Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Fica o convite para a viagem pelo Cinema de Tavernier

Hugo Gomes, 25.03.21

tavernier-copyright-jean-luc-mecc80ge_collection-i

Mais do que um somente realizador, Bertrand Tavernier (1941 - 2021) foi, acima de tudo, um pensador. Alguém que interagia e compreendia a sua relação com o cinema, e em particular o francês. Obviamente que não podemos deixar de referir “Voyage à Travers le Cinéma Français” (2016), a sua hercúlea e enciclopédica tarefa de salientar, recuperar e resgatar filmes hoje menosprezados devido à influência das vanguardas onipresentes, como também não podemos ignorar o seu percurso na atividade propriamente dita. Assim, viajando em conjunto com Tavernier, seguimos no sabor das alegorias da televisão mórbida e da sociedade obcecada pelo macabro em “Death Watch” (“La Mort en Direct”), ou em cumplicidade com Robert Parrish perseguimos o espirito musical que se instalou nos arredores dos Everglades em “Mississippi Blues”, caminhamos a favor de uma bucolismo quase renoireano em “Un Dimanche à la Campagne” ou mais recentemente perdemos no encanto de Mélanie Thierry em "La Princesse de Montpensier". Para Tavernier a viagem chegou ao fim, mas para o Cinema nem a meio percurso vai.

princess_of_montpensier.jpg

La Princesse de Montpensier (2010)

37159934.jpg

Un Dimanche à la Campagne (1984)

vlcsnap-2020-06-12-11h04m31s944.jpg

Mississippi Blues (1983)

EO9viFaWoAQ5d6A.jpg

"Death Watch" /La Mort en Direct(1980)

George Segal: um convidado que ninguém quer!

Hugo Gomes, 24.03.21

large-screenshot2.jpg

Invitation to a Gunfighter (Richard Wilson, 1964)

George Segal estava em “maus lençóis”, quando aquela cidade vil e corrupta contrata um excêntrico e reputado pistoleiro de nome Jules Gaspard d'Estaing (Yul Brynner), a partir daí o, na altura, jovem tentaria a todo o custo desencontrar-se do seu eventual carrasco. O westernInvitation to a Gunfighter”, que porventura passava há uns meses nesses canais televisivos especializados em filmes, foi possivelmente o último momento cinematográfico em que coloquei os olhos em Segal, ator que nos deixa hoje aos 87. Apesar de “condenado” a viver o papel de alegre viúvo na série “The Goldberg” (um deleite para a minha fraqueza com sitcoms), Segal era um convidado humorado e por vezes incomodo em outras aventuras de cinema como, a mais célebre das suas participações, no caos matrimonial “Who's Afraid of Virginia Woolf?” de Mike Nichols, ou tendo Jane Fonda como parceiro do crime na primeira versão de “Fun with Dick and Jane”. A registar como epítese, as reuniões com Robert Altman, Paul Mazursky, Peter Yates, Roger Corman e Stanley Kramer.

ExNLO9YVcAA6Vg4.jpg

Who's Afraid of Virginia Woolf? (Mike Nichols, 1966)

fun-1200-1200-675-675-crop-000000.jpg

Fun with Dick and Jane (Ted Kotcheff, 1977)

Mazurksy_Blume-in-Love-960x0-c-default.jpg

Blume in Love (Paul Mazursky, 1973)

O segredo está dentro do plano e nunca fora dele

Hugo Gomes, 22.03.21

image-w1280.webp

Eles tem um plano, o filme também o tem, que se resume seguir à risca todos os “rodriguinhos” do seu género, sem sair da sua trajetória, porque é dentro desta mesma que se encontra … o tal golpe.

The Vault”, produção espanhola a fazer-se de cinema globalizado e hollywoodesco, no espírito dos êxitos em forma de seriado (“La Casa de Papel”), é um heist movie (filme de golpe) como manda a lei da sapatilha, onde um grupo de “iluminados” estão a postos para “assaltar” o “cofre mais seguro do Mundo” (frase-cliché que ouvimos vezes sem conta neste mesmo território). Pois é, para seguirmos as pisadas sem arrojo estão cinco argumentistas … repito, cinco argumentistas! Um quinteto reunido para entregar um cadernos de encargos a Jaume Balagueró, realizador que atribuiu um temporário fôlego ao tão limitado estilo do found footage (“[REC]”, 2007), e que aqui serpenteia por uma direção mecanizada a suspirar por grande espetáculo. Ou seja, tudo “cheira” a trabalho eficiente e de auto-congratulação, automatizado e fiel às suas próprias etapas.

