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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Ariel de Bigault e os exorcistas dos fantasmas do nosso passado colonialista

Hugo Gomes, 31.05.21

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João Botelho

No seio do turbilhão social em que deparamos – o debate constante sobre a nossa história colonialista, e o que realmente devemos fazer com ela – tem suscitado uma evidente polarização, com alguns faíscas politizadas pelo meio. Porém, nunca saído do Cabo das Tormentas, estreia nos nossos cinemas o filme “Fantasmas do Império”, um documentário que explora este nosso percurso pelo desenvolvimento e transfiguração do olhar colonial, apresentando um conjunto de obras portuguesas que vão desde as propagandas do Estado Novo até às ficções antes e depois do 25 de Abril. Uma costura gerada pela investigação e dedicação de Ariel de Bigault, documentarista francesa radicada em Portugal com um interesse tremendo em África e nas questões raciais que germinaram daí.

O seu trabalho revela-se num confronto de imagens com os seus, possíveis, criadores. Muitos filmes são visualizados e comentados pelos próprios realizadores, atores ou figuras-chaves do nosso entendimento audiovisual e cinematográfico. Com isto para sublinhar que Bigault não comenta, nem interpreta estas mesmas imagens e ditos-e-feitos no seu trabalho. Segundo ela, os filmes reunidos são o que basta como expressão sua, “corto, manípulo, crio com isso um diálogo através da forma e das imagens (…) quero deixar o espectador viajar e querer pensar um pouco sobre o filme.

Muito trabalhoso foi o filme, ao mesmo tempo muito interessante para mim porque era importante ser honesta. Ser honesta com o quê? Com o propósito do filme. O propósito do filme não é declarar que o português foi ‘mau’, porque ao dizer isso é sinal que não avançamos nem um bocadinho. Aliás, é quase um mainstream dizer isso. O propósito aqui é ‘ouvir’ as imagens trazidas pelo ex-colonialismo e o pós-colonialismo. O que elas têm a dizer sobre a relação de Portugal com estes países. Como se pode verificar no filme há uma evolução a nível da linguagem imagética.” referiu a realizadora que posteriormente lamenta sobre a falta de um tema essencial na nossa cinematografia “Não há nada sobre a escravatura. Temos quatro séculos de escravatura e até há data não existe nenhum cineasta que tenha pegado nisso. Os brasileiros, por exemplo, souberam retratar na sua filmografia e existem muitos filmes de lá sobre esse tema. Isso, porque a escravatura é constitutiva no Brasil, da mesma forma que o tráfico de escravos faz parte de Portugal.

Contudo, desatracamos do porto, Ariel de Bigault aborda a génese destes fantasmas: “fiz quatro filmes no Brasil, todos eles sobre a questão racial, porque toda a minha experiência lá foi um choque para mim. Convivia com negros e o facto de ser uma branca no meio deles fez com que lidasse com várias situações de racismo.” Este acumular de contactos com tais sentimentos reprimidos mas exprimidos de maneira violenta, foram suficientes para motivar a realizadora a regressar a Portugal para concretizar um filme sobre “o espaço dos atores negros no cinema português”, mas ao perceber que “praticamente, não tinham espaço algum” o projeto transfigurou-se. “Nesse processo descobri o arquivo colonial do ANIM [Arquivo Nacional da Imagem em Movimento] um interesse crescente no trabalho da Maria do Carmo Piçarra.” acrescentando também que na conceção desta metragem pôs “de lado muito do cinema etnográfico, porque pretendia demonstrar uma ideologia, um olhar já construído, aliás um olhar de Cinema.

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Fantasmas do Império” inicia-se com as jornadas epopeicas (é desta forma que são descritas pelo autor das mesmas) de Fernão Mendes Pinto, adaptadas para a grande tela por João Botelho, realizador que fez questão através deste debruçar numa das grandes obras literárias de Portugal de realçar uma dicotomia na imagem do navegador. “Peregrinação” (2017), para quem desconhece, exibe Fernão Mendes Pinto como um apaixonado explorador encantado pelas prometedoras maravilhas do Oriente e ao mesmo tempo um cruel pirata e saqueador. Para Ariel de Bigault, era importante a sua obra começar com este preciso filme, não só pela tal ambiguidade que opõe à imagem glorificadora da chamada e discutida “Era dos Descobrimentos” (uma ideia sobressaída durante o Estado Novo), mas também pela dita cegueira pelo Oriente.

