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Manas
“Manas apoiam Manas”. Círculo vermelho, autocolante, slogan de um movimento que ambiciona viralizar: ao peito, ostentado com orgulho. Foi o que sobressaiu no primeiro contacto com Marianna Brennand Fortes, realizadora de “Manas”, projeto co-produtivo entre Brasil e Portugal, que expõe uma situação insustentável, uma prática “normalizada” do abuso familiar. Mas a partir do arranque da conversa, aquele símbolo vermelho, tornou-se distante, numa projecção, num fim, e depressa retornei aos beirais do imponente rio Tajapuru, na Ilha de Marajó (Estado do Pará), onde uma comunidade é erguida sobre segredos de família. No seu centro, meninas e pré-adolescentes sacrificadas às mãos de quem deveria proteger.
A nossa protagonista, Marcielle (Jamilli Corrêa) apercebe-se disso numa “caçada à paca”, o animal roedor cujo nome coincide com a gíria para o órgão sexual feminino. Dessa mesma caça, vê-se transformada em presa de um caçador inesperado: o próprio pai (Rômulo Braga, “Elon Não Acredita na Morte”). Nesse instante crucial, depara-se com um dilema existencial: perpetuar uma “cultura” (palavra que a realizadora reprova veementemente) ou desafiar a sua ordem divina.
“Manas” estreou esta semana nas salas portuguesas, depois da apresentação no Giornata degli Autori no Festival de Veneza e posteriormente no FEST de Espinho, onde foi laureado com o Prémio do Público. Um filme de denúncia que não oculta a sua natureza, mas se constrói em mergulhos entre camadas e entrelinhas, partindo do primeiro plano, onde a divisória entre tradições é visível, e prosseguindo por entre fantasmas, botos, balsas e boates.
A realizadora falou com o Cinematograficamente Falando… com punho erguido: “Manas apoiam Manas”, reafirma o slogan, a marca, a demanda. Quem a ouvirá? E quem a temerá?
Antes de avançar para esta conversa, gostaria de fazer uma observação. Foi difícil desligar-me do seu filme, até porque, há cerca de uma semana, surgiu no Brasil uma polémica em torno da intervenção do influencer Felca (Felipe Bressanim Pereira), que denunciou não só uma rede de pedofilia no Brasil como a constante ‘adultização’ das crianças e dos jovens na sociedade. O seu filme também lida com essa ‘adultização’, não só em relação à personagem principal, mas em todo o ambiente que a rodeia.
Por exemplo, numa das sequências no interior da balsa, um dos tripulantes pergunta a idade da Marciele, e ela responde que tem 13 anos, e mesmo com esta informação, o desejo sexual por parte dele mantém-se. Gostava de refletir sobre isso, sobre essa espécie de normalização — não sei se lhe podemos chamar “cultura” — dessa ‘adultização’ de crianças. O seu filme aborda precisamente esse fenómeno.
Evito usar a palavra “cultura”, porque acho que não podemos aceitar a ideia de uma “cultura de abuso” ou uma “cultura de estupro”, isso seria naturalizar algo que é inaceitável. Mas existe, sim, uma normalização.
O que percebi naquela região é exatamente isso: o abuso é tratado como algo normal. A personagem da Daniela, a mãe, representa bem essa lógica, há toda aquela cena no hospital, no confronto com a delegada, em que se percebe que ela própria foi abusada quando jovem, tentou denunciar e não conseguiu. Na minha pesquisa encontrei muitas mulheres que viveram essa mesma realidade de violência desde a infância, e que viram as suas mães, avós, tias, primas, vizinhas passarem pelo mesmo. É como se acreditassem que não existe outra forma de vida possível. Quando a mãe foi abusada, a filha cresce a achar que é “natural”, e falo sempre entre aspas [Marianna faz o gesto em ambas as mãos], porque isso é gravíssimo. Mas há uma normalização, assim como existe em toda a sociedade, basta ver os casos de feminicídio, ou o número de meninas no Brasil que engravidam aos 9, 10, 11 anos. É um absurdo!
Esse caso do Felca foi importante porque chamou a atenção para um problema que já estava ali, e não acontece apenas online: o digital é apenas um reflexo da realidade. “Manas” mostra isso. O filme é um alerta. A história da Marciele, que vive na Ilha de Marajó, fala sobre essa exploração sexual e de abuso intrafamiliar, de forma muito específica àquela região, mas a verdade é que isso acontece no Brasil e no mundo inteiro. O abuso dentro de casa, cometido por pessoas que deveriam proteger e acolher, é muito mais comum do que se imagina.
