríntico; das queixas e lamentos de uma geração perdida e de uma cinefilia pelo mesmo caminho. Sem guiões, sem planos, partimos para a tertúlia. Ao contrário do filme do PTA, sem violências, porque não é a revolução que procuramos, deixaremos isso para outras estâncias, ou estações.

Ouvir episódio completo aqui

À espera da revolução que nunca chega

Hugo Gomes, 25.09.25

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Por mais que nos convençamos de que Paul Thomas Anderson trabalhou neste guião durante vinte anos, ainda assim é difícil não contemporaneizá-lo na América de hoje: a de Trump, a das saídas do “armário” ou, talvez, como hipótese de um tempo cíclico em constante loop, a de uma estagnação de onde nunca saímos verdadeiramente. Em “One Battle After Another”, PTA (carinhoso acrónimo) toma as rédeas dos escritos de Thomas Pynchon, como fizera no ainda discutido “Inherent Vice”. Porém, enruga-os como bacalhau seco e esfrega-os na cara da modernidade, com a ambição de transformar este filme no seu magnus opus, o cinema político norte-americano de que necessitamos.

Mas vejamos: aquele início fervoroso, de assaltos a centros de detenção de imigrantes (aliens, nome careta e de instrumentalização politizada de conservadores e alados), de arma em punho, alguns gritos de ordem e uma ereção inesperada — eis a América enquanto América, a violência como carpe diem. “Toda a revolução é violenta”, afirma a personagem que se apresenta como Perfídia Beverly Hills (Teyana Taylor), herdeira de uma longa linhagem de revolucionários e activistas sem hashtags nem frases feitas. Bom slogan, que poderia rimar com outro: “não há revolução sem revolução sexual”, do nosso caro camarada Dusan Makavejev [“WR: Mysteries of the Organism”], e desta cama passa para camas alheias, sexo aqui, sexo ali, sem notar como tais lascividades condicionam destinos. Mas o que fazer senão a revolução, a promessa, os amanhãs que cantam? Virada à esquerda, radical, talvez sim, talvez não, em terra de americanos, porém, a violência é a senha de entrada no clã.

Agora: cinema político? Precisam os EUA de uma nova vaga? Todas as vagas nascem de uma ruptura, de uma revolução que nunca é pacífica ou negocial, mas agressiva, destruidora de vícios para criar outros. PTA, por outro lado, está longe de ser revolucionário ou de liderar uma vaga possível. A sua agressividade é pacificadora. Ao longo da carreira olha para os alicerces americanos, estabelece pontes com a tradição, defende a sua geração, mas concentra-se em dissecar o Poder: os seus tentáculos, as suas encarnações, as tatuagens desta América. Assim o fez pelo acaso (“Magnolia”, 1999); pela indústria pornográfica (“Boogie Nights”, 1997); pela ganância empreendedora (“There Will Be Blood”, 2007), onde a personagem de Paul Dano desenha o quão carnal a religião se tornou nesses círculos de poderio capitalizado; pelo culto (“The Master”, 2012), filme que hoje seria retrato actual das políticas evangelistas e da sua diluição pelo palco democrático; e pela paranoia (“Inherent Vice”, 2014), já a piscar o olho a “One Battle After Another”. A paranoia é o seu lar, envidraçado na sátira, e PTA, influenciado por Pynchon, caricatura medos, choques e Poder. Aqui Sean Penn surge altamente caricatural, a ridicularizar um punhado de personagens da nossa faux politique.

Mas voltemos às vagas: a obra é demasiado cara para arriscar o corte esperado e o realizador demasiado compreensivo com o cinema da sua casa para fermentar um movimento consequente. Integra a geração herdeira de um cinema “Senhor Hollywood”, sem palhaçadas nem ‘bonecadas’, como James Gray, só que, ao contrário deste, PTA conhece os códigos sem os mimetizar, não sonha sentar-se à mesa dos professores; quer criar um lugar numa mesa apenas sua. Mas será que está a conseguir com o feito? Resposta incerta, contudo cada lançamento seu adquire um tom de filme-evento, o “novo filme de Paul Thomas Anderson a estrear”, frase ouvida para agrado de qualquer realizador. “One Battle After Another” pode não ser o passo seguinte do cinema americano … esperamos, contudo, pelo dia em que surja algo capaz de o arrancar da sua mortiça condição artística. Entretanto, porque não acreditar que a revolução possa vir também das massas? Não dos proles ou dos descontentes, mas da massificação vista pelo prisma capitalista e consumista?