O grande sonho dos navegadores portugueses era, de facto, o Oriente. A África era insignificante, só começando a ter valor unicamente para Portugal graças ao tráfico de escravos a partir do século XVI. Esse era o único interesse, não havia vontade alguma de explorar a África. Simplesmente, o objetivo era o Oriente. África, essa, ficava no meio da passagem.

A coleção de Ariel de Bigault é de facto impressionante, passando pelos filmes de António Lopes Ribeiro, mais concretamente propagandas, passando por comédias localizadas como “Zé do Burro” (1972), de Eurico Ferreira, ou o bélico de impulso nacionalista “Chaimite” (1952), de Jorge Brum do Canto, ou o banido “Deixa-me ao menos Subir às Palmeiras” de Lopes Barbosa (“filme que reapareceu em 2015”), o ainda algo desprezado “Acto dos Feitos da Guiné” (1980), de Fernando Matos Silva e as derrota colecionadas por Manoel de Oliveira em “‘Non’, ou Vã Glória de Mandar”. Quanto às obras recentes (“todos os filmes pós-colonialistas são bem diferentes a denunciar o colonialismo”), para além da mencionada odisseia de Fernão Mendes Pinto – “Peregrinação” – conta-se ainda o incontornável “Tabu” (2012), de Miguel Gomes (que recusou o convite de participar no contínuo debate proposto pelo filme), o muito discutido “Posto Avançado do Progresso” (2016), de Hugo Vieira da Silva, “As Cartas da Guerra” (2016), de Ivo M. Ferreira, e a obra de Margarida Cardoso o qual é toda ela focalizada em Moçambique.

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Orlando Sérgio e Maria do Carmo Piçarra

A realizadora confessou a falta de algumas obras, entre as quais o muito recente “Mosquito” (2020), de João Nuno Pinto, cuja ausência apenas derivou da indisponibilidade de Ariel de Bigault em visualizar o filme. Para os menos atentos, a longa-metragem produzida por Paulo Branco estreou uma semana antes do primeiro confinamento pandémico.

De Botelho a Vieira da Silva, de Cardoso a Carmo Piçarra, e com participação especial de Matos Silva, Lopes Barbosa e os atores Ângelo Torres e Orlando Sérgio, todos contribuíram para esta iniciativa de entendimento com estas imagens e com este anexado olhar, mas a pertinência integrou a intervenção de José Manuel Costa, diretor da Cinemateca Portuguesa. A ele foi-lhe questionado sobre a pertença destes registos e memórias, mantendo-se atualizado no aceso debate sobre a culpa colonialista. “José Manuel da Costa referiu que estas obras estão no ANIM, logo são património português, porém, tem a opinião de que devem ser partilhadas com os países colonizados. Mas há problemas com esses países independentes, muitos deles sem a devida capacidade de arquivo” remata a documentarista.

Silenciosamente, aprendendo com o Spielberg

Hugo Gomes, 27.05.21

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Mas o que ainda há para mostrar depois do primeiro "A Quiet Place"?

A questão aqui não é certamente o que se tem para mostrar, mas sim, como mostrar. A continuação do sucesso de 2018 é um filme que não inova a representação do seu pós-apocalipse. Possivelmente, não o deseja, preferindo trazer para primeiro plano a emoção enquanto espetáculo neste género de filmes. É fácil acabar com o Mundo... tarefa mais árdua é fazer com que o espectador se preocupe com isso. E é aí que entra John Krasinski, desta vez menos como ator e mais focado na sua posição de realizador.