Fiquei impressionada, depois da estreia em Veneza, ao perceber isso nas conversas em vários países. Muitas pessoas vinham falar comigo: “Também sou uma mana” ou “conheço alguém que passou por isso”. Em França, por exemplo, o caso da Gisèle Pelicot mostrou estatísticas muito semelhantes às do Brasil. Tivemos instituições, como a Amnistia Internacional, que se associaram ao filme e passaram a usá-lo como ferramenta de transformação social, organizando sessões seguidas de debates. As estatísticas são assustadoramente parecidas: no Brasil, cerca de 80% da violência sexual contra mulheres acontece dentro de casa, e em 60% dos casos o agressor é o pai ou um parente próximo. Aquela ideia com que crescemos, de que o perigo está na rua, num desconhecido violento, não corresponde à realidade. O maior risco está, muitas vezes, dentro de casa.
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Mariana Brennand Fortes
Voltando um pouco atrás: percebi que este projeto começou a ser pensado como um documentário.
Sim.
Mas como é que chegou à decisão de o transformar em ficção?
Foi a partir de uma impossibilidade de contar essa história de forma documental. Quando soube do que acontecia no Marajó, o meu primeiro impulso, como documentarista e como mulher, foi fazer um documentário de denúncia. Pensei: “preciso falar sobre isto”. Não era possível que aquilo estivesse a acontecer e ninguém estivesse a fazer nada.
Mas, logo no início da pesquisa, percebi que, eticamente, seria impossível. Para um documentário, teria de colocar aquelas meninas e mulheres à frente da câmara e pedir-lhes que recontassem as violências sofridas. Só que reviver um trauma dessa forma é extremamente doloroso. É quase uma nova violência.
Ainda mais com a câmara ligada.
Exatamente. E mesmo que não ligasse a câmara, só o ato de perguntar já seria violento. Quando se revive um trauma, volta-se a sentir aquela dor. Não queria, de forma alguma, provocar isso. Foi assim que a ficção se apresentou: como a única maneira possível de contar essa história sem gerar mais violência, e também como uma forma de construir uma narrativa capaz de aproximar o espectador. Porque esta realidade é tão dura e dolorosa que, normalmente, não queremos olhar para ela. Mas só transformamos algo quando o vemos.
O cinema tem essa capacidade de gerar empatia, de nos transportar para dentro do coração daquela menina. O meu desejo, desde o início, não era mostrar a violência de forma gráfica, mas sim fazer com que o espectador a sentisse.
E essa passagem para a ficção manteve também elementos documentais. Todo aquele ambiente, principalmente a balsa, resulta da sua investigação inicial?
Sim, completamente. Acho que a força de “Manas” também está nessa sensação documental. Era um desejo nosso: que o espectador acreditasse na verdade, nas personagens, na vida que se desenrola no ecrã. Muitos me disseram depois de verem o filme: “tive a sensação de estar a assistir a um documentário, de tão verdadeiro que foi”. Acho que essa abordagem documental esteve presente desde o início: na ética e no respeito com que abordámos o tema, na pesquisa obsessiva para compreender as camadas da violência e as consequências do trauma, e também na forma de construir personagens complexos.
Na realização, houve um desafio: não conseguimos filmar no Marajó, por razões logísticas e de segurança. Muitas comunidades não têm sequer eletricidade, como se vê no filme. Passámos um ano à procura de um lugar que tivesse a mesma geografia, um rio parecido com o Tajapuru, muito largo, muito caudaloso, que transmite uma enorme sensação de fragilidade. Lembro-me da imagem de uma criança, num barquinho pequeno, a aproximar-se de uma balsa enorme. É uma experiência impressionante, impactante e quis trazer essa sensação para o filme.
A balsa é equivalente a um ferryboat, não é? Um transporte comercial.
Exatamente. É um barco que acopla aquela plataforma onde estão os caminhões e as mercadorias.
Ou seja, é quase uma plataforma por onde grande parte do Brasil atravessa o rio.
Sim, especialmente no trajeto de Manaus para o Pará. Transporta cargas de ida e volta. Quando essas balsas passam pelo rio Tajapuru, sobretudo na região do Estreito de Breves, onde o fluxo é muito intenso, algumas meninas, mulheres e crianças atracam nelas para ajudar na renda familiar, e acabam exploradas.
Gostava que me falasse um pouco sobre o elenco, em especial a escolha da protagonista, Jamilli Corrêa. Foi difícil encontrar quem seria a “face” das manas? Como chegou até ela?
