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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Educar artisticamente ...

Hugo Gomes, 17.10.22

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"The 400 Blows" / Les Quatre Cents Coups (François Truffaut, 1959)

Há muitos anos que várias pessoas pedem uma maior comercialização das instituições artísticas, das quais se espera que sejam mais acessíveis. Mas a pergunta é até onde se pode baixar o limiar de acessibilidade, se as escolas já praticamente não ministram aulas de arte e a classe política não defende a importância da arte. Não se pode querer que mais gente vá aos museus ou que haja mais leitores, se o público não tiver tido ocasião de aprender a valorizar arte.

  • Joke J. Hermsen ("Melancolia em Tempos de Perturbação") 

Memórias & Cinema-animal

Hugo Gomes, 15.10.22

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Podemos acreditar, por momentos, que o cinema não pertence exclusivamente à Humanidade? Uma “lógica” impossível numa arte de registar e partilhar imagens (acima de histórias) visto como um gesto puramente humano, direcionado para humanos, portanto tal questão remete-nos para fora do circuito da racionalidade e aproxima-nos da fronteira do abstrato que ansiamos por anexar. 

Contudo, vejo em “Ultimate Bliss” uma contradição (e como gosto de contradições!), um relato sobre relações humanas (aqui Marisa, a voz no qual associamos, a remetente de uma carta de Miguel de Jesus [realizador], a odisseia aí descrita em tom de melancolia), porém, como se pode evidenciar nesta jornada, nem uma alma humana encontra-se presente visualmente. O Cinema que serve de cápsula para a sua história (meramente relatada) não lhe pertence, o selvagem apropriou-se dela, de plantas a fungos e por fim, animais, estes, as verdadeiras “estrelas”. 

O exotismo é uma oferenda de Jesus ao público, longe do turismo estético, não o sentimos como tal, porque o fascínio não está somente na diversidade de criaturas captadas neste seu universo (vemos wombats, diabos da Tasmânia, wallabies, cangurus e até mesmo koalas, fauna australiana, portanto) e sim na representatividade destas figuras que reconhecemos enquanto seres exóticos (e antípodas). Até porque esse exotismo possivelmente emanado é dissipado pelos grãos visuais - estes signos animalescos são convertidos a memórias ou integram a mesma matéria - cria-se familiaridade com este mesmo exotismo graças ao Super 8 que acompanha a jornada existencialista dos nossos “protagonistas” invisíveis. 

Portanto, “Ultimate Bliss” é uma história de homens e mulheres sem o seu selo de antropocentrismo, aqui somos devolvidos à Natureza que nos faculta a olhar para o nosso redor, mesmo tendo a consciência dos nossos fados, sem a mínima intenção de centrar-nos em relação ao Mundo. Um gesto sem egocentrismos … e mais uma contradição, tendo em conta (que segundo o próprio) nasceu de um reflexo intimista. 

Houve mais 'vida' para além de Hagrid

Hugo Gomes, 14.10.22

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Robbie Coltrane e Pierce Brosnan em "Goldeneye" (Martin Campbell, 1995)

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Caravaggio (Derek Jarman, 1986)

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Robbie Coltrane ao lado de Stephen Fry, Emma Thompson, Ben Elton e Siobhan Redmond, o elenco da série "Alfresco" (1983)

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Robbie Coltrane ao lado de Peter Richardson e Alex Rocco em "The Pope must Die" (Peter Richardson, 1991)

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Krull (Peter Yates, 1983)

 

Robbie Coltrane (1950 - 2022)

À 7ª edição, o Close-Up decide reunir a "Família". Arranca o Observatório de Cinema de Famalicão.