Onde “A Quiet Place” era um filme de cerco, com monstruosidades pelo meio e uma proposta falível, mas esforçada (a de tentar, no meio de tanta e estridente banda sonora, elaborar um filme de silêncios), aqui interagimos com o que inicialmente parece ser uma sequela, sem surpresas e sem novidades, narrativamente em linha direta. Krasinski não elabora "twists" nem revelações de última hora, foca-se numa família (aliás, o que sobra dela) e a sua sobrevivência num ambiente hostil. E é nisso que o espetáculo dramático é aprimorado.Num terreno familiar, "A Quiet Place Part II" procura apresentar uma experiência do foro emocional, extraindo daí um suspense crescente e estabilizador, graças às opções de câmara, aos "jump scares" contínuos e, por fim, uma narrativa "salta-pocinhas" que deixa as audiências em plena intermitência.

A ação persiste em acompanhar estes peões da resistência do último bastião da Humanidade – a solidariedade -, nunca saindo destas perspetivas para apresentar sub-enredos "informativos". O espectador encontra-se em pé de igualdade com estas personagens e, apesar de alguns "saltos" específicos na ação, nunca nos separamos delas. É curioso encontrar em Krasinski essas qualidades um pouco perdidas nesta Hollywood tão tecnológica e dependente de marcos de cultura popular. Percebe-se que o nosso ator e realizador aprendeu este estilo de “storytelling” com um dos mais célebres da área, Steven Spielberg, hoje algo associado a um cinema datado.

Um herdeiro "spielbergiano"? Existem registos dessas qualidades (talvez legado, quem sabe?), mas antes que o exagero nos atinja ou seja apontando, a resposta é não. Não se encontra aqui o “know-how” digno de um “Jaws” (1975), tanto mais que as "criaturas" estão mais que presentes e vistosas, mas existe esta economia da representação apocalíptica e é essa a sua arma: a emoção colhida nesta variante de extermínio da raça humana. Ou seja, é avançar para um Spielberg trinta anos mais tarde, o de “War of the Worlds” (2005), onde a invasão alienígena era concentrada no prisma dramático de uma família só, persistindo nesse registo.

Voltando ao início, não basta erradicar o Mundo, há que criar nos espectadores empatia para essa causa. “A Quiet Place Part II”, sem inventar coisa alguma, aprendeu devidamente essa lição.

"Ninguém" e a beleza de matar russos

Hugo Gomes, 25.05.21

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Vindo da mente de Derek Kolstad, argumentista que tem-se tornado numa estrela colaboracionista desta chamada nova vaga de ação norte-americana alavancada pela saga “John Wick”, “Nobody” / “Ninguém” assume-se como um rafeiro desse mesmo universo, diríamos até que de um enredo para o outro, esta variação de pancada e tiroteio, não é mais que uma recitação de tal fórmula.

Portanto, a nível de guião estamos conversados, não há maravilhas criativas, apenas pontos de fuga para que a ação arranque e desenrole frente aos nossos olhos (novamente com o dinamismo pontuando desta fornalha de filmes, com sequências em plena confiança nos seus stunts, com rigor e desafios à lei da física e o mais característico ponto, os cortes como último recurso), porém, até mesmo nessa generalização este “Ninguém” poderia ser realmente um alguém. História, disso mesmo, de um zé-ninguém, impotente e aborrecido que no fundo é um treinado “soldado” no limiar da ebulição, e que após ter sido incentivado por uma sociedade insegura e movida pela violência, revela-se instintivamente na máquina de matar que sempre escondera.

Nestes prismas poderíamos contar com um embrião de “First Blood” / “Rambo: A Fúria do Herói” e os seus debatidos complexos de “combatente adormecido”, o veterano impedido de operar o seu “modus operandi” numa “reforma” que o abomina. O que fará a nossa sociedade com os homens e mulheres que treinamos para tais missões bélicas, excedendo os seus limites quanto à capacidade humana? São questões vencidas aqui, “Ninguém” não se interessa por elas, cede a um virtuoso lado camp, escapista e de divertimento sangrento para eliminar antagonistas russos (sim, mais um vez os russos!).

O realizador russo Ilya Naishuller (“Hardcore”) comanda um filme seguro (disso não há dúvida) no extermínio dos seus, e com o ator Bob Odenkirk (mais conhecido pela série “Better Call Saul”) no leme, a emprestar-se como um inesperado “action man”, distribuindo, para além de golpes mortais, as respostas mais “Frei Luís de Sousa” [peça de Almeida Garrett] do ano à interrogação de “Quem é você?”. Como bem sabemos, “Ninguém”.