Não há muito mais para dizer. Testemunhamos um amontoado de técnicos, das mais variadas áreas, em esforço para gerar um lugar-comum dentro dos lugares-comuns. Enquanto isso, um elenco algo reciclado e aparentemente desinteressado em “rechear” as suas personagens (pelos vistos cinco argumentistas deram meros bonecos … o que é que se há de fazer?) ficam encarregues de assumir responsabilidades pela variação. Em óbvio “destaque” está o equívoco de “cabeça-de-cartaz”, Freddie Highmore, aquele reconhecido ator-criança (“Charlie and the Chocolate Factory”, “Finding Neverland”) que porventura cresceu e se celebrizou na televisão com alguns êxitos (“The Good Doctor”), vivendo atualmente na ânsia de regressar ao grande ecrã. Infelizmente, não encontrará tal palco em “The Vault”, e pelos vistos se apercebeu a tempo, demonstrando (mais em comparação aos outros) um maior desapego pelo material.

No final, ainda há espaço para sequela … talvez diga isto de um jeito trocista (mas é o “estado das coisas”), que possivelmente para a próxima vez sejam precisos o dobro dos argumentistas. Não sabemos ao certo, porque o evidente é isto diluir com tantos outros do seu subgénero. Nunca tantos fizeram tão pouco!

A Liga pela Justiça de Zack Snyder

Hugo Gomes, 17.03.21

17justiceleague-web1-superJumbo.jpg

Quatro horas prezando os termos e condições de muitas séries e minisséries em abundância nessas plataformas de streaming, “Zack Snyder’s Justice League” poderá ser o mesmo filme que aquela estreia de 2017 (a nível argumentativo e narrativo), porém, é um objeto à imagem do seu criador. E se isso vale alguma coisa na industrialização frenética desta Hollywood tecnológica. Contudo, não há premonição de quem até à data rejeitou o estilo, o aceite (desta vez) de braços abertos, mas não há que negar que exista aqui espírito e carinho por estas personagens (até mesmo o embaraçoso vilão da versão cinematográfica recebeu um upgrade de personalidade), paciência no enredo (não refiro apenas à duração, e sim à sua postura ocasionalmente contemplativa) e um gesto autoral sempre presente em todo este percurso. Por vezes, sentimos o peso da ruminação da trama (nomeadamente o epilogo criado) … meros caprichos … porque este “Justice League” é sobretudo a dominância da estética … uma estética bem familiar.

'Non' ou Vã Glória de Salvar o "Cinema Português"

Hugo Gomes, 14.03.21

thumbs.web.sapo.io.jpg

Fade to Nothing (Pedro Maia, 2017)

Recordo vagamente de um diálogo à saída de uma das sessões da 14ª edição do Indielisboa. Estávamos em 2017 e o filme em causa era o ensaio visual e sonoro “Fade to Nothing”, a estreia de Pedro Maia no universo da longa-metragem, com a participação do artista musical Paulo Furtado, ou como é renomado de The Legendary Tigerman. A conversa em questão surgiu devido a uma certa indiferença por parte de quem debatia comigo quanto à experiência, finalizando com uma pergunta sem resposta alguma para devolver – “É este filme que salvará o Cinema Português?”.

Há muito, mas muito, quase como uma cruz pelo qual arrastamos praça adentro, discute-se um eventual “salvamento” do nosso cinema. Para satisfazer os prazeres da carne, ou entretenimento, como muitos defendem, ou por fim, restaurar uma ligação emocional com o perdido espectador que depara com uma instituição demasiado hermética e umbiguista. Conforme seja a causa trazida, uma ‘coisa’ é certa, todos nós esperamos por uma entidade sebastiana, aquele que irá romper o nevoeiro com a finalidade de colocar a nossa cinematografia no mapa. Enquanto essa figura messiânica não chega, arrecado com uma certeza, o cinema português não precisa de ser salvo, além disso, o que precisará, é de uns certos ajustes. Diria mais, localizados, mas isso são “outros cinco tostões”.