Foi uma escolha muito feliz! A Jamilli é uma força da natureza. Ela é o filme. É a luz de “Manas”, está em todas as cenas, é a protagonista absoluta.
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Mariana Brennand Fortes na rodagem de "Manas"
É verdade, a câmara acompanha-a o tempo todo.
Exacto. Vemos o que ela vê, sentimos o que ela sente. Desde a fase de escrita já sabíamos que seria um grande desafio encontrar essa menina. A personagem tem uma densidade dramática enorme, e queria muito trabalhar com alguém de 13 anos, não uma atriz mais velha a fingir ser mais nova. Isso tornava tudo ainda mais desafiador.
Outro desejo meu era que fosse uma menina da região do Pará, para trazer verdade à personagem, e que não fosse atriz, ou seja, havia muitos critérios difíceis de cumprir. Fizemos uma pesquisa de elenco que durou entre oito meses e um ano, em Belém e nas ilhas ao redor. Foi um processo lindo, de conversas e descobertas de meninas muito especiais e talentosas. No fim, encontramos a Jamilli, que nos arrebatou.
Queria também falar de um ator que aprecio e acompanho o seu trabalho: Rômulo Braga. Ele costuma interpretar personagens afáveis sempre numa postura viril, lembro-me, por exemplo, do filme “Levante”, em que faz um pai que tem uma relação de grande empatia com a filha, adolescente que engravidou. Aqui, no entanto, vemos o oposto: um monstro com pele de cordeiro. Foi um desafio transformar esse ator, tão associado a papéis digamos carismáticos, num vilão autêntico?
Foi um desafio enorme. As personagens do pai e da mãe são muito difíceis para qualquer ator, porque exigem interpretar seres humanos que carregam camadas de violência e contradição. O Rômulo foi a nossa primeira opção, sugerida pela diretora de elenco, Ana Luísa Paz de Almeida. Pretendia um ator que tivesse força, mas também delicadeza. Que pudesse ser doce, amoroso e, ao mesmo tempo, violento. O Rômulo tem essa capacidade de transitar entre esses extremos com muita precisão. É um homem “acima de qualquer suspeita”: alguém que, ao olhar, ninguém diria “esse é o abusador”. Isso era fundamental para mim na construção do Marcílio.
Não queria que fosse o clichê do homem violento, porque esse nós reconhecemos de imediato e nos afastamos. O verdadeiro perigo do abuso está quando vem de alguém próximo, alguém em quem confiamos e amamos, que usa essa proximidade para causar dor. Também não queria justificativas fáceis — “ah, ele bebe”, ou qualquer desculpa desse género. Não existe justificativa para um pai abusar da filha.
Voltando à questão da normalização: o pai acredita que o que faz com a filha não é errado. Quando é confrontado, argumenta que é um “homem de Deus”.
Sim, ele acredita nisso, que tem direito sobre a filha. A delegada diz-lhe: “ela é sua filha, mas não é sua posse”. Numa sociedade machista, patriarcal e misógina, muitos homens sentem que têm esse direito.
Há até um ponto curioso: na Bíblia, existe a história de Abraão que, para repovoar, tem relações incestuosas com as próprias filhas. Até que ponto isso também se liga à religião?
Curiosamente, o sermão de Abraão que aparece no filme surgiu da pesquisa. Durante a preparação, levámos os atores a um culto numa igreja evangélica local e, nesse dia, o sermão era justamente sobre Abraão e a defesa da família a todo o custo. A mensagem era: “se tem algum problema em casa, aceite”.
Tenho amigas que frequentaram igrejas evangélicas extremistas, sofreram violência doméstica e ouviram dos próprios pastores exatamente essa frase: “aguente”. Mesmo machucadas, ensanguentadas, pedindo ajuda, a resposta era “aguente”. Nessas regiões, onde o Estado não chega, a igreja tem um papel estruturante, dá acolhimento, fornece comida (às vezes é a única refeição que a criança faz no domingo). Mas esse poder também é usado para perpetuar relações de poder e reforçar o sistema patriarcal.
E hoje vemos a igreja cada vez mais próxima do próprio Estado.
Sim. O filme também alerta para isso. A delegada representa o Estado, mas também a sua ineficiência. Ao mesmo tempo, traz o elemento humano que encontrei na pesquisa: mulheres e homens, assistentes sociais, conselheiros tutelares que arriscam as próprias vidas.