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Daí o mesclar entre a paródia coenesca, descrédito humano de Iñárritu, caos e calmaria, remexendo politiquices, extremismos e paranoias, um trago de Nova Hollywood de estrada vai e estrada vem, ou da malapata scorseseana (nota-se as inspirações, as fontes ‘inspirituais’, mas ao contrário de outros da sua ‘turma’, Tarantino, não deixa as referências em exibição). Tudo paródia, tudo troça, tudo violência na piada e na execução. PTA poderá conquistar público, elaborar o seu filme do momento, o zeitgeist cultural, porque até as massas pedem hoje o seu choque político: make cinema relevant again. Sem construir um movimento (desses que esquartejam a ordem natural do procedimento) este poderá ser, ao menos, o evento necessário para cativar uma audiência desmerecida, ou domesticada pela dominância da tendência rentável. 

Perdoamos aquele epílogo lamechas e descabido, vibramos com o astuto e certeiro golpe na estrada inóspitas, rimos de Sean Penn num bullying permanente a relembrar outras e determinadas figuras da nossa atualidade, torcemos pelo destino atrapalhado por Leonardo DiCaprio, cansamos da obsessiva música de Jonny GreenwoodPTA poderá, num meio deserto extremo, ter criado o seu “cinema político”.

Episódio 0: Notas de Intenção

Hugo Gomes, 24.09.25

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Pensei em gravar um monólogo, mas depois de duas ou três tentativas apercebi-me de que não sou apto para “falar para o boneco”. Portanto, cá vai … para mal dos vossos pecados … em versão escrita.

Este episódio 0, assim numerado para não integrar a linha canónica que pretendo criar com o projecto “Bola Preta”, também poderia chamar-se “Nota de Intenção”. Inspira-se na tradição das vinhetas de uma ou duas páginas em que os realizadores expõem os propósitos e ideias do filme que se prestes a ver nos institucionalizados press kits. Em festivais internacionais, muitas destas notas são o primeiro contacto da imprensa com a obra, a inaugural fonte de informação.

“Bola Preta” é, sem surpresa, um podcast. — “Ui, mais um, como se já tivéssemos poucos.” — Sim, estamos saturados de podcasts: é podcast para aqui, podcast para ali, muitos deles a suscitar dúvidas sobre a sua existência ou até mesmo utilidade. Contudo, um podcast de cinema não é propriamente um oásis neste país, muito menos no formato que tenciono construir.

Quero, à semelhança das tais ‘notas de intenção’, revisitar um elemento essencial da minha educação cinéfila: a tertúlia. Nem que seja numa mesa de bar, acompanhado por uma birra, debatendo cinema, crítica e todos os temas que daí desaguem. É isto que desejo: conversas longe da formalidade, da “estreia da semana”, da temática exclusiva, da lógica da entrevista. Quero falar com amigos, camaradas de tela, conhecidos, figuras de diferentes áreas, com a crítica de cinema no centro, e em modo eclético.

O modelo é simples: em cada episódio terei um ou mais convidados, com quem embarcarei numa discussão, numa dúvida talvez, numa provocação por vezes. Daí seguirá, de forma labiríntica, a fluidez da conversação. Para onde nos levará? Não sei.

A minha jornada será exactamente essa, falar sob o intuito da promessa de aprender com o outro, de me deixar guiar pelas suas visões, de fortalecer a minha “sagrada” cinefilia, ou apenas de resistir com o meu ponto de vista.

Sim, será um podcast de cinema. Mas, acima de tudo, um programa sobre a humanidade no Cinema e nos diferentes olhares que dele brotam. Porque Cinefilia tem algo de amizade, porque não fazer alguma ‘coisa’ com ela?

*Episódio 1 prestes … mas prestes a sair! Estejam atentos.

"O cinema de Hong Kong é pouco visto em Portugal": vem aí o 2º Making Waves para contrariar a tendência!