Em conversa com Rui Alves de Sousa no seu podcast À Beira do Abismo, reforcei o meu amor pelo cinema português, o “cinema que mais amo, porque é o meu”. Talvez um sentimento algo familiar nasce em mim no que refere a defender este universo, até mesmo durante os seus expositivos fracassos. Mas o cinema português é o meu maior interesse no que refere a cinematografias, é o nosso mundo, e é aquele que mais dialoga ou partilha o nosso espírito identitário, mesmo que muitos do espectadores não o revejam, esse é o Cinema que nos acompanha, que nos faz discutir com os nossos “eus” enquanto nação (para o bem ou para o mal).

Mas o cinema português não fala do real Portugal.” Muitos argumentarão desta maneira. Contudo, o que é o real Portugal? O Portugal rural? Esse, sempre presente em muitos dos nossos ensaios documentais, etnográficos ou memorialistas que buscam esses biótopos desgastados pela decadência e os fluxos migratórios dos mais jovens para as metrópoles. Portugal cosmopolita? Lisboa que sempre foi o focus de atenção nas nossas lentes e o Porto que serviu de berço à nossa atividade cinematográfica. Mas afinal, qual Portugal estamos nós a falar ao certo?

mw-860.jpg

Sangue do meu Sangue (João Canijo, 2011)

Então os problemas do nosso país? O nosso cinema só quer saber de artistas e lirismo.” Se o distanciamento pode ser traduzido por isso, então há uma novidade para vocês – a ordem natural (novos realizadores, novos olhares) que tem apostado cada vez mais em temas raros na nossa cinematografia, e porque não, de cariz social. Abordamos a austeridade num prisma humano e por via de uma narrativa centrada no realismo encenado (“São Jorge” de Marco Martins ou “Sangue do meu Sangue” de João Canijo, dois exemplos que me vem automaticamente à mente), um constante interesse pela descolonização e no tabu que sempre fora a Guerra do Ultramar (“Mosquito” de João Nuno Pinto, “As Cartas da Guerra” de Ivo M. Ferreira, Our Madness, de João Viana), ou as vozes silenciadas do nosso “querido” Portugal a conseguir o seu palco, por fim (“O Fim do Mundo”, de Basil da Cunha, “Vitalina Varela”, de Pedro Costa).

Mas o cinema português não consegue ser político?" O “ser político” é um terreno mais que pantanoso, as tão acarinhadas comédias portuguesas “estreladas” por Vasco Santana e António Silva eram por natureza materiais politizados (com o seu quê evidente de propagandismo), e na década de 50, Manuel Guimarães trouxe à nossa atividade o neorrealismo (que por si é uma estética politizada) e assim adiante o Cinema Novo (sem falar da vaga militante pós-25 de Abril), ou até mesmo João César Monteiro, que não escondia as suas ideologias (“Sou um intelectual de esquerda”). Na nossa contemporaneidade, quase tudo o que é produzido é formado por gestos políticos, de Miguel Gomes a Teresa Villaverde, de Pedro Pinho a Welket Bungué, de Cláudia Varejão a João Botelho. E se o problema é o ponteiro da rosa-dos-ventos estar direcionada exclusivamente à esquerda, então fica o registo de “Snu” de Patrícia Sequeira ou “Camarate” de Luís Filipe Rocha.

Mas é um cinema demasiado intimista. O cinema português deveria exaltar os nossos grandes heróis”. Mesmo sob uma tremenda estigmatização, não poderemos acusar de Manoel de Oliveira invocar os “bens preciosos” da nossa História, onde até mesmo as derrotas são fruto de inveja entre nações (“'Non', ou A Vã Glória de Mandar”). Como estafetas de tal legado, João Botelho encontrou nos últimos anos, um propósito em consolidar o cinema com a divulgação de trabalhos literários, ou Francisco Manso a tentativa de reafirmar o “filme de época” numa “indústria” de baixos recursos. Enquanto isso, o êxito de “Variações”, projeto de longa data e resistência de João Maia, abriu portas para uma eventual vaga biográfica e musical – “Bem Bom", de Patrícia Sequeira, está na fila para persistir no estilo produtivo.

“Porque é um cinema ‘velho’, não fala com, nem para os jovens”. Como assim? Pedro Cabeleira estreava em Locarno de 2017 com o esteticamente febril “Verão Danado”, um retalho de jovem mal amparados que vivem a noite como não houvesse amanhã, da mesma maneira que Mariana Gaivão exibia a rebeldia numa caverna (uma imagem marcante em “Ruby”), ou o cinema energeticamente pop de “Leviano” de Justin Amorim. Entre outros, basta olhar para as curtas vindas de sangue novo, aquele sangue na guelra que tanto o cinema português deseja e muito bem.

