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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

A estranheza da mudança em teias plásticas

Hugo Gomes, 03.03.21

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As mudanças forçam a nossa adaptação e versatilidade, e possivelmente, enquanto seres sociais mudámos … e muito … nos últimos 20 anos. Já em matéria de Cinema, para além desta arte ter contraído novos horizontes, temáticas, linguagens e protagonistas, a sua relação com o espectador e vice-versa, também alterou. Já não conseguimos encarar a artificialidade, exigimos realismos nas mais diferentes formas, e com base no nosso pedido é isso que obtivemos, maioritariamente, nos últimos tempos.

As exceções raras são como choques repentinos em espectadores amnésicos de que o Cinema pode ser um trabalho estético, fingido e porque não brechtiano (conduzir-nos por uma desconstrução e um contacto direto e assertivo com as audiências). Obviamente que, “The Girl and Spider” da dupla suíça Zürcher (os irmãos gémeos Ramón [realizador] e Silvan [co-argumentista]), não veio inventar, nem reinventar esse “faz-de-conta” cada vez mais negado. É um filme artificial, sim, porque nele detectamos um esforço, uma dedicação e um isolamento das tendências que se vigoram. E visto falarmos em mudanças, a obra é uma em curso, e como ela vem despoletar sentimentos, relações, olhares e encantos. Pois bem, os Zürcher criaram um biótopo cerrado, onde as personagens pavoneiam e percorrem cada centímetro como “bonecos” sem autonomia alguma, aguardando pela sua vez de “brilhar” no palco central. E a mudança, a “causa” de toda esta barafunda delicada é surgida na forma de uma “rapariga”, a “Girl” do título, uma deslocada protagonista de conto-de-fadas.

Mara (Henriette Confurius), perante a saída da sua colega de apartamento Lisa (Liliane Amuat), é essa mesmo força em curso. Ela “provoca”, “seduz” ou “leciona” as personagens em passagem (a viagem está sempre presente no espírito da obra e as notas ouvidas de “Voyage, Voyage”, dos Desireless, são um comité de despedidas), conduzindo-as a um mar de desejos e fantasias nunca indiciadas, enquanto revela as suas (dotadas de algumas morbidez e sadismo). Há um efeito fantasmagórico na sua persona assim como no contacto com os outros “peões”, uma domadora de aranhas que guia o espectador à inconsistência do seu meio, por entre excentricidades envolto (assim como esse invertebrado de oito patas conduz a presa ao centro da sua teia).

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Digamos que as personagens revelam as suas intimidades por quem não as detém qualquer compaixão. Quanto ao filme em si, a conduta de espaços limitados, fechados, e em sua maneira assombrados por eventos sem explicação (ou porque não se sente o direito de dar uma), não impede a dedicação dos irmãos Zürcher em compor um plano, um ângulo, uma perspetiva, um “palanque” (como quiserem chamar) para as suas figuras de endereço.

É um cuidado formal que não se vê frequentemente em jovens nestas demandas “festivaleiras”, mas é mais uma razão para a sua coragem em assumir a artificialidade em tempos “modernos” que se requer (ou suplicam) pelo imediato e pela representação exata (o realismo tornou-se numa espécie de simulacro o qual todos desejam aproximar). Assim, nos é oferecido uma fábula burlona e eclética intercalada por planos POV (point-of-view) que fundamentam uma ideia de natureza morta para um incógnito inventário. Aliás, é como a tal mudança em curso, há que organizara para não deixar nada para trás ou por contar. Contudo, caso isso suceda, não há preocupação, descartar faz parte do nosso crescimento pessoal e este filme é todo ele um processo de crescimento (até na sua forma).

A beleza não pode ser conservada, assim como os rouxinóis

Falando com Susana Nobre, numa ligação Nova Iorque - Vila Franca de Xira

Hugo Gomes, 02.03.21

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Em "No Táxi do Jack" de Susana Nobre, a única longa-metragem portuguesa no Festival de Berlim, seguimos à boleia pelo universo de Joaquim Calçada, taxista em Nova Iorque e desempregado em Vila Franca de Xira, que aguarda impacientemente pela reforma. Por entre burocracias e esperas inconvenientes, o sexagenário "convida" os espectadores para um passeio pelas suas memórias e as vivências que o tornaram um cidadão do Mundo.