Hugo Gomes, 14.10.22

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Mamma Roma (Pier Paolo Pasolini, 1962)

Para muitos Cinema é somente ver “pictures on a screen”, parafraseando Hollywood, esse oásis do espectáculo, mas existem outros que deparam com estas imagens em grande ecrã em afetividades, emoções envolvidas e devolvidas para mais tarde serem partilhadas por quem compaixão nutre para com tais sensações e impressões. Chama-se cinefilia, o que não é menos que uma “Família”, improvisada, mas sustentada por essa paixão pela Sétima Arte. Família é também o novo estado do Close-Up, o Observatório de Cinema em Vila Nova de Famalicão (a decorrer na Casa de Artes a partir do dia 15 de outubro até 22 de outubro), a 7ª edição, ou como bem gostam de se apresentar, o 7º episódio desta iniciativa que tem magnetizando cinéfilos e cinefilias para a cidade.  

Como já é tradição, o primeiro dia será marcado pela espetacularidade envolvido em memórias de “fantasmas do Natal Passado”, neste novo episódio a tarefa cabe ao grupo musical Glockenwise (Nuno Rodrigues, Rafael Ferreira e Rui Fiúsa) para acompanhar “Melodie der Welt” (Walter Ruttmann, 1929), com isto esperando trazer até ao seu público toda a melodia que o Mundo contém. O Close-Up também nos convidará a regressar ao Gabinete do doutor Caligari (“Das Cabinet des Dr. Caligari”, Robert Wiene, 1920) através de um filme-concerto assinado por Haarvöl, e a fechar a edição com “Memorabilia”, de Jorge Quintela, desta feita com acompanhamento dos Miramar.  

A programação “passeará” por universos familiares da nossa cinefilia, de Paulo Rocha a Emir Kusturica, este primeiro representado pelo documentário de Samuel Barbosa [“A Távola de Rocha”] e o segundo pelo tão célebre “Black Cat, White Cat”, ou por Antonioni a Pasolini, bem representados com cópias restauradas na seção “Histórias de Cinema”, porém o grande destaque deste ano é o ciclo dedicada à documentarista Catarina Mourão, presente para conduzir uma masterclass, é uma oportunidade de conhecer e reconhecer a sua obra, uma reunião das suas primárias pegadas (“A Dama de Chandor”, 1998) ao seu mais recente trabalho (“Ana e Maurizio”, 2020).

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Vizinhos (Pedro Neves, 2022)

Sem esquecer da apresentação de dois livros sobre a nossa relação com o Cinema, seja pela sua História (“História do Cinema: Dos Primórdios ao Cinema Contemporâneo”, organizado pelo professor Nélson Araújo), seja pela sua pedagogia ("Hipótese de Cinema: Pequeno Tratado Sobre a Transmissão do Cinema dentro e fora da Escola” de Alain Bergala), e da estreia de “Vizinhos”, a nova curta-metragem de Pedro Neves (“Tarrafal”, “A Raposa da Deserta”), produzido pelo Teatro da Didascália e pela Red Desert, sobre a comunidade vivida no Edifício das Lameiras, a ser exibido na mesma sessão de “Black Cat, White Cat” de Emir Kusturica.

E é difícil o Close-Up falar sobre família e não demonstrar a sua. Como é habitual no Observatório de Cinema, todas as sessões são comentadas por diversos convidados, desde jornalistas a críticos, artistas e intelectuais, todos unidos para uma só tradição - celebrar o Cinema enquanto Família que somos.

Toda a programação poderá ser consultada aqui.

E quem toma conta da "babysitter"?

Hugo Gomes, 12.10.22

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Monia Chokri, novamente de humor sardónico, cronista, e negro como o bréu, nesta sua segunda demanda na realização, revela-se a um episódio em reluzente absurdo que engloba “masculinidade tóxica” e a “culpa masculina” em sociedades ocidentais. “Mais um!?”, pensaram muitos (e muitas digamos), porém, o enredo da atriz (bem reconhecida numa grande parte do cinema de Xavier Dolan) virada realizadora (e que mesmo assim faz aqui “perninha” na atuação), coloca-se nos dois campos das demandas de preservação feminina, ora “desmascarando” e desconstruindo masculinidades, ora ridicularizando a conscientizada apropriação desses remorsos. 