1118full-non-ou-a-vã-glória-de-mandar-.jpg

'Non', ou A Vã Glória de Mandar (Manoel de Oliveira, 1990)

Sim, e antes que perguntem em relação novos géneros, simplesmente deixa acontecer, temos experiências, umas satisfatórias, outras … bem, tentou-se. O tempo é uma ferramenta útil para essa dita diversidade, basta só aguardar. Calmamente …

Quanto ao leitor, a esta altura deverá estar ele próprio a questionar – “então e esses ajustes?”. Se o cinema português precisa de um ajuste, esse seria o de não ser pequeno, ou de pensar como tal. Sabendo que este meio é um nicho que tropeça constante uns nos outros, o refugiarmos na nossa pequenez (um vício tão português) leva-nos automaticamente aos mais variados problemas que acirram ainda mais este panorama. A desunião, a ideologia (não política, mas no modo cinema português deveria ser concebido ou “canonizado”), os egos e o amiguismo que prejudica mais autores do que beneficia-los, “obrigando-os” a abrigar nos seus próprios conformismos.

Não se trata de salvamento, ao invés disso, trata-se de apelo às correntes e olhar para cima. Somos mais do que meras vítimas. 

Raya e a automatização do "caça-memórias"

Hugo Gomes, 08.03.21

RAYA-ONLINE-USE-217.0_074.00_0112.jpg

É certo que em relação à Disney temos por hábito revelar uma sede insaciável por uma fonte de nostalgia. Memórias agarradas às infâncias de gerações que assumiam as animações disnescas como eventos cruciais no seu percurso de crescimento pessoal e emotivo. Não querendo ser o vilão da história, serei eu a quebrar a “magia” confortante desse limbo – o tempo não volta atrás, por isso é escusado procurar nestas novas produções, uma inocência que nós, enquanto crianças de supostos futuros risonhos, víamos e guardávamos no sigilo da nossa feliz ignorância. Com “Raya and the Last Dragon”, a última criação do estúdio nesse departamento animado, é mais que esclarecedor que tudo é ligado por fórmulas … e valha-nos Deus … já nem sequer esforçam a contornar essa inércia.

Fantasia que une mitologia e folclore do sudeste asiático com uma mensagem clara de Paz Mundial (a utopia servida de solução para um mundo cada mais dividido e polarizado), o filme, que é dos mais adultos desde o fracassado “The Black Cauldron” (1985), é um festim de animação como manda a tecnologia mais avançada hoje disponível, e obviamente, um feito noticiado na representatividade na indústria (as vozes originais estão encarregues a atores asiáticos ou de descendência asiática), mas impedido de avançar nos seus territórios criativos pela imperatividade de uma narrativa formatada.

Infelizmente é este o resultado que nos é oferecido, e ao mesmo tempo não querendo desdenhar a eficácia desses mesmos truques, porém, não encontramos motivos de felicidade no somente “bom trabalho”. Depois de “Soul” (sabendo tratar-se de uma animação com selo Pixar, mas a esta altura do campeonato tudo pertence ao mesmo “patrão”), o arrojo ficou à porta para nos entregar mais do mesmo.

Contudo, há uma lição aprendida no meio disto tudo, a ausência de momentos musicais, possivelmente evitando a exaustiva coletânea reunida no campeão de box-office (mas perdedor criativo) que foi “Frozen 2” (2019). Uma ausência que garante-nos um enredo fluido e sem quebras, como o rio crucial que atravessa toda esta jornada.

Mil e uma coincidências em tempos de solidão

Hugo Gomes, 07.03.21

WheelOfFortune_photo-13.jpg

Com “felizes horas” passadas (não sendo uma menção ao acaso, visto que é o regresso do realizador na alçada da produção de Satoshi Takada de “Happy Hour: Hora Feliz”, em 2015), Ryûsuke Hamaguchi converte-se numa Sheherazade dos contos de solidão e repreensão na sua roda da sorte e de fantasia, trazendo à “vida” três das suas sete histórias (o realizador garantiu-nos que iremos conhecer as restantes quatro em projetos futuros). A trindade de historietas, todas elas protagonizadas por mulheres (vítimas do humor trocista do destino, são motivadas pelas escolhas, muitas delas disfarçadas por meras coincidências). Assim, Hamaguchi saído da sua experiência “comercial” (o caracterizado “shōgyō eiga” [termo nipónico para cinema comercial japonês, porém das convencionalidades do cinema pipoca norte-americano] “Asako I & II”) remexe na sensibilidade destas figuras solitárias e repreendidas.