Santo e Pecador

Hugo Gomes, 24.05.21

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Há muito que se tenta colar Jason Statham à memória de Charles Bronson, seja pelas reinvenções de velhos cultos do ator norte-americano (como “The Mechanic”, obra de 1972 que originou uma versão de tuta e meia em 2011) ou pela performance fragilizada no centro da ação, uma opção do britânico que, pouco a pouco, vem abandonando a onipresença frenética a que tem sido submetido em vários dos seus filmes.

Nesta visita ao velho amigo “bastardo”, com quem deu os primeiros passos no cinema há mais de 20 anos com “Lock, Stock and Two Smoking Barrels” (1998) e “Snatch – Porcos e Diamantes” (2000), o ator aproxima-se ainda mais da vingança de proporções bíblicas tão próxima de Bronson: “Wrath of Man” é esse ensaio de ação. E ainda que nada de frontalmente criativo pudesse nascer disto pois a história é “mais antiga do que o tempo”, nem por isso é obsoleta.

Além de Statham, com a sua rudeza familiarizada, a empenhar-se com o necessário rigor à sua personagem acinzentada (não precisamos de sentir empatia pela sua figura, mas pela sua causa), encontramos aqui um Guy Ritchie, “videoclippeiro” de base e propício ao subgénero que reúne comédia e violência num só “copo” conhecido por "gallows humours" britânico, que após anos e anos refém das produções "hollywoodescas" que o padronizaram e banalizaram a sua estética (“Sherlock Holmes”, “Rei Arthur: Legend of the Sword”, “Aladdin”), dedica-se aqui a um exibicionismo técnico e simultaneamente maduro e capaz.

Wrath of Man” tem tendência para ser demasiado embelezado e tático em comparação com o seu enredo, e sobretudo, a tentação obtusa de complicar o que não necessita ser complicado ("flashbacks" atrás de "flashbacks" em cima de uma narrativa com queda para "twists" atrás de "twists"). Mas fora essas essas intenções de exploração de filão, dedica-se de corpo e alma à sua "vendetta", zeloso quanto aos sentimentos de “justiça”. E perante essa ambição de tornar este ator “vulgar” numa hagiografia, Ritchie consegue, por momentos, atingir uma crença invulgar na sua personagem e no seu "pathos".

De certa forma, foram estas as pisadas de Charles Bronson durante o seu reinado cinematográfico, acreditar no seu próprio ativismo. Não só "de coração"... "fígado, pulmões, baço e coração"!

Cruela Cruel, é mais traçoeira do que uma cascavel ...

Hugo Gomes, 23.05.21

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É o “Joker da Disney”, a comparação que tem rendido publicidade garantida a esta “prequela” de uma das personagens mais célebres do universo Disney, “Cruella De Vil”, não é de todo um paralelismo descabido.

Recordamos que de Cruella muitas peles foram vestidas, a diabólica estilista que perseguia cachorrinhos começou com a voz de Betty Lou Gerson em “101 Dálmatas” (1961 [o filme que salvou o departamento de animação do estúdio da bancarrota]) e mais tarde “estrela” de uma adaptação live-action (1996, escrito por John Hughes) com Glenn Close a desempenhar tal entidade, agora deparando-se na posse de Emma Stone é igualmente um fruto da nossa sociedade e destes tempos fervorosos quanto a sentimentos de injustiça social, assim como o mencionado e comparado filme de Todd Phillips. E tal como “Joker”, transcreve tais pensamentos para a década de 70 (com alguns anacronismos à mistura, concebidos graças à ficção). A história de uma trágica órfã que planeia uma insaciável vingança na forma de um alter-ego anárquico (não é preciso mencionar o nome dessa figura), é claramente um filme, até à sua medula, com o selo Disney, logo, a representação do anti-herói é (sempre foi) um “bicho-de-sete-cabeças” para o estúdio.