Hugo Gomes, 24.09.25

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Ah Ying (Allen Fong, 1983)

Está a chegar uma corrente vinda de Hong Kong ao Tejo, parece desaguar no Cinema Ideal nestes tempos. Portanto, façam ondas … O Making Waves, a segunda mostra de Cinema de Hong Kong de Lisboa, acontecerá nos próximos dias, de 25 a 28 de setembro com vista para o rio donde partiram os exploradores para a rota marítima do Oriente, mas longe dessas eras colonizadoras, hoje é Hong Kong a ‘colonizar-nos’ com uma mostra breve e altamente curada do cinema que se pratica naqueles cantos remotos. O que podemos dizer sobre o Hong Kong cinematográfico sem referir os lugares-comuns das vagas anteriores, ou do expoente cinema de acção ou até mesmo desse continente à parte de nome Wong Kar-Wai, esse “bichinho” que conquista corações por esse mundo fora. 

A programadora Vanessa Pimentel respondeu ao desafio do Cinematograficamente Falando … falar-nos desta mostra e as razões para ser uma rota oriental para cinéfilos portugueses. Que segredos cinematográficos ainda tem Hong Kong guardados?

A mostra surge como uma ponte entre Hong Kong e Lisboa, mas também como um gesto de mediação cultural. Quando se seleccionou estes seis filmes, pensou mais em revelar Hong Kong ao público português ou em provocar o olhar que Lisboa tem sobre si mesma através desse espelho asiático?

O programa Making Waves visa a promoção do mais recente cinema de Hong Kong, fora do seu território. É um programa que acontece em várias cidades do mundo, desde a Ásia até à América, em que, cada cidade e cada programação faz a sua própria seleção. Como sabemos, o cinema asiático e, em particular, o cinema de Hong Kong é um cinema menos visto em Portugal - a Ásia é um lugar longínquo.  

Nesse sentido, quando a Blue Lotus Lisboa abraça este projeto, fá-lo com a intenção de dar a conhecer ao público, em Lisboa, o que, do nosso ponto de vista, de melhor se tem produzido no cinema de Hong Kong, deixando em aberto a leitura que quiser ter, sobre Hong Kong, sobre Lisboa e sobre o mundo. Esta mostra é, também, marcada pela presença de público bastante heterogéneo, com diferentes origens e backgrounds, penso que a multiplicidade dos olhares é um dos seus pontos fortes.

Quais os desafios encontrados de uma para a segunda edição da mostra?

Julgo que o desafio mais óbvio de uma segunda edição será certamente superar a primeira. Numa seleção bastante diferente da seleção do ano passado, manter a qualidade dos filmes que propomos era a primeira prioridade, seguindo-lhe a possibilidade de trazer pessoas relacionadas com cada filme para termos as conversas - Q&A  que se seguem às sessões e penso que ambos foram cumpridos. Temos seis filmes premiados ou que marcaram presença em Festivais de Cinema internacionalmente reconhecidos, um restaurado, da primeira Nova Vaga de Hong Kong, de 1983 e, com todos os filmes, temos uma actriz, uma produtora, uma montadora e três realizadores que estarão em Lisboa, para partilharem connosco as suas experiências. Será, sem dúvida, interessante ouvi-los e poder perguntar-lhes sobre o que nos interessa. 

Por fim, e não menos importante, está a capacidade de atrair público que é, naturalmente, outro dos desafios importantes. Temos boas expectativas e acho que podemos conseguir um bom resultado, a ser posto à prova já no dia 25 de Setembro.

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All Shall Be Well (Ray Yeung, 2024)

O programa oscila entre novos nomes e um clássico restaurado, “Ah Ying” (Allen Fong, 1983). Que leitura quis propor ao colocar lado a lado estas duas extremidades, o cinema mais fresco e a herança de uma Nova Vaga já distante?

A ideia é sempre criar uma perspetiva mais abrangente do cinema de Hong Kong. Hoje em dia, com a quantidade de títulos que vão sendo restaurados, em Hong Kong e não só, abre-se a possibilidade de trazer à sala de cinema títulos que não poderiam ser revistos, de outra forma. O cinema de Hong Kong é pouco visto em Portugal, no seu todo, ou seja, tanto os títulos mais recentes, como os mais antigos. Trazer um filme restaurado é dar a conhecer mais um título igualmente importante e revelar um pouco mais do património cinematográfico de Hong Kong, dando a possibilidade, como referi acima, de alargar a perspetiva que podemos ter

Há uma evidente intenção de confrontar o público com temas universais — saúde mental, maternidade, género, resistência física — mas sempre ancorados em Hong Kong. O que é que se perde e o que é que se ganha quando se universaliza uma cinematografia ainda marcada por tensões locais?