Três anos desde “La femme de mon frère” [primeira longa-metragem que abriu a Certain Regard de Cannes em 2019], Chokri usa “Babysitter” (baseado numa peça de Catherine Léger) como uma fantasia desvirtuada do seu conceito, a sexy e jovem ama (Nadia Tereszkiewicz, que contracenou, em Portugal, com Catarina Wallenstein no desastroso “Selvagem”, do veterano Dennis Berry), objeto desejável e de fácil consumação no universo pornografico é aqui a enzima solicitada para uma relação distanciada pela monotonia matrimonial, com os seus innuendos sexuais e do vislumbre da frecha que separa a fabulação do ordinário, “criatura” distorcida que cumplicita com a autora no alinhamento satírico e absurdista. 

A tal babysitter assume-se como totem para limiar as arestas desta “distopia”. Chokri aproveita-se do momento e deleita-se na crónica social sem nunca ceder a puritanismos, evidentemente esse feminismo alicerçado não mora aqui. Contudo, é um exercício estético, cínico, sublinha-se, que torna os seus alvos em meras caricaturas, perfeitamente afogadas nos pretensiosismos artísticos. Ou seja, há intenção, mas nunca a sua verdadeira emancipação.

No Inferno, a música é outra ...

Hugo Gomes, 11.10.22

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Save your breath … for screaming

Em tempos de reboots, reinvenções e atualizações, o terror e sobretudo os seus êxitos são subjugados à “tortura” dessas mesmas configurações, entre eles conta-se a mais recente “vitima”: “Hellraiser”. Uma remodelação do homónimo filme de culto de 1987, assinado pelo escritor Clive Barker (provavelmente o grande sucessor de H.P. Lovecraft no que revela a uma variação de um terror cósmico), conhece aqui uma nova roupagem em forma de compensá-lo dos anos a fio de fracassos e do aprisionamento na indústria low-budget e da distribuição limitada a home-vídeo, a realidade do qual as sequelas conheceram. 

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Contudo, o original mantém-se como um dos mais icónicos exemplares do género na década de 80, transfigurando o conceito slasher movie entretanto popularizada e banalizada, onde é salteado com aromas lovecraftianos e faustianos (nunca cedendo ao simples ato de “facaria”), e a juntar a isso um memorável monstro comumente apelidado de Pinhead (interpretado por Doug Bradley em 8 produções). Esta criatura, habitante entre o Inferno e o Purgatório (“Angels for some, demons for others”, diria em ‘87), proveniente de uma dimensão “algures” apenas alcançado após a conclusão de uma caixa-de-puzzle, a recompensa para quem o abrir “corretamente” e cuja sua invocação dará “asas” a negociações mefistofélicas, no limiar do prazer e da dor (esse reino diluído e sensorial). Vestido de cabedal, peça escolhida não ao acaso, visto que Barker idealizou trazer o sadomasoquismo ao público mais mainstream atribuindo-lhe uma causa exquisite e incompreendida, e de face picotada e apática (“Pain has a face. Allow me to show it to you", frase retirada da infame continuação de 1994 - "Bloodline" - a última presenteada com estreia em sala), Pinhead converteu-se num ícone, uma imagem reconhecível do terror norte-americano, diversas vezes evocado, parodiado ou até mesmo referenciado (recordar aquela anomalidade "faz-de-conta" em "Cabin in the Woods" de Drew Goddard) até ser finalmente enfraquecido por exaustão. 

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O medo desvaneceu, e a saga arrastou-se por produções desinspiradas ("Deader" e "Hellworld" bateram fundo na estância "canónica" [as aspas representam a continuidade incoerente que o franchise atingiu]) e algumas tentativas de reboot a roçar o amadorismo ("Revelations" e "Judgment" , em 2011 e 2018 respetivamente). Até Doug Bradley desinteressou-se pela personagem  (salientamos que Pinhead foi, e talvez seja, o ponto mais alto da sua carreira), solicitado cada vez mais aos produtores para que colocassem um fim à sua angústia. Como tal, não teve problemas em dispensar a "máscara de agulhas" e "abençoando" a atriz transgénero Jamie Clayton (da série “Sense 8”) como sua herdeira. Sem Clive Barker na direção (aliás, afastado desse cargo desde a infeliz experiência em "Nightbreed", esse hipotético épico de terror que curiosamente contava com David Cronenberg como antagonista), mas com David Bruckner, que agraciado desde “The Night House” (2020) tentaria quebrar a maldição de um franchise para lá de morto. O resultado não é totalmente bem-sucedido, digamos, até porque uma das malfeitas que persegue o "legado" não conseguiu ser revertida … sim, refiro à ausência de estreia em sala. 