Contudo, “Cruella” balança a sua malvadez [irreverência] e a bafienta tendência de conto de fadas “disnesco” (o trauma como catarse na criação do vilão, correntes libertadas desde o ineficiente “Maleficient”) sob um teor punk e porque não, popluxo (devemos salientar o guarda-roupa criado pela duplamente oscarizada Jenny Beaven [“Mad Max: Fury Road”, “A Room with a View”]), funcionando como um filme negro dentro dos parâmetros desta linha de montagem, mesmo com os seus constantes recuos de forma a consolidar a consciência da nossa contemporaneidade. Mas, onde “Cruella” realmente regozija, é na escolha de Emma Stone que se rende totalmente a esta “psique” com estilo e graciosidade necessária e a outra Emma (Thompson) a emprestar-se à caricatura de uma estilista odiosa à parte, um duo garantido em constante oposição, que sustenta este trabalho de Craig Gillespie (“Lars and the Real Girl”, “I, Tonya”) da esperada cedência da perfeita banalidade temática.

Contudo, talvez sejam estes ventos altamente polarizados e radicalizados que nos fazem olhar duas vezes para os vilões do nosso imaginário e encará-los como incompreendidos, e a Disney tem sido o centro disso com as revisitações à sua galeria de antagonistas. Será uma mudança das anteriores convenções maniqueístas? Conforme seja a resposta, definitivamente “Cruella” não as dará, porém, é possivelmente dos mais pensados e elaborados filmes que o estúdio Disney nos garantiu nos últimos anos.

Bruno Gagliasso, o surpreendente vilão de "Marighella": "Fiz a escória da História"

Hugo Gomes, 22.05.21

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Apresentado no Festival de Berlim de 2019, o filme “Marighella” revela como realizador o popular ator Wagner Moura, que aborda o ativismo e a morte de Carlos Marighella (vivido por Seu Jorge), um ex-deputado que se virou para a luta armada para libertar o Brasil de uma ditadura militar. Este período da história do país continua rodeado de grande controvérsia, não faltando quem defenda que não se tratou de uma ditadura e Marighella não foi um patriota.

Surpreendentemente, Bruno Gagliasso, mais conhecido como galã das telenovelas, surge como o inspetor Lúcio e o vilão desta história do passado que dialoga com o presente, particularmente o do Brasil presidido por Jair Bolsonaro.

Conversei com o ator sobre a personagem, a ambição de Wagner Moura e o Brasil que tanto ama mas o entristece. Um encontro onde que se falou principalmente sobre política, tal como apela o próprio filme.

Gostaria de começar pela sua inspiração. Mencionou no Festival de Berlim que o seu Lúcio baseou-se em Sérgio Paranhos Fleury, um infame agente da DOPs [Departamento de Ordem Política e Social].

Respondendo bem direto, não é uma referência a uma personagem e sim a um conjunto de personagens daquela época. Basta só ver quem Bolsonaro elogia para entendermos quais são as inspirações para esta personagem numa época tão difícil. É muito difícil que uma personagem tão odiosa, tão má e desumana, esteja tanto em destaque, basta apenas "espreitar" [a capital] Brasília e verificar tantos políticos em cargos públicos que soam como esta personagem. O filme em que participei é atual e não de época. Esta temática continua atual e é algo que ainda poderá voltar a acontecer.

Sim, um filme sobre uma personalidade passada, mas que dialoga com o nosso presente, isto é, com o Brasil atual.

Sem dúvida, é um filme de uma força muito grande, quase uma necessidade. Precisamos mais do que nunca que este filme seja visto e que bom que vai ser visto em Portugal, assim como nos EUA, Berlim, Cuba e, claro, também no Brasil.

Mas o que se passa com a estreia no seu país? O que está a impedi-la?

A pandemia. Aliás, a pandemia não está sequer a ser organizada de forma correta no Brasil. Isto é, quando não se tem um bom "administrador" [Jair Bolsonaro]…

Mas não havia um imbróglio qualquer com a distribuição?