As cinematografias das mais diferentes regiões podem versar sobre os mais variados temas. A universalidade talvez nos torne mais próximos uns dos outros, mas têm sempre uma abordagem particular, penso que a ‘individualidade’ ou a componente autoral não se perde e enriquece qualquer universalidade. Tomando como exemplo a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, um tema que se discute em vários sítios do mundo e que colide, na nossa sociedade, com princípios católicos, somos confrontados, em “All Shall Be Well” (2024) com a inexistência da possibilidade legal para reconhecer a união de duas mulheres, aqui, numa perspetiva particular de Hong Kong, levantando outras questões como o problema da especulação imobiliária e da habitação  - curiosamente, outro tema mais universal do que seria desejável e que é foco de grande tensão, dadas as limitações naturais do território. 

De resto, em todos os filmes estão presentes características particulares de Hong Kong, desde as paisagens e cenários aos hábitos culturais, às perspectivas sociais e individuais, facilmente as ‘universalidades’ se particularizam nos autores que as invocam, julgo que essa é uma componente de grande evidência e importância, neste programa.

Segundo os press releases, a mostra pretende “criar uma ideia mais concreta de Hong Kong”. Mas não haverá o risco de, ao concentrar seis filmes num curto espaço de tempo, cristalizar uma imagem que, sendo parcial, se confunda com uma verdade total?

A nossa intenção é trazer ao público em Lisboa mais e mais cinema da Ásia, no caso concreto, o Cinema de Hong Kong, abrindo portas ao imaginário português para esta cinematografia de paragens mais distantes. Pensar que qualquer região ou cinematografia se pode fechar em apenas seis títulos, seria largamente redutor. O ano passado trouxemos sete títulos e este ano mais seis, todos muito diferentes entre si, na forma, na estética, na técnica e na temática. Quando se fala em ‘criar uma ideia mais concreta’ não significa fechar um conceito, mas sim torná-lo concreto, através de imagens, sons e histórias que nos são dadas a ver e ouvir e não uma mera especulação ou ideia pré concebida do que é ou pode ser Hong Kong. 

Um exemplo da possível clarificação de preconceito, são os dois documentários que trazemos este ano que, apesar de bastante diferentes entre si, nos mostram a extensa paisagem natural de Hong Kong e não a habitual cidade repleta de arranha céus que estamos mais habituados a ver. Por outro lado, a vinda dos realizadores e atores estreita esse contacto e permite-nos saber mais sobre a realidade de Hong Kong.

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Four Trails (Robin Lee, 2023)

O que me pode dizer sobre os convidados? Da sua importância para uma mostra destas como a sua selecção?

Como já referi em respostas anteriores, a vinda dos convidados é uma oportunidade única para conversar sobre os filmes que vamos ver, mas também sobre como é fazer um filme em Hong Kong e sobre a sua realidade. Qualquer filme que tenha um elemento principal da equipa disponível para falar sobre o seu trabalho enriquece sempre a experiência da sessão a que se refere e permite que o público se relacione com a história e a experiência partilhadas na sala, de forma mais intensa. Por exemplo, este ano teremos a atriz [Hui So-Ying] que protagoniza o filme restaurado “Ah Ying”, o que não é habitual. Por outro lado, será extremamente enriquecedor tê-la entre nós para partilhar a sua experiência, em particular, neste filme que se inspira, em parte, na sua própria história.

Como encara o atual cinema de Hong Kong, tendo em conta que os principais movimentos artísticos, e até produtivos, parecem ter entrado em desuso ou expirado na sua criatividade. Ou existe desde sempre uma ideia redutoramente ocidental quanto ao cinema de Hong Kong?

O cinema, em todo o mundo, tem vindo a deparar-se com variados desafios e as (im)possibilidades de produção são ainda mais variadas e de diversas índoles, estando sempre presente a nuvem da ‘morte do cinema’ com as diferentes dificuldades de financiamento e a pressão para a ‘standardização’ em determinados canais, um pouco por todo o lado. Sou bastante otimista e julgo que a capacidade de reinvenção e a vontade de filmar e de contar histórias pode e tem superado as adversidades, dando lugar a novas estratégias de produção que permitam a concretização de novos filmes. Este programa é, a meu ver, sinal de que o Cinema de Hong Kong não sofre de criatividade expirada e tem, pelo contrário, um património rico e gerações mais velhas e, também, estreantes a produzir cinema de forma autêntica e com qualidade reconhecida.

