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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Uma Víuva (nada) Alegre!

Hugo Gomes, 30.06.21

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Num momento em que os fãs estão enviuvados da personagem Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), que tal mal tratada foi durante este longo franchise, ‘cai-nos’ uma aventura-a-solo meio caricatural (russos e mais os associados estereótipos pregados em Hollywood) meio negra (aliás o mais sombrio desta indústria disnesca) da tardia emancipação desta “action woman”. “Black Widow” entrega-nos aquilo que nos foi prometido e ainda deposita-nos alguma esperança quanto à linha de montagem criada pela Marvel Studios. Não vos vou mentir, possivelmente é dos melhores capítulos deste universo partilhado, o mais independente quanto à forçada continuidade, o mais solido no seu enredo e acima de tudo, a mais concebida heroína deste mesmo universo. Depois há a versátil Florence Pugh e o seu sarcasmo semi-adolescente e aquilo que considero, automaticamente, das melhores ‘coisas’ que vi nesta marvelesca saga (que já dura 13 anos) … um arrepiante e energético genérico ao som de Smell Like Teen Spirit …. Obrigado Cate Shortland!

O Movimento das Coisas: requisição a Caronte para um Paraíso Perdido

Hugo Gomes, 23.06.21

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Na mitologia grega, mais tarde metamorfoseada no imaginário de Dante Alighieri, Caronte oferecia boleia às almas perdidas na sua barca, para que estas atravessassem o rio Estige ao encontro do círculo do Inferno que mais condizia. Em oposição, somos em “O Movimento das Coisas” levados, em travessia pelo Rio Lima, a um território mais térreo ainda povoado por mortais. A neblina adensa-se nas suas beiras, não augurando regressos sebastianos, e sim, vindas do mundo do amanhã, desta forma vendido, com promessas de progresso e prosperidade, nunca instalando, e sim substituindo o quotidiano anterior.

O Movimento das Coisas”, a única realização de Manuela Serra, anteriormente tida como assistente de Rui Simões no “Bom Povo Português” (1981), chegou ao nosso circuito comercial após uma ausência de 36 anos, nesse período, acumulado prémios e menções em festivais, preencheu o imaginário de muitos cinéfilos e futuros cineastas portugueses, alimentando um fascínio deste mesmo cinema pela nossa ruralidade. O que levou Serra a abandonar o meio e romper radicalmente com o cinema na sua vida é ainda discutível, as entrevistas que tem dado à imprensa apontam desde “forças políticas” até a um “mundo imperativamente governado por homens”, passado pelo simples “desinteresse”. Por qual tenha sido o motivo, este foi definitivamente o filme que Portugal, obscuramente, nunca esqueceu, e os seus aficionados falam por si.

Antes de “O Movimento das Coisas”, o meio rural já mantinha ligação com o nosso cinema, encontrando marco estratégico nas aventuras de António Reis e Margarida Cordeiro pelos Trás-os-Montes (o filme data o ano 1976) (e porque não a raridade hoje preservada por Manoel de Oliveira em o “Acto da Primavera” em 1963, e por aí adiante, exemplos são muitos). Mas o que Manuela Serra realmente captou na aldeia de Lanheses (perto de Viana do Castelo) foi a urgência de filmar e registar um quotidiano ameaçado pelo avanço da indústria furtiva (nesta cópia restaurada tal é realçado através da inserção de um novo plano final, o ponto final necessário para a transmissão da sua mensagem). O que conseguiu (passados quase quatro décadas e sob um novo olhar confirma-se tal) foi o efeito de “cápsula do tempo”, uma montra de trabalhos de campo, desfolhadas festivas, dedicações religiosa e os seus ditos rituais centenários, e a modéstia de quem tudo faz / fez para manter estes temas vivos (pelo menos durante o seu prazo de validade), nomeadamente as mulheres, forças hercúleas no dia-a-dia.

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Porém, não posso deixar de notar a capacidade de Serra em conjugar esse prisma num riquíssimo e dialogado esforço de montagem, em cumplicidade com uma planificação pormenorizada, digo isto, tendo em conta o legado criado por estas ‘Coisas’, hoje abundante em inúmeros festivais portugueses, onde nota-se sobretudo uma condescendência, não apenas para com os habitantes dos povoados escolhidos, mas para com o material e a forma como este se manifestará em filme. São poucos os que ainda preservam essa veia cinematográfica na ruralidade, ao invés de ceder ao facilitismo formal, diversas vezes elogiado por elites de pensamento crítico cinematográfico. E é por isto, e não só, que “O Movimento das Coisas” é um filme crucial na nossa História, um modelo ora acidentado, ora poetizado sem bucolismos latentes.

Afirmo sem receio de apedrejamentos, que duvido, até à data, que haja mais belo filme sobre o campo que este filho único de Serra. Tão único como a porcelana pintada à mão do qual a anciã consome a sua “sopa tinta improvisada”.

 

Em anexo, a minha entrevista com a realizadora aqui.

