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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Arquiteturas do olhar

Hugo Gomes, 27.11.21

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The French Dispatch (Wes Anderson, 2021)

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The House on Trubnaya Square / Dom na Trubnoy (Boris Barnet, 1928)

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Manhattan (Woody Allen, 1979)

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My Uncle / Mon Oncle (Jacques Tati, 1958)

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Rear Window (Alfred Hitchcock, 1954)

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Strike / Stachka (Sergei M. Eisenstein, 1925)

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WR: Mysteries of the Organism (Dusan Makavejev, 1971)

The Card Counter: Uma mão cheia de manias, rotinas e "cinema confortável"

Hugo Gomes, 16.11.21

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Em 2017, surpreendido, defendi contra as muitas vozes opostas à genialidade de “First Reformed”. Na altura entreguei o peito às balas como garantia de apreciação a uma atípica obra de um argumentista que constantemente tenta-se demonstrar como cineasta que cujo resultado tem sido uma acumulação com projetos imprecisos (uns mais interessantes que outros, é um facto). Após esse “sucesso”, chamemo-lo assim ao fenómeno que virou este ateu num crente epifânico, Paul Schrader recorre à sua vencedora fórmula com este “The Card Counter”, uma evidente citação e recitação do cinema com que ama e porventura ousa em invocar, é uma “mão segura” ao invés de uma arriscada aposta. Perante tal recolhi-me à minha própria angústia e inicio uma autoflagelação enquanto castigo de purificação dos pecados que cometi (diria à ingenuidade de ter acreditado na sua capacidade de seguir na frente de outras linguagens, formas e abordagens neste meio), Schrader voltou ao seu anterior estado, à construção somente envolto de filmes alicerçado à sua noção de “confortável”, piscando, friamente, os olhos à cinefilia (que partilha com outros) com confiante mimetização. Em parte é “mais do mesmo”, a reconstrução do “Taxi Driver” por vias de equações e somas de diferentes partes como o “blackjack”, esse jogo que o protagonista (Oscar Isaac sobressai nisto tudo com um homem arrastado nas suas criadas profundezas) é rei, “baseado em eventos dependentes, o qual um passado significativo afeta as probabilidades do futuro”. Ou seja, andamos em círculos na criatividade de Schrader, que tinha boas probabilidades de sair-se Grande.

"Spencer": a princesa que sonhava com o real

Hugo Gomes, 07.11.21

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Seja numa mesa de bilhar ou nos jardins meticulosos nos arredores da casa de campo [Sandringham House], uma obsessão simétrica kubrickiana é emanada ao serviço de uma atmosfera claustrofóbica e delirantemente impressionista (num acompanhamento de um improvisado jazz sem deriva alguma de Jonny Greenwood). Sendo assim, é pela estética, essa preocupação que transforma e coloca “Spencer” acima de 80% da definição generalizada de “biopic”.

Decorrido em vésperas natalícias, assim como as comemorações propriamente ditas, a segunda incursão da trilogia das cinebiografias projetadas pelo chileno Pablo Larraín é uma introspeção e análise à figura de Diana Frances Spencer, ao invés da esquematização da sua passageira vida (que como sabem tragicamente terminada antes do tempo). Curiosamente o filme não se lança na descoberta da personalidade para alheios, e sim pela autodescoberta desta mulher por ela própria, um conjunto de neuroses e dúvidas existenciais de um membro acidentado da Família Real e da instituição que tal representa. Kristen Stewart não se esconde em mímicas, não a vemos como um reflexo espelhado da Princesa de Gales, mas na emancipação de uma figura esperadamente rígida do seu meio, o naturalismo da atriz confronta com as idiossincrasias impostas pelo alienado ambiente da realeza.