Por fim, ao trazer para Lisboa esta segunda edição do Making Waves, até que ponto sente que está a programar para a comunidade asiática residente, para o público cinéfilo português, ou, secretamente, para si própria enquanto espectadora que também procura ver o que raramente chega às salas?

Naturalmente, o que nos motiva na Blue Lotus Lisboa é a ligação  que temos à Ásia e essa é base fundamental para um projeto que ambicionamos ver crescer e evoluir na direção de um Festival de Cinema Asiático em Lisboa.

Na elaboração da programação tentamos, como já referi, manter uma qualidade elevada nos títulos apresentados. De resto, programamos para todos os que estejam interessados e que queiram ver esta cinematografia tão importante e de rara visibilidade em Lisboa, sempre na expectativa de podermos cativar e chegar a mais pessoas. Temos todo o gosto em ter nas salas um público heterogéneo, de diferentes raízes e motivações, a riqueza desta mostra está, também, na diversidade e na partilha de perspetivas motivando o diálogo entre universos tão distantes.

Toda a programação poderá ser consultada aqui.

Addio Bella ...

Hugo Gomes, 23.09.25

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Com Luchino Visconti e Alain Delon na apresentação de "Il Gattopardo" (1963) 

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Com Federico Fellini na rodagem de "Fellini 8½" (1963)

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Com Manoel de Oliveira na rodagem de "O Gebo e a Sombra" (2012)

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Com Sergio Leone na rodagem de "C'era una volta il West" (1968)

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Com Jacques Perrin em "La ragazza con la valigia" (Valerio Zurlini, 1961)

 

Claudia Cardinale (1938 - 2025)

Um Segundo Take do MOTELX 2025

Hugo Gomes, 21.09.25

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Ainda à sombra do MOTELX e a convite de António Araújo teve uma pequeno cameo / participação no seu mais recente episódio de “Segundo Take”. Falo do festival, do convívio, Herschell Gordon Lewis, Ben Wheatley e Adèle Exarchopoulos. Não estou sozinho, Rui Alves de Sousa e José Santiago fizeram-me companhia. Enquanto isso, o anfitrião falou com o realizador Fernando Alle sobre a sua curta “Borbulha” e o remake de “The Toxic Avenger”, a estrear nos nossos cinemas. Ouvir aqui e ver aqui:

"Lavagantar"

Hugo Gomes, 19.09.25

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História de lavagantes e safios, de realizadores do povo e realizadores de outra ordens morais, um filme sobre a memória recente urgentemente requisitada que opera numa transformação alegórica do corpo de Júlia Palha num país que nunca existiu, mas o qual se deseja intensamente.

"Lavagante" estreia 2 de outubro nos cinemas portugueses.

Impondo-se contra a 'surdez' do Cinema: uma conversa com Eva Libertad sobre "Sorda"

Hugo Gomes, 18.09.25

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Sorda (2025)

Ángela e Héctor são aquilo a que no cinema se chama “romance idealizado” - ela, surda; ele, ouvinte - mantêm uma relação de divergências, como também de fortes uniões, e a decisão de expandir a família seria, em qualquer outro relato, o esperado desfecho narrativo de “e viveram felizes para sempre”. Só que não. O nascimento da filha lança Ángela numa crise existencial: a criança ouve, e a ligação previamente projectada entre mãe e filha fica ameaçada por esse pormenor crucial.

Vindo de Berlim, “Sorda” nasceu de uma curta-metragem homónima de Eva Libertad, cineasta espanhola que, com a irmã e actriz Miriam Garlo, igualmente surda, acompanha a história deste “casal-maravilha”, bracejando num “mar de rosas” em busca dos seus espinhos, e como essas pontas decretam as ênfases dramáticas e sensoriais da sua história. O Cinematograficamente Falando… conversou com a realizadora sobre a obra, a intenção de pontapear estereótipos e as imagens idealizadas nas quais muito do cinema persistiu até se tornarem marca registada, fazendo de “Sorda” uma espécie de anti-”CODA” … e nesse ponto, requere a grande tela como encontro da sua forma.