Falei com a realizadora sobre o seu novo filme, um trabalho que realça a força da oralidade das histórias que nos são reservadas e o prazer de escutar essas recordações.

De certa maneira, o projeto “No Táxi do Jack” é uma prolongação de obras como “Vida Activa” e “Provas Exorcismos”. Sempre pensara em conceber uma trilogia ou a sua experiência nas Novas Oportunidades e o contacto com Joaquim Calçada levaram-na a ter interesse em continuar o percurso narrativo?

Trabalhei nas Novas Oportunidades com o objetivo de fazer um filme sobre o programa. Um pouco ao encontro daquilo que já tinha feito num filme anterior, o meu primeiro filme, "O que pode um rosto", um filme sobre um hospital público, em Lisboa. Um filme observacional no eixo da relação das pessoas com as instituições. Penso que me equivoquei ao pensar que poderia fazer um filme na mesma distância, mas a trabalhar internamente na instituição como técnica. Não era possível. O lado institucional era muito interessante, mas eu estava demasiado dentro para conseguir apontar a câmara para os meus colegas.

Passei a filmar o que se passava à frente da minha secretária. Sentia-me muito atraída por todo aquele universo – as histórias do trabalho, sobretudo do mundo operário - era a sensação de estar parada num lugar e o mundo todo ir ali dar. Durante esse período cresceu em mim a vontade de fazer um grande projeto ou vários filmes sobre a “história da laboração um povo”. Esta formulação é de Manoel de Oliveira, que tinha um projeto não realizado que se chamava “O Palco de Um Povo”, um vasto programa para um filme sobre a laboração de um povo. Deste grande projeto autonomizaram-se os filmes “O Pão”, "As Pinturas do meu Irmão Júlio" e o “Acto da Primavera”, que fariam parte desse grande documentário.

Durante o período em que trabalhei nas Novas oportunidades queria fazer muitas coisas diferentes, encontrar um meio que desse forma a esse tumulto de ideias de filmes. Mas também estava muito presa à minha secretária e às minhas obrigações como técnica superior, o que me levava, por sua vez, a um estado de grande contenção. "O Táxi do Jack" é um filme que ainda vem desse tumulto de ideias e de não ter uma forma definida para as expressar. Há toda uma sucessão de acontecimentos que a escuta de uma história pode gerar. A ficção está sempre presente na cabeça e no olhar de um realizador.

O contacto com o Joaquim foi o que trouxe a matéria para este filme, bem como a nossa relação de amizade. Não seria possível fazê-lo com uma simples "reperagé" [ação de escolher e visitar espaços a serem usados num filme] de uma semana e uma entrevista de uma hora. É algo que nos implicou muito, ouvir, pensar, pedir para repetir, passear. No fundo, estar disponível para receber.

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Não deixo de notar um certo fatalismo, bem presente na personagem do Joaquim como também no tom do filme. E mais na captação de Vila Franca de Xira, anteriormente industrializada, hoje caindo num certo esquecimento. O seu destino é muito ou pouco associável ao seu protagonista? Ou seja, é através de Joaquim que encontrou uma janela para abordar o estado atual da cidade?

Não dirigi a relação com a paisagem com essa intenção. Sabia desde o início que o filme deveria traçar o seu território. Um território onde convergiriam diversas geografias e temporalidades. Joaquim traça no filme o seu próprio atlas, que não é apenas um atlas físico, é também um da consciência, da memória e dos seus fantasmas.

Numa anterior entrevista, referente ao seu filme “Tempo Comum”, mencionou um “ponto de escuta”, uma ligação com as ações “falar” e “ouvir”, dois pontos centrais para o seu cinema. Joaquim é uma figura dotada de histórias, prontas a serem reveladas. Acredita que o seu filme tem a capacidade de ouvi-las?

Acho que ouvir e observar são duas ferramentas ou qualidades muito importantes para fazer cinema. E talvez tenha tentado justapor nos meus planos essa experiência, recolocando o espectador nesse lugar de ouvinte e observador, como se estivesse ali com aquelas pessoas na mesma sala. No “Tempo Comum” procurei fazer isso até um certo limite, e noutros filmes também. Acredito que a ação de um filme pode ser dada pela palavra. Acho que o centro deste filme é a palavra pela voz do Joaquim. Grande parte dos textos são dele, alguns escritos por mim mas a partir das nossas conversas. E depois, um ou outro tirado ao José Rodrigues Miguéis, mas podia ter sido o Joaquim a dizê-los também.