Depois da “boneca” da realeza americana em “Jackie” (2016), com Natalie Portman a interpretar a Primeira Dama Jacqueline Kennedy no desfecho das suas funções, chega-nos esta Mrs. Dalloway em versão Coroa Britânica, cuja aventura dramática permanece escondida no olhar sofrido ou dos gestos calculados de Stewart enquanto Diana, das pérolas que a sufocam e os fantasmas que a visitam constantemente, desafiando-a no limiar da sua sanidade. “Spencer” sonha ser a moldura perfeita à “mulher mais amada”, porém, o argumento de Steven Knight não esconde a sua condescendência para com o bovarismo de Diana, e mesmo sendo nós arrastados para esse universo de autocomplacência, não é descabido sentir-nos enganados pelos seus garantidos privilégios. Mas a princesa do povo apenas desejava prazeres mundanos, nada mais, a diferença é que se fez um retrato estilizado sobre essas evasões.

Nada é eterno aqui ...

Hugo Gomes, 02.11.21

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Declarações de amor eterno (ou diríamos antes intemporais) às portas do armagedão tornam "Eternals" uma porção do nosso próprio veneno. Se por um lado pedíamos à Marvel/Disney uma reformulação da sua formula, eis que nos entrega um pastelão malickiano que não deixa assim de percorrer os mais variados lugares-comuns e ainda pretende ser uma reflexão à nossa mortalidade. Falhada produções de milhões com Chloé Zhao convidada por engano.

"Dune": tudo pelo espectáculo e nada contra o espectáculo

Hugo Gomes, 01.11.21

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Afirmar que “Dune” de Denis Villeneuve é um deserto, não se comporta propriamente neste caso como um elogio tendo em conta o seu árido cenário. Bem verdade é que “Dune” é de um cinema seco, homogéneo correspondendo às suas noção generalizadas de espetáculo cinematográfico, e é pena que, mesmo não tendo uma personalidade definida, um realizador capaz e positivamente presunçoso visualmente tenha cedido à labiríntica inexistência. 

A minha cisão com o Villeneuve aconteceu com a sanduíche visual de Arrival”, o que poderia ser um interessante tratado à nossa comunicação e a nossa perspetiva do mundo através da linguagem já por si foi vendida ao artifício malickiano (Max Richter tocou e tocou) de uma definição infantilizada de esoterismo americanizado. Depois seguiu-se  “Blade Runner 2049”, o sacrilégio (para muitos) de uma sequela tardia que se envergava num passivismo para com a matéria-prima. “Saltitando” de ficção científica para ficção científica, chegou-se agora ao culto literário de Frank Herbert, naquela que à partida foi a mais satisfatória adaptação do inadaptável “Duna”, segundo fãs, até ao momento. 

Não é por menos que assim seja, “Dune” é demasiado preso à literalidade do seu texto, e não é preciso ler uma página sequer para perceber essa relação. O entulho amontoa para adiar e adiar clímaxes ou conter eventuais devaneios criativos (a "falhada" obra de David Lynch tinha esse ponto a seu favor, inventar e reinventar). Mas a culpa não é totalmente de Villeneuve - em sentido objetivo há competência nesse seu gesto, o encontro do épico que faltava, e por sua vez, o épico forçado, de fulgor exigido pela sonoridade pompeante de Hans Zimmer e a promessa de um segundo tomo em cima de projeções de trilogia - a culpa (essa que não morre solteira) é das audiências, cada vez mais sedentas pela continuidade forçada (ora MCU, ora as séries que deparam na sua grandiosa idade) e pelo realismo, seja a representação aproximada, em oposição ao artificialismo. 

É certo que toda a campanha para colocar “Dune” no seu habitat natural, a da grande tela ao invés dos ecrãs promovidos pelo streaming e afins, é um ato louvável na crença do cinema enquanto espaço de comunhão e apreciação de espetáculos, e em comparação com outros “Salvadores da Pátria” puramente tecnológicos (recordo “Godzilla Vs Kong”, por exemplo) notamos uma prática ao encontro dessa idealização de cinema para massas.