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Ou seja, este novo “Hellraiser” é um produto pensado em integrar o catálogo de uma plataforma de streaming (neste caso a Hulu, com, curiosamente, ligações à Disney), dando a entender o de ainda existir preconceito em tentar devolver o grande ecrã à franquia, sendo assim, Bruckner não desejou fidelidade à saga que introduziu Pinhead ao mundo, antes disso teve como intenção reproduzir a anterior ambiência imposta por Clive Barker nos originais escritos “The Hellbound Heart” (o livro que deu luz ao filme de 1987). Portanto, gerando uma fábula gótica, sem invocações bondages nem sadomasoquistas, alinhado aos conceitos dantescos e, como havia mencionado, aos elementos faustianos que assumem controlo total. 

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Sugestões que fortalecem as aparentes fragilidades deste “Hellraiser”, que vão desde o seu arranque narrativamente preguiçoso (personagens “quebradas” e investigações domésticas como manda a “sapatilha”), até á amenização da violência gráfica (o “gore” imaginativo de ‘87 não verga mais vigas nesta realidade simbioticamente tecnológica). O argumento, não sendo de todo imaginativo, limita-se, maioritariamente, a um só espaço (o que também favorece a sua atmosfera com algum afinco), ostentando uma simplicidade, o que por sua vez nos leva a aproximar destas destas personagens [as humanas, é claro] e conceder-nos um senso de consequência preciso à “moral” deste "círculo infernal”. Bruckner consegue, antes de mais, um competente trabalho em nunca sombrear, nem “escravizar” a sua reimaginação em relação ao legado, sendo que os ditos “easter eggs” (parte fundamental da indústria atual) são calculadamente posicionados. Entre esses brindes, o mais notório, é a compostura musical de Ben Lovett, que repesca os temas de Christopher Young ("I hear bells"), e os insere de forma certeira e não exaustiva (por vezes menos é mais, e “Hellraiser” necessita ser um introvertido nesse sentido, enquanto precisa de abraçar o exagero do seu "body horror”).

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Quanto a esses “exageros do horror corporal”, sentimos que o filme de David Bruckner poderia (e deveria) ir mais longe no conceito. Por vezes, os "nossos" desejos mórbidos são apenas fetichismos de natureza duvidosa e sádica, para mais num filme que aposta uma detalhada estética na composição dos seus “monstros”, fertilizante para pesadelos, e como "estrela", um(a) apático e draculesco Pinhead a inspirar vilanias à lá Bela Lugosi (acreditamos ouvir - “Listen to them. Children of the night. What music they make.” - ao invés da pregação aos condenados - “And what it'd feel like? A joyful note? Without change, without end? Heaven? There's no music in that.”). Hellraiser” poderá não ser terror para nos “quebrar a alma” (os conhecedores da saga entenderão a referência), mas há nele um apetite excêntrico em criar uma mitologia própria. E acreditem, isso vale bastante a esta altura do campeonato.

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20 Anos de Doclisboa: a Galeria Digital

Hugo Gomes, 08.10.22

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Para comemorar os seus 20 anos, o Doclisboa preparou-nos uma Galeria Digital de videos de 20 segundos, com contribuições de autores e artistas como Valérie Massadian, Avi Mograbi, Edgar Pêra, Teresa Villaverde, Regina Guimarães, Renata Sancho, João Pedro Rodrigues, James Benning, Pedro Florêncio, Karen Akerman, João Mário Grilo, Jorge Pelicano, entre outros.

Para visitar aqui.