Ao ver “No Táxi de Jack”, confesso que me ocorreu por diversas vezes o mais recente filme de Spike Lee – “Da 5 Bloods” –, onde os atores, envelhecidos, permaneciam iguais nas sequências de "flashback". Ao ver Joaquim na sua igual forma a materializar as suas memórias, não pude deixar de questionar essa mesma recusa pela representação exata e essa experimentalidade para com o tempo e o físico.

Sim, esse trabalho sobre o tempo pode não ter limites. Não queria fazer um filme em sketches, queria que instalasse o seu próprio tempo e espaço. A questão que se impunha era a da composição e das passagens narrativas, em que os vários elementos, com temporalidades e geografias diferentes, se reunissem num mesmo plano de narração. Acho que o estilo "americanizado" de Joaquim lhe dá um semblante de uma certa intemporalidade, como se se pusesse em órbita a atravessar diferentes tempos e espaços como um observador. Como alguém um pouco fora da vida para melhor dar conta dela.

Com o documentário convicto de “Vida Activa”, a docuficção de “Tempo Comum” e um certo experimentalismo das duas dimensões em "No Táxi de Jack", acha-se preparada para avançar com um projeto puramente ficcional? Sabendo que, hoje em dia, muitas desses territórios encontram-se diluídos?

Estou a preparar uma longa metragem. Um filme mais romanesco, uma comédia melancólica sobre o luto. Chama-se "Cidade Rabat", o nome da minha rua de infância.

Não posso deixar de lhe perguntar sobre o impacto da pandemia no cinema e esta nova forma de erguer festivais, virtualmente. Acredita que tudo isto é passageiro e uma "primavera cinematográfica" surgirá depois da tempestade?

Acredito. Pode ser que este período tenha sido uma espécie de sabática e que tenha frutos no aprimoramento de algumas ideias e projetos.

"À Pas Aveugles": à memória dos que resistiram para devolver a nossa Humanidade

Hugo Gomes, 01.03.21

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Nestes lugares dedicados à negação da Humanidade, recuperar o controlo da própria imagem era um ato de resistência

São vários os momentos de difícil associação deste “À pas Aveugles” (“From Where then Stood”) com a literatura de Primo Levi, nomeadamente do seu mundialmente famosos e relevante “Se Isto é um Homem” (“Se questo è un uomo”, publicado em 1947). Até porque o autor literário confidenciava nas páginas a sua experiência em Auschwitz, referindo-se, sobretudo, ao ato de higienização (o quanto possível) como uma oposição à transformação sub-humana a que os prisioneiros eram, diariamente, submetidos. No documentário de Christophe Cognet, realizador que dedica parte da sua vida à análise e estudo dos campos de concentração alemães, aponta para as fotografias clandestinas tiradas por dezenas de prisioneiros (registando-se atualmente mais de 50 “fotógrafos marginais”), longe dos olhares dos guardas e dos seus carrascos, como uma guerrilha, não só pelo seu individualismo (sendo que o filme demonstra a fotografia como um escape daquelas mesmas trevas), mas na concepção de documentação que impedem o esquecimento futuro daquela existência, assim como daqueles campos.

São fotografias, ocultadas e sucessivamente contrabandeadas para o exterior, que desmontam parte do quotidiano naqueles terrenos malditos, descortinando rostos e arquitetura, porventura destruídas, ou provas esquecidas dos atos ali cometidos. Cognet segue para o terreno, explorando o sítio onde tais imagens foram extraídas e, simbolicamente, devolvendo-as através dos inúmeros “filhos dos negativos”, a fotografia em contacto com a sua génese. “À pas Aveugles” convida-nos a olhar para os registos, analisando-os com a profundidade e detalhe de vislumbre académica, porém, é o seu respeito, algo mútuo, que tornam estas imagens destacadas numa mostra silenciosa (impedindo o “embelezamento” ou acréscimo emocional, sobretudo através da ausência de banda-sonora, uma mera futilidade neste caso), ou a aproximação do desígnio da “não-imagem” de Alain Resnais (“Noite e Nevoeiro”, 1956) e por sua vez caminho direto ao anual “post-it” de “Never Forget” (Holocausto como memorando da nossa vivência enquanto Humanidade) .