Gostaria de começar pela génese do projecto. Pelo que entendi antes desta longa-metragem já existia um curta sob o título, “Sorda. Como foi parar ao formato longo?

Sim, em 2021 realizámos um curta-metragem que nasceu de uma situação muito pessoal. A minha irmã, Miriam Garlo, a protagonista do filme, estava a pensar em ser mãe, e conversávamos muito sobre isso. Ela partilhava os seus medos, expectativas, dúvidas, sobretudo sobre como seria viver a maternidade sendo surda num mundo maioritariamente ouvinte. A certa altura pedi-lhe que escrevesse esses medos, e dias depois recebi uma lista que me impactou profundamente. Percebi que, mesmo sendo irmã de uma pessoa surda, nunca tinha refletido tão a fundo sobre essa experiência. Dessa lista nasceu o guião da curta.

Depois da rodagem, ficaram duas vontades: por um lado, a de continuar a trabalhar com a Miriam (já a tinha dirigido em teatro, mas no cinema foi a primeira vez), e descobrir o quão poderosa era a sua relação com a câmara. Por outro, a minha própria vontade, como guionista e realizadora, de aprofundar aquela personagem e aquele contexto: uma mulher surda, com um companheiro ouvinte, às vésperas de ter uma filha. No curta, a criança nunca chega, só existe a antecipação, e queria explorar o que aconteceria depois: o impacto do nascimento na relação do casal e o vínculo de Ángela com a filha.

Para escrever a longa, tive que me distanciar da experiência pessoal da Miriam, até porque ela acabou por decidir não ser mãe. Entrei então numa fase de documentação: entrevistei várias mães surdas que partilharam comigo as suas vivências durante a gravidez, o parto e a criação dos filhos. A partir desses testemunhos construí o guião da longa-metragem.

Uma coisa curiosa no seu filme é essa espera pelo nascimento da criança. A expectativa de ser ou não ser surda dita o estado de espírito da personagem de Miriam. Quando Ángela descobre que a filha não é surda, há uma frustração que marca o segundo ato. Achei isso muito interessante, porque muitos filmes que vi sobre surdez, sobretudo em Hollywood, tendem a apresentar as pessoas surdas como figuras sempre pacíficas e harmoniosas para com a sua condição e o seu redor. No seu caso, vemos alguém com medos, frustrações e até revolta perante a sociedade. O filme é também uma resposta a essa imagem veiculada por outros media (e cinemas)?

Tinha desde sempre a ideia de Ángela ser uma mulher com caráter, imperfeita. Como espectadora, gosto de ver personagens contraditórias, difíceis, especialmente quando se trata de mulheres. Durante muito tempo, os papéis femininos foram limitados, pouco complexos. É por isso que gosto de anti-heroínas: mulheres que erram, que podem ser antipáticas, e que por vezes não as compreendemos. Não queria que o facto de ser surda a transformasse numa figura exemplar. A Ángela não é “representante” de todas as mulheres surdas, é uma personagem particular, com os seus próprios medos e fragilidades.

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Pois, porque existe uma tendência em muito cinema de transformar personagens de certa formas ligadas à diversidade e representação social — sejam pessoas com algum tipo de deficiência, minorias, etc. — em símbolos exemplares. Penso que essa persistência acaba por reforçar estereótipos.

Concordo totalmente!

Portanto, posso garantir que foi algo que apreciei no seu filme: o anti-estereótipo. Porque conseguimos compreender Ángela, aquela sua frustração, imperfeição, até raiva. Penso também no que dizia: certos traços, como por exemplo, a arrogância, mais facilmente aceitamos em personagens masculinos do que femininos. Gostava que falasse mais sobre a construção da personagem da Miriam.

Pois isso também me intrigou durante o processo. Quando estava a escrever o guião e a trabalhar em laboratórios de desenvolvimento, alguns consultores diziam-me: “Ángela cai mal”. Pensava: ótimo, não há problema. Outros diziam: “Héctor é demasiado perfeito”. E perguntava-me: “o que está a acontecer aqui?”

O meu objetivo era precisamente criar um homem com inteligência emocional, disponível, capaz de cuidar dela. Porque conheço homens assim e acho que quase não aparecem no cinema. Então, quando me diziam que Ángela não era simpática ou que Héctor era demasiado bom, percebi como existe um julgamento desigual: se uma mulher não é perfeita, “cai mal”; se um homem é sensível e cuidador, é visto como “irrealista”.