Hoje não. "Marighella" não estreia por causa da pandemia. Era para ser lançado antes, mas houve essas tais questões burocráticas que o impediram de chegar aos cinemas... que sabemos bem quais são. Mas atualmente, é por conta da pandemia. [em setembro de 2019, a estreia em novembro foi cancelada pela produtora alegadamente por não ter conseguido cumprir "todos os trâmites" exigidos pela Agência Nacional de Cinema (Ancine); em janeiro, foi anunciada a nova data, 14 de maio, que também não se concretizou].

Reparei que o filme arranca com quase minuto e meio de produtoras, empresas e outros apoios. Sabendo que o cinema brasileiro está hoje não em modo resistência, mas de sobrevivência perante constantes cortes, boicotes e outros obstáculos, será esta reunião de forças capaz de contrariar... não sei se será a melhor palavra, mas este tipo de censura?

Acho que há várias formas de fazer censura hoje em dia, sem dúvida que essa é uma delas. Mas acredito que o cinema brasileiro é muito forte, bem unido, e este filme mostra isso. Essas forças não ganham [risos] e o tempo e a História são implacáveis. As posições políticas são muito fortes hoje no Brasil e têm consequências, mas somos atores, fazemos Arte e a Arte é fazer política. Quer posição maior do que essa? Tenho amigos que tiveram que sair do país. Logicamente que é muito difícil acontecer o que aconteceu naquele período, mas tudo está posicionado para voltarmos a isso.

Mas não existe um medo por parte dos atores em se posicionarem politicamente?

A minha posição é muito clara e ando com pessoas que têm posições muito claras. Talvez não sinta isso, porque acredito que todos nós devemos tomar uma posição, visto estarmos em cima de um muro, é o que nos resta. Você pode tomar essa posição e ficar em silêncio, mas o silêncio é ficar em cima do muro, o que automaticamente nos posiciona politicamente. Para qualquer que seja o lado. Mas nós somos atores e os atores servem para levantar questões, nem que seja fazer rir. Porque quando fazemos rir, também estamos a fazer política. Como dizia o meu grande amigo [Paulo Gustavo], "Rir é um ato de resistência".

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Wagner Moura dirigindo Bruno Gagliasso em "Marighella" (2020)

Como foi trabalhar com Wagner Moura enquanto realizador?

Virei-me para ele uma vez numa conferência de imprensa e disse-lhe "conseguiu ser melhor realizador do que ator” [risos]. E é verdade, a prova está aqui. Você viu o filme. Ele é um realizador sensível, que apesar de ser forte exibe uma grande delicadeza. Ele escuta-nos [aos atores] e nós escutamo-lo porque percebemos o que ele está a dizer. Tenho a certeza que quem vir o filme vai encontrar um grande realizador. Wagner Moura não é só um grande ator.

E na preparação, deu espaço para improvisações?

Antes da rodagem, tivemos uma preparação de dois meses e vivi em São Paulo por uns três meses e meio. Foi um processo bem intenso e profundo, muito por conta destas personagens, todos eles fortes e a minha não fugiu à regra. Fiz a escória da História. Acho que a minha personagem tem tudo o que é de mais odioso. E foi com a chegada da minha filha.. tenho uma frase no filme, “se eu mato preto, mato vermelho”, que teve muito impacto em mim. De certa forma, orientou-me para a sua construção. Tinha de procurar em mim, emprestamos nem que seja à personagem mais distante possível. Os atores precisam de emprestar algo. E, para mim, tirar isso foi muito difícil.

Apesar de também ser político, outro tema que o filme nos traz é o racismo, que ainda hoje persiste.

Por isso é que este filme é bem atual. E quando digo que é atual, não é só por causa deste momento político em que vivemos. É por conta de tudo, historicamente falando. E tem muita ação, ficamos agarrados. E ainda por cima é um filme longo [risos].

Mas uma das controvérsias do filme no Brasil foi a escolha de Seu Jorge como Marighella.

Sim. Por causa do tom da sua pele. Isso é uma ficção, não é uma realidade e o próprio Marighella declarava-se negro. Essa discussão é tão mesquinha em comparação à grandiosidade do filme.

A certa altura, Marighella quebra a quarta parede e vira-se para nós [espectadores], salientado que vai recorrer ao “terrorismo”. Ou seja, temos um homem com causas dignas a entrar por vias de causas indignas.

