Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Carey Mulligan contra a Crítica e a Crítica contra o resto do Mundo

Hugo Gomes, 30.01.21

201221-think-carey-mulligan-promising-young-woman-

"Todo esta “novela” remete-nos a vários problemas que reforçam ainda mais a fragilidade da crítica de cinema nos dias de hoje. Primeiro, pelo uso da Crítica como meio de promoção, e como bem sabemos a publicação em questão é uma das maiores influenciadoras da indústria em geral, desde agentes a distribuidores, com um dedo “culposo” na award season. Segundo, pela sua cedência ao politicamente correto e das causas que se integram nas fontes de capitalização, e terceiro, e possivelmente a mais agravante e questionável, a liberdade artística e opinativa do crítico, deixando este à mercê de decisões e propósitos editoriais."
 
O episódio da Variety subjugada por Carey Mulligan (Promising Young Woman) leva-me a manifestar um pesar sobre a frágil vitalidade da crítica nos dias de hoje.
 
Ler artigo aqui.

Quem tem medo de Sério Fernandes?

Hugo Gomes, 12.01.21

Srio_Fernandes_Still