Decidi manter essa escolha, e agora, nos debates após as exibições, o tema volta a surgir. Há homens que me dizem que Héctor é um exemplo e gostariam de ser como ele; outros acham-no “bom demais”. Já as mulheres reagem de outra forma: dizem sempre — “queremos um Héctor na nossa vida”. [Risos]

É uma imagem difícil de cumprir para os homens [risos]. Mas o que procurava mostrar com essa “violência sutil” que muitas vezes existe até nas ditas “boas intenções”?

Por estar toda a vida ao lado da minha irmã Miriam, vi de perto a violência constante a que ela é exposta, quase sempre de forma invisível, e o esforço adicional que uma pessoa surda tem de fazer a cada momento para se desenvolver, comunicar, estar presente. Queria mostrar essas pequenas violências quotidianas, que quase nunca se veem. Interessa-me muito mais essa vivência do dia a dia do que a abordagem que já vimos em outros filmes, onde a surdez ou a deficiência é retratada de forma idealizada, quase mágica, como se fossem superpoderes. Essa idealização nasce do desconhecimento. Só queria mostrar a quotidianidade, sem filtros nem fantasias.

Quando converso com amigas que são mães ou que se estão a preparar para sê-los, verifico que existe muitas vezes a projecção da mãe sobre os filhos, e por vezes, a devida frustração quando os filhos não correspondem à imagem idealizada. No seu filme esse tema aparece através da surdez, mas esse desejo de ver os filhos como reflexo dos pais parece algo universal.

Sim, e isso surpreendeu-me muito. Quando o filme estreou, recebi mensagens de várias mães ouvintes, sem deficiência, que diziam identificar-se com os medos de Ángela. Medos de não conseguir conectar-se com a filha, de não saber como relacionar-se, ou de que o vínculo da criança fosse mais forte com o pai. Percebi que, na verdade, são questões comuns à maternidade. Só recentemente o cinema começou a mostrar esse lado mais escuro e difícil da experiência materna. Durante muito tempo a maternidade esteve também idealizada, mas com mais mulheres a dirigir estamos a ver histórias mais reais, com as quais todas se podem identificar.

Sorda (2025)

Queria falar agora de algo que para mim é dos momentos mais interessantes do filme: a imersão sensorial ao mundo auditivo de Ángela. Quando passamos a ouvir como ela ouve, o filme ganha uma outra força. Gostava de saber como chegou a esse processo sensorial, e se Miriam esteve por trás dele a partilhar a sua experiência auditiva? E até que ponto essa construção é algo coerente com que pessoas surdas conseguem vivenciar no cinema?

Chamo a isso o “acto surdo”, esse último acto narrativo. Já o construí desde o guião. A parte mais difícil foi decidir a estrutura sonora. Poderia ter jogado mais vezes com a perspetiva sonora de Ángela, como a produtora sugeria, mas não me convencia. Isso guiaria demasiado o público de forma emocional, e não gosto desse recurso como espectadora.

Então pensei: vamos estar perto de Ángela ao longo do filme e, quando ela se quebra, quando entra em crise e o público talvez já não a consiga seguir, aí fazemos a transição. Passamos de estar perto dela para estar dentro dela, e desta maneira, através do som, o espectador termina por entendê-la. Para construir isso, Miriam reuniu-se com o designer de som e explicou como “ouve” com os aparelhos. Mas é impossível reproduzir exactamente — só a própria pessoa sabe como ouve. Fizemos pesquisas, testámos aparelhos, estudámos como funcionam, mas no fundo foi uma criação artística, tentando ser coerente com o que poderia ser a experiência de Ángela, até porque Miriam não ouve da mesma forma que a sua personagem: ela perdeu a audição mais tarde e fala melhor do que Ángela.

Também pensamos nos espectadores surdos. Há momentos em que usamos efeitos para gerar vibrações sonoras, que podem ser percebidas por quem tem restos auditivos ou usa aparelhos. Mas claro, isso varia muito de pessoa para pessoa.

Foi uma experiência rara no cinema. Lembro-me de algo semelhante em uma cena breve em “Babel” de Iñarritu, com uma personagem surda-muda, interpretada Rinko Kikuchi, numa discoteca. Sentimos algumas vibrações quando o filme passa ao seu impressionismo, mas não foca com atenção nessa particularidade ao longo da narrativa. Mas no seu filme é uma verdadeira viagem, o que leva os ouvintes a acreditar ser uma experiência muito coerente.