No primeiro capítulo – intitulado de “Magic (or Something Less Assuring”)” – somos levados a um regresso ao passado indiciado num pertinente acaso. Nunca se deve voltar ao lugar onde fomos felizes, ou aquele que o qual, nunca percebemos, até então, que alguma vez o fomos. Seria este o conselho dado a Meiko (Kotone Furukawa), que descobre por via de uma conversa casual com a sua amiga Tsugumi (Hyunri), de que esta tem encontros românticos com o seu datado ex (sem esta desconhecer a natureza e historial daquele homem). Depois do diálogo, um desejo ardente renasce nela e de modo instintivo confronta o seu antigo amante. Do conjunto, este é o conto mais sádico e perverso, interiorizando uma certa repreensão sexual que desafia os códigos romanescos do afeto. Possivelmente, tal por efeito daqueles zooms desengonçados que aludem um certo autor sul-coreano, Hamaguchi parece interessado em incutir um cinema habitual em Hong Sang Soo … e não somente em aspetos formais … um moralismo “rohmeriano” que se adequa a questões quânticas e dimensionais. Uma espécie de gato de Schrödinger no seu mundanismo.

Já o segundo tomo – “Door Wide Open” – continuamos nas demandas sexualmente repreensivas. Desta vez uma mulher – Nao (Katsuki Mori) – servida de isco numa armadilha sexual, uma vingança planeada para comprometer um consagrado romancista e professor, transforma-se num conto erotizado quanto à sua verbalização, discutindo a fantasia em territórios, novamente, “rohmerianos”. Em seu jeito, funciona como um humorístico castigo divino, mas atinge, nas suas devidas alturas um vínculo espiritual para com a capacidade do criador – “as minhas palavras têm ressonância na experiência do leitor” – ouve-se a certa altura. E porque não assumi-lo como um canalizador de todo este percurso a três. Contudo, é na chegada à terceira curta-metragem que deparamos com a grande galinha de ouro nesta “roda afortunada”.

Wheel-of-fortune-and-fantasy.jpeg

Once Again” (sendo este o título atribuído) leva-nos a um futuro ali ao lado com uma particular distopia, um vírus informático com a capacidade de alterar para todo o sempre a nossa sociedade, expondo os nossos segredos e questionando as nossas próprias relações (curiosamente este segmento foi rodado em plena pandemia). Aí, Moka (Fusako Urabe), uma mulher na casa dos trinta, encontra uma mulher (Aoba Kawai) que lhe faz lembrar um antigo amor de liceu. O suposto reencontro é mais uma partida desse mesmo destino e Hamaguchi inverte essa crueldade em prol de um ensaio sensível sobre os afetos, memórias e sentimentos revividos, colocando-nos numa bandeja de artificialidade quanto a estas mesmas definições. Ou seja, nada é puro, e por sua vez existe pureza.

Confusos? Sim. Porque todas as definições, daquilo que nos garantem como genuínos sentimentos ou relações, somos evidenciados como construções dedicadas, por vezes desabadas, e resumidamente erguidas com igual paixão. Hamaguchi sabe o quanto especial é este episódio, esta revisitação, e por isso, as duas [e em grande parte do tempo únicas no seu mundo] protagonistas são atrizes “resgatadas” da sua primeira longa-metragem (“Passion”, 2008). O reencontro é nesta feita um ciclo emaranhado na sua própria criatividade.

No final há aquele zoom mal-amparado à lá Hong Sang Soo (outra vez!), mas já não interessa. Perdoamos Hamaguchi desse esse mesmo desleixo, a jornada que nos trouxe nesses perfeitos desconhecidos e imperfeitos conhecidos é uma das brilhantes histórias contadas no seio de uma pandemia. “Once Again”, por si, é uma jóia rara.

Pode alguém que vive uma vida aborrecida escrever um romance?

Pág. 1/2