Convenhamos que a sobre-análise para fins estudiosos desta mesma colheita fotográfica, colocam o filme de Cognet na investigação academizada, afastando-o dos olhares menos dados para intensificadas interações. Todavia, o resultado, a viagem que nos assombra, é um feito numa atualidade dotada de banalizações ou negacionismos de oportunismo politizado. Pegando no tal “post-it” – o de nunca esquecer dos negros dias em que ser um Homem seria mais do que o arrasto do fôlego, e sim a invocação, mesmo que sufocada pela destruidora “máquina” nazi, da nossa civilização … ou que restava dela.

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Mas o sentido era este, que não esqueci, nem então nem depois: que, exatamente que o Lager [campo] é uma grande máquina para nos reduzir a animais, nós não devemos tornar-nos animais; que também neste lugar se pode sobreviver, e por isso é preciso querer sobreviver, para contar, para testemunhar; e para viver é importante esforçarmo-nos para salvar pelo menos o esqueleto, os pilares, a forma da nossa civilização. Que somos escravos, privados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, condenados quase com certeza à morte, mas que uma faculdade nos restou, e temos de a defender com todo o vigor porque é a última: a faculdade de negar o nosso consentimento. Temos, portanto, sem dúvida de lavar a cara sem sabão, na água suja, e limparmo-nos ao casaco. Temos de engraxar os sapatos, não porque a tal obriga o regulamento, mas por dignidade e por propriedade. Temos que caminhar direitos, sem arrastar as socas, certamente não em homenagem à disciplina prussiana, mas para nos mantermos vivos, para não começarmos a morrer.”

Primo Levi, “Se Isto é um Homem”

As várias formas da água

Hugo Gomes, 01.03.21

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Macacos me mordam! Perdi a conta dos dias em que os meus ouvidos não captavam tal alegre som! Uma multidão em plena convivência, num início da noite nas margens de um rio, esplendorosa imagem diga-se de passagem. Do outro lado, no horizonte, a “outra banda” iluminada e, sobretudo, encantada por luzes de cores várias … um festim de eletricidade. Mesmo assim, fechei os olhos. O som desta mistela, o falatório indecifrável em conjunto com o batimento de águas do rio Yangtzé no porto de Wuhan [China], levaram a este vosso escriba quase às lágrimas, espoletando uma saudade imensa pela tal “normalidade” que nunca mais chega (e pelos vistos que nunca virá na forma como sempre fomos acostumados).

Mas sejamos sinceros (deixando para trás a maravilha quase proustiana), existem problemas neste dito formalismo, o da contemplação da paisagem como um exercício de paciência e de sensorialidade. O cineasta norte-americano James Benning (“13 Lakes”, “L. Cohen”) executa estes rasgos na perfeição, já numa ritualidade o qual já encaramos como gesto autoral, mas nem isso torna este modus operandi … como descreveria … ah sim! … Entusiasmante. Aliás, existe um certo apelo à preguiça, um atalho ao facilitismo, e como português já vimos isto, demasiadas vezes, associados a falsos-autores do nosso “mundinho” português.

Dito isto, percebemos na perfeição o que a realizadora Shengze Zhu pretendia com este “A River Runs, Turns, Erases, Replaces”. O de prosseguir nas correntes do rio (literalmente e metaforicamente), observando e captando as suas transformações, a intervenção humana e o abrigo citadino que aí floresce. É um ode à modernidade, essa mesma que alavancou a grande mudança dos nossos dias (nem vamos aprofundar a temática das pandemias para não deprimirmos ainda mais).

Por entre as imagens estáticas, paisagistas, amontoadas, existe momentos fatiados onde uma correspondência é lida silenciosamente (legendas que nos remetem a uma espécie de narrativa paralela e nada interventiva). Através dessas palavras, um neto explica à sua avó essas mudanças sociais e quotidianas de Wuhan, relembrando que a cidade que esta acostumara desapareceu com o vento (brisas, essas, denominadas de progresso). “A River Runs, Turns, Erases, Replaces” relaciona-nos com o seu devido espaço e tempo, mas fiquemos então pelas ideias banhadas no Yangtzé. Um exercício e tanto esquecível perante uma tendência sem arrojos.

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