F9: com velocidade e fúria, Hollywood não deixa os seus êxitos para trás

Hugo Gomes, 16.06.21

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Justin Lin, o homem que salvou o franchise e que nele transformou um êxito global (afastando-o do nicho do tunning), está de volta ao volante num nono filme que compete pela imaginação e do ridículo dos capítulos anteriores. Neste mundo, intitulado de “Velocidade Furiosa”, a morte é ‘coisa’ que ultrapassa, a família é escadaria divina e os mais ‘broncos’ são todos, sem exceção, convertidos a superespiões, em busca do enésimo macguffin cataclástico. É fórmula vencedora, sem dúvida, mas esta altura da “corrida” até os mais fiéis sentem-se presos à pista circular. Nada avança, curvas e contracurvas são que nos realmente espera, para que no final - à sua boa maneira - celebrar os feitos de 2h25 com um churrasco, Coronas frescas e a beatice que nos valha (são os banquetes de Asterix replicados na lente da Hollywood egocêntrica e sem meios para os gastos). É um filme de Cannes, por isso deixa ser, mas é também o memorando de que o espetáculo à lá Hollywood não morrerá tão facilmente.

PS: se é para persistir na Charlize Theron como a repetente vilã, não me importo de assinar o certificado de aprovação.

A menina das sete saias e o Adónis nazareno

Hugo Gomes, 11.06.21

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Mesmo aprovado pelas entidades reguladoras da altura, o filme de José Leitão de Barros – “Maria do Mar” (1930) – ostenta um fascínio quase “exótico” e peculiar pela comunidade piscatória de Nazaré (docuficção que se distanciaria do seu anterior documentário “Nazaré, Praia de Pescadores”, em 1929).

Entre esses momentos, está a sequência paralela, onde mulheres decidem regozijar na praia e os homens, jovens, a mesma ideia colocam em prática. Aqui, a câmara de Leitão de Barros demonstra uma desigualdade no olhar. As jovens, limitadas aos seus largos e amorfos fatos de banhos, são despachados por visuais indiferentes e alguma rudeza para com os seus “brutos” movimentos, constata-se uma fria distância, até quando uma delas, a Maria do título, deixa escapar um mamilo por uns breves segundos. Já os homens, a câmara repousa ao lado destes, cumpliciando com as suas brincadeiras e júbilos prazerosos, os corpos “adónicos” dos jovens pescadores são observados atentamente por este, e automaticamente pelo espectador, refém dos planos que o filme entende por nos oferecer.

Sucessivamente, os dois grupos aparentemente distantes se unem por consequência de um afogamento, a bela Maria (Rosa María) é levada pela corrente marítima e Manuel (Oliveira Martins), o nosso salvador de última hora, a resgata da fúria do mar que “devorou” os seus respetivos pais. Depois disto, o momento orgástico do filme, Maria inconsciente, deitada no húmido areal e Manuel exausto, cedendo também ele à inconsciência. Leitão de Barros executa tal sequência, sempre concentrado no tronco nu do jovem e na sua cadente respiração ofegante.

Curiosamente, em 1930, seja por razões subentendidas ou pelo constante receio da erotização do corpo feminino (o tradicionalismo e conservadorismo patriarcal tiveram como alvo principal a mulher e a sua emanada sexualidade), “Maria do Mar” procura a sensualidade em outros campos e formatos. Por outro lado, a perspetiva quase antropológica do filme reflete esse vindouro desejo ocidental pelo exotismo, obviamente encontrado como alternativa a ruralidade nazarena, encantos que seduziram o realizador de “Lisboa, Crónica Anedótica de uma Capital” (1930). E é bem verdade, que desse efeito já “sofria” o proclamado “pai do documentário”, Robert Flaherty, em “Moana” (1926), só que os paraísos eram obviamente outros.

Cada um com a sua infância, cada um com o seu Cinema

Hugo Gomes, 01.06.21

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Good Morning (Yasujiro Ozu, 1959)

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The Childhood of a Leader (Brady Corbet, 2015)

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Capernaum (Nadine Labaki, 2018)

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Wadjda (Haifaa Al-Mansour, 2012)

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Home Alone (Chris Columbus, 1990)

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The White Ribbon (Michael Haneke, 2009)

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Let the Right One in (Thomas Alfredson, 2008)

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Little Fugitive (Ray Ashley & Morris Engel, 1953)

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The Florida Project (Sean Baker, 2017)

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The Sixth Sense (M. Night Shyamalan, 1999)

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The 400 Blows / Les Quatre Cents Coups (François Truffaut, 1959)

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The Kid (Charles Chaplin, 1921)

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The Last Emperor (Bernardo Bertolucci, 1987)

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Zero to Conduite / Zéro de conduite: Jeunes diables au collège (Jean Vigo, 1933)

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Bicycle Thieves / Ladri di Biciclette (Vittorio di Sica, 1948)

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Village of the Damned (John Carpenter, 1995)

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My Life as a Zucchini / Ma vie de Courgette (Claude Barras, 2016)

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The Boy with Green Hair (Joseph Losey, 1948)

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Aniki Bóbó (Manoel de Oliveira, 1942)

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The Shining (Stanley Kubrick, 1980)

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Cinema Paradiso / Nuovo Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988)

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Come and See (Elem Klimov, 1985)

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Pather Panchali (Satyajit Ray, 1955)

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E.T. the Extra-Terrestrial (Steven Spielberg, 1982)

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André Valente (Catarina Ruivo, 2004)

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Ivan's Childhood (Andrei Tarkovsky, 1962)

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Nana (Valérie Massadian, 2011)

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Pixote, a Lei do Mais Fraco (Hector Babenco, 1981)

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Poltergeist (Tobe Hooper, 1982)

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800 Balas (Álex de la Iglésia, 2002)