O Wagner retratou muito bem isso. Querem o Marighella? Ei-lo, se pediram vão ter. Não há endeusamentos, o filme mostra o que ele realmente é... e o espectador que tire as suas próprias conclusões.

O Brasil precisa hoje de um Marighella?

[Hesita] Sim. É óbvio, até porque ele foi patriota. Marighella amava o Brasil e o que sentimos mais falta hoje é de pessoas que amem o Brasil. Uma prova disso é o nosso Governo, que chama a quem está a proteger a própria vida [durante a pandemia] de “idiota”. Ele [Bolsonaro] acabou de dizer isso.

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Bruno Gagliasso e Seu Jorge na rodagem de "Marighella" (2020)

O que está a dizer é que faltam no Brasil pessoas que defendam o país?

Sim, fazem falta pessoas que não tenham medo de lutar pelo país. Quer dizer, nós temos, só que quem está a tomar conta do país parece não se importar com os brasileiros. Isso é triste. Toda a gente está a ver as reuniões da CPI [a Comissão Parlamentar de Inquérito à gestão da COVID-19]. Eles estão a fugir das perguntas porque sabem que vão ser presos se responderem. Onde está o dinheiro das vacinas? Foi gasto noutras coisas, como em medicamentos cientificamente ineficazes para o combate da COVID-19. Recusaram sete vezes a vacina… sete vezes! Não sou eu que estou apenas a falar, está à vista de todos...

Você é célebre em Portugal graças à sua participação em várias telenovelas, mas reparo que tem apostado cada vez mais no cinema. Em “Marighella” ou “Todas as Canções de Amor” e “Loop”. Hoje em dia, o cinema está atualmente mais capacitado para falar sobre o Brasil atual que a televisão?

Acredito que o cinema sempre falou. A telenovela teve um papel muito importante, tendo em conta a dimensão que tinha. Hoje, está mais dispersa, mas continua a ter relevância no Brasil. Admito que atualmente tem menos, mas continua. A Arte, mesmo nos momentos difíceis, tem tendência a sobressair. Podem tentar apagá-la, mas Arte é História e com a História não há nada a fazer.

Em Las Vegas, os mortos-vivos também apostam

Hugo Gomes, 21.05.21

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Em modo de troça poderíamos garantir que “Army of the Dead” ("Exército dos Mortos”) é um “Ghost of Mars” de John Carpenter, mas com zombies … e sem Ice Cube (em compensação temos um tigre zombie para “animar” a festa). Se o filme lançado em 2001 bebia das inspirações de Howard Hawks e o seu “Rio Bravo”, a nova incursão de Zack Snyder (“The Justice League”) tem influência espiritual nos westerns da velha fórmula dos “civilizados” contra “selvagens”.

Obviamente, não querendo fazer "Exército dos Mortos” mais do que aquilo que é, um júbilo por parte do realizador (visto o filme ser uma ideia original dele) como pretexto para regressar às suas origens - aos mortos-vivos propriamente ditos do seu bem-sucedido remake de “Dawn of the Dead” (2003). Mas não esperemos sequela aqui, aliás, assim como George A. Romero, esse “rei dos zombies”, fez com que o “Amanhecer dos Mortos” (o original “Dawn of the Dead”), história própria, tornasse parte de um universo projetado e putrefato iniciado por “Night of the Living Dead”.

E continuando nessa trajetória paralela, "Exército dos Mortos” bem poderia integrar qualquer uma dessas visões (visto que hoje somos altamente viciados na continuidade e na partilha de franchises), não desfaz as criações de 2003 e ainda persiste em ideias deixadas por Romero, neste caso no “zombie inteligente” e animalesco de “Day of the Dead” a “Land of the Dead”. Ora bem, passando a “bola”, Zack Snyder consegue em 2 horas e meia a confirmação do morto-vivo mainstream, vinculado com o conceito blockbuster, milhões e milhões investidos.