Muitas vezes tiram dinheiro do bolso para comprar remédio para uma criança ou combustível para uma lancha, porque a delegacia não tem recursos. Imagine receber uma denúncia de uma menina de 10 anos abusada por um homem de 40, a 10 km rio adentro e o delegado não ter meios para chegar até lá.
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Manas
A personagem da Dira Paes foi inspirada em duas figuras reais: a irmã Maria Enriqueta Cavalcanti e o delegado Rodrigo Amorim. A batida na balsa que aparece no filme aconteceu de verdade, o delegado Rodrigo assumiu como missão combater a exploração sexual de crianças e mulheres no rio Tajapuru. Já a irmã Enriqueta, uma grande ativista, defende meninas e mulheres em toda a Amazónia, muitas vezes levando-as para a sua própria casa. Vive sob ameaça de morte e está no programa de proteção a vítimas no Brasil. É um problema estrutural muito profundo.
E ainda há quem insista em chamar a isso uma “cultura entranhada”.
Pois é. A própria irmã Enriqueta nos dizia: “não podemos admitir que isso seja chamado de cultura”. Não devemos nos naturalizar dessa forma.
É interessante ouvir isso. Em entrevistas com outros realizadores, quando falam de violência, mencionam muito “cultura do estupro”. É curioso o que diz: que não se deve perpetuar essa palavra “cultura”.
Exato. Assim como me perguntam por que não mostrar a violência de forma explícita no filme. Porque, para mim, essa violência não deveria existir. Se a filmo, permito que exista no cinema. Recusei isso, como mulher, como realizadora, foi uma escolha política.
Durante séculos, os corpos femininos foram representados através de um olhar masculino, erotizado, quase justificando o abuso. Imagine um homem filmando uma cena de estupro: provavelmente mostraria o seio da menina, ou parte do corpo, alimentando o olhar de desejo do abusador. Mas não existe justificativa.
Por isso, em “Manas”, era fundamental mostrar a Marciele como o que ela é: uma criança de 13 anos. Ao longo do filme, ela nunca é filmada de forma erotizada. Não há desejo ali, há apenas violência. Essa decisão ética também serviu para proteger a própria atriz, de 13 anos, com quem estávamos a trabalhar.
Até legalmente seria um problema…
Sim, mas mais do que isso: era uma questão de proteção. É um filme feminino e feminista.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção no seu filme (e talvez você possa confirmar) é que, sendo um filme feminino e feminista, praticamente todas as personagens masculinas não valem “um chavo”, como dizemos aqui no nosso português. Há uma cena muito subtil: a protagonista está a desenhar e faz o desenho de um boto. E o boto, na tradição popular, é um ser mítico, um homem sedutor que encanta as meninas e as leva consigo.
O filme tem muitas entrelinhas, é daqueles que se pode ver várias vezes e, a cada nova visualização, descobrir algo diferente. Nada está ali por acaso, foi tudo muito pensado. O desenho do boto é muito significativo, porque a sua lenda funciona, naquela região, como uma forma de encobrir a violência contra meninas e mulheres, quase sempre abusadas pelos próprios familiares. Quando surge uma gravidez, a explicação é: “foi o boto”.
Segundo a lenda, o boto sai do rio à noite, transforma-se num homem bonito, vestido de branco e com chapéu, seduz a mulher e dela nasce um filho. Nunca é descrito como uma relação violenta, mas sim como um encantamento. Essa narrativa serve para justificar, de maneira simbólica, abusos reais.
No filme, o desenho é uma pista, uma forma da menina dizer, inconscientemente, que está a ser abusada. As crianças, através do desenho, revelam muito do que vivem. Esse momento é um testamento silencioso, e, para mim, extremamente simbólico.
Há uma (outra) cena muito interessante no seu filme, é quando elas se juntam para ver uma novela da Globo naquele café / bar / mercearia. Arrisco-me a dizer que era “Avenida Brasil”, seguindo a minha limitada enciclopédia de telenovelas brasileiras … [risos]
É, sim, “Avenida Brasil”. [Risos]
Tinha a sensação que era. Elas ficam todas excitadas ao ver a cena do beijo com o Cauã Reymond, que afinal não acontece por motivos técnicos. A pergunta pode ser um pouco abstrata, mas acredito que um dos primeiros contactos com a sexualidade, ou a representação de uma, na sociedade ultra-sexualizada como a brasileira é através das novelas. Ou seja, as novelas já funcionaram como uma porta de entrada para esse universo, inclusive a da “adultização”.