Posso acrescentar o “Sound of Metal” de Darius Marder, que faz um jogo interessante com o som.

Sim, sim, uma boa sugestão. Partindo agora para os novos projetos: pretende continuar a história de Ángela?

Por agora não. Confesso que tenho uma fantasia … talvez dentro de dez anos possa voltar a filmar Ángela e a relação dela com a filha, ver como estão, se continuam juntos, que novos conflitos surgem. Mas isso é apenas um sonho. Neste momento estou a pensar num novo projeto que não tem a ver com surdez ou deficiência, mas ainda não consegui avançar porque “Sorda” continua a exigir muito tempo e energia. Quero escrever, mas vocês não me deixam! [risos]

[risos] É curioso essa ideia, é muito Linklater, principalmente a trilogia “Before’”, onde vemos o casal evoluir ao longo dos anos. E o trabalho com a sua irmã, vai continuar mesmo sem a revisitação ao mundo de Ángela?

Adoraria continuar a trabalhar com a Miriam. Espero que sim.

Friday Night Lights ... eles vivem entre nós!

Hugo Gomes, 17.09.25

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Os verdadeiros homens sacrificam-se”, desde cedo, com os olhos “grudados” à televisão, Cameron Cade era incutido nestas instruções dadas pelo seu pai, militar que partilhava com o seu rebento, prodígio com carinho, a paixão pelo futebol americano, principalmente no jogador Isaiah White, o obstinado “GOAT” (Greatest of All Time) da modalidade. Marcado por tamanhas lições, Cade (Tyriq Withers, “I Know What You Did Last Summer”) viria a vingar-se no desporto das suas euforias, até se tornar numa promessa nesse universo, porém, longe da atenção do seu “instrutor paternal”, o pai, militar falecido, também motivado ao termo do sacrifício. 

Chega, então, a oportunidade do protagonista passar para a “Liga dos Grandes”, ser o quarterback de excelência no clube que sempre sonhara. Para isso, aceita o misterioso convite do seu ídolo, o tal Isaiah White (Marlon Wayans), para passar uns dias na sua fortaleza erguida no deserto, isolado do mundo que o acolhera desde então. Lá Cade é iniciado pelo seu novo mestre nas pisadas para se tornar no próximo GOAT - “Futebol, Família, Deus”, prega White com convicção o seu slogan de ecos ‘fascinados', oscilando entre paternalismo e ameaça. Pouco a pouco, o jovem percebe algo de estranho, até ritualístico, a povoar naquele recinto, obrigando-o a mudar, a tomar os seus sacrifícios, para atingir a próxima etapa. 

Him” passa pelos pingos da chuva no marketing de Jordan Peele. O realizador de Get Out” e “Nope” assume a produção, e consequentemente há espirros criativos na obra de Justin Tipping (segunda longa), quase como uma releitura transposta de “Get Out”, de alguma estética mimetizada, como se este ‘novato’ desejasse, ultrapassar o seu “GOAT” quer no estilo, quer no conceito. Contudo, o comentário político-social o define, abraçado ao equilíbrio visual e ao joguinho de terror de trauma que muitos habilitaram num entendimento de “elevate horror “ (verdadeiro bullshit de termo). 

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Fora desses rodriguinho da ansiedade, previsíveis, mas vistosos, “Him” parece compreender a sua função enquanto terror analítico, tomando o desporto como reflexo de um país intrinsecamente violento, couraçado por masculinidades dogmáticas e tóxicas e movido pela espectacularidade … a ver, como exemplo, o clímax, à medida do gore e do lúdico, nunca diminuindo o seu grau de grandiosidade e sensacionalismo estético. “América Grande Novamente”: eis a veia da meritocracia, da “fábrica de ídolos”, atormentadas pela sobrenaturalidade da sua perversão sistêmica. 

Sim, fala-se de jogadores, futebol, contratos, mas tudo engodo para embarcar nas classes, nas heranças (o privilégio é hereditário), nos favores e naquilo que os EUA parecem cada menos abdicar, do seu Poder restrito. Talvez seja isto a América, a nação que vende o seu “sonho americano”, uma ideia passada à ilusão quando são as verdadeiras forças políticas a decidir quem deve sonhar.

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