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Cruzamento dessas réstias de western sofisticado e heist movie (filme de golpe), este musculado “comboio-fantasma” presta-se por um ritmo trabalhado em constante trambolhão com os códigos familiarizados do cinema-pipoca. Porém, o nosso realizador não é nenhum tarefeiro, e perante o peso “insuportável” das majors que trabalha (basta ver as suas incursões da DC [com “Watchmen” incluído] para entendermos que temos um artesão em plena resistência para cumprir as suas visões), expressa uma assinatura (mesmo que aqui esteja contida para servir-se primordialmente à narrativa e não há estética) e uma gradual atualização de um enredo de A a B para consolidar com o nosso mundo (as subtis apropriações do fenómeno Covid19) e com o seu (a relação de pai e filha que inevitavelmente leva-nos a uma fantasia de redenção do autor).

Pode-se dizer o que quiser, que “Exército dos Mortos” é mera chapa do atual cinema "industrial". E sim, também é isso. Mas com a liberdade total de que aqui dispôs, Zack Snyder provou ser mais coerente, enquanto autor "pipoqueiro", do que Michael Bay com o mirabolante e febril (não consigo arranjar mais adjetivos) “Underground 6”, também para a Netflix. Temos aqui cinema de milhões lubrificado e requintado, com o gozo suplementar de descobrir Matthias Schweighöfer a romper com o estereótipo "comic relief" da sua personagem. É um pequeno “achado”.

Uma força de nome Marighella

Hugo Gomes, 20.05.21

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É terrorismo sim” avança Carlos Marighella para a objetiva do espectador, encaminhando o seu olhar diretamente para o nosso - uma quarta parede é quebrada - a partir daqui não existe mais dúvidas, “Marighella” [o filme] quer realmente dialogar connosco. 

A obra de estreia do ator (que para muitos é já uma estrela do cinema brasileiro), Wagner Moura, na cadeira de realizador, é um manifesto, uma provocação, um gesto “sangue-na-guelra” onde tudo impresso e exposto não é meramente decorativo. Trazendo à luz da ficção o ativista e militante comunista Carlos Marighella (1911 – 1969), que optou pela luta armada contra o regime imposto pelo Golpe Militar de 1964, o filme tem menos de reconstituição de época e mais de exorcismo ao nosso presente, aliás, ao Brasil atual, embarcado em sombras, entidades e fantasmas que se julgavam desvanecidos pelo tempo. Figura controversa, desde o seu ativo até às lições de história envolto da sua aura, Marighella é um herói para muitos, um criminoso para outros, e como o filme frisa, para que não seja acusada de embelezamento, um terrorista, os meios indignos na prestação de um fim digno.

Se bem que Moura incita a discussão, o debate e a indignação com alvo nas alas mais conservadores com este thriller politizado e por vezes tendencioso no próprio retrato (o dito vilão, mesmo encarnado com afinco e delírio por Bruno Gagliasso, é um sádico imundo que não acredita na ideologia que defende), é na sua concretização que deparamos com um realizador feito. Algures entre o cinema guerrilha que o próprio autor inspirou na sua experiência durante a rodagem do famoso díptico “Tropa de Elite”, de câmara à mão e com gosto pelo deambulação em forma de travelling (como a sequência inicial do assalto ao comboio, onde, talvez por imaginação nossa, alguém solta a palavra “Bolsonaro” como cuspidela). É um trabalho cheio, dedicado e costurado de maneira a conseguir, mais que tudo, humanizar um ícone (para o bem ou para o mal), adquirindo novo fôlego pela voz aveludada do cantautor Seu Jorge

Contudo, e sabendo que o Cinema é por vezes ideias, e um filme funciona como emissão dessas, “Marighella” sofre de um mal que muitos dos seus congéneres brasileiros evitam ceder (“Bacurau”, por exemplo, contornou por vias da sua distopia), o apelo à militância, a uma força revolucionária contra um regime que se prolonga neste século e que hoje está à vista de todos. É ideologia contra ideologia, um drama ao serviço do seu propagandismo. E bem que sabemos, perante esta radicalização que nos atinge, é que “Marighella” não irá conquistar novos apoiantes, mas é, sem dúvida alguma, das produções mais corajosas e ambiciosas que o Brasil já produziu no período pós-impeachment. Sim, corajoso, julgo que é esse o adjetivo mais que acertado para este caso.

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