Concordo. Mas, especificamente nessa cena, o que me interessava era mostrar um momento de inocência. Pelo diálogo e pelas reações, percebemos que elas ainda são crianças, animadas com aquele suspense romântico - “vai beijar, não vai beijar?”- é uma excitação muito infantil.
Depois, há outro momento importante: quando a Marciele vai ao bar com a amiga, logo após ter sido abusada pela primeira vez. A amiga leva-a para tentar ajudá-la a lidar com aquilo, essa é uma cena que sempre me emocionou, tanto a escrever como a montar, porque marca a transição dela. É o único momento no filme em que a vemos brincar e, logo em seguida, dar um passo para a adolescência. Há ali uma troca de olhares com um rapaz, “um jogo de paquera”, e ela vive, por um instante, o que seria uma adolescência normal de uma menina de 13 ou 14 anos.
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Manas
Curiosamente, a minha interpretação dessa cena no bar foi a de que ela estava quase a dar o passo para aceitação da situação que lhe tinha acontecido, mas, depois, tem aquela recaída: vomita, vai à casa de banho e vê uma mulher enfrentar o seu agressor. É nesse momento que percebe que não vai aceitar aquilo, mas sim rejeitá-lo.
Exatamente! Esse é um ponto fundamental: é a primeira vez que a Marciele vê uma mulher dizer “NÃO” a um homem. Aquela mulher que sai do banheiro com um canivete no pescoço mostra-lhe, pela primeira vez, uma resistência feminina. É um momento decisivo, ali algo começa a mudar dentro dela.
Neste momento, “Manas” está em digressão por Portugal, mas já estreou no ano passado. Está a preparar algo novo? Vai manter-se na ficção?
Gostei muito de fazer ficção, mas acredito que as histórias é que nos escolhem. Foi assim com “Manas” e com os meus outros projetos: cada história pede a sua forma de ser contada. Quero continuar a fazer ficção, fiquei fascinada em dirigir atores, mergulhar no processo de escrita e de construção narrativa. Mas, neste momento, ainda estou muito envolvida no lançamento de “Manas”. Estamos a iniciar no Brasil o nosso “circuito de impacto”: levar o filme às comunidades onde o cinema comercial não chega. Esta semana, enquanto estamos aqui em Portugal, o filme está a ser exibido no Marajó, junto com a irmã Enriqueta, acompanhado de debates e equipas de acolhimento para conversar com as mulheres.
Fiz este filme para que fosse também uma ferramenta de transformação e de consciencialização. Agora, no Brasil, estamos a circular por comunidades, a pautar mudanças nas políticas públicas, no judiciário e na sociedade civil.
Paralelamente, tenho lido bastante. Gostaria muito de adaptar um livro brasileiro, de preferência escrito por uma mulher. Continuo interessada na temática da violência contra a mulher, mas quero sentir qual história me atravessa e como ela pede para ser contada.
Então vai continuar a trabalhar a questão da violência?
Sim. Desde que comecei esta pesquisa, foi uma mudança de vida. Abriu os meus olhos, transformou-me profundamente.
Já que falámos da Gisèle Pelicot - um caso terrível de um homem acima de qualquer suspeita, companheiro de vida, com filhos e netos, que abusava de meninas, estuprava e ainda expunha a sua imagem - há algo que ela disse e que considero fundamental: a vergonha tem de mudar de lado. A vergonha não é nossa!
Ela foi muito corajosa ao sair a público e pedir que o julgamento acontecesse de forma aberta, justamente para alertar e inspirar outras mulheres a denunciarem os seus abusadores. Para mim, essa fala dela é crucial. A sociedade colou a culpa na mulher. Além de violentada, ela carrega a vergonha. Mas não: a vergonha é do abusador, do violentador e nunca da vítima.
Curioso, porque os seus filmes anteriores nada tinham a ver com isso. Aliás, fez um documentário sobre o seu tio-avô [“Francisco Brennand”, 2012].
Exato. Um documentário sobre o meu tio-avô, um artista plástico, onde me interessava sobretudo o processo criativo. Os outros filmes foram musicais, documentários musicais. Mas, mesmo neles, havia esse olhar de resgate: lançar luz sobre temas, histórias ou comunidades pouco reconhecidas.
O último documentário que produzi foi “Danado de Bom", sobre João Silva, o maior parceiro de Luiz Gonzaga. Depois da morte do Gonzaga [1989], ele caiu no ostracismo. Era o homem que produziu o primeiro milhão de cópias do Gonzaga, responsável por grandes sucessos, e ninguém sabia que ele existia. Fizemos o filme para resgatar e honrar a trajetória dele, que foi tão importante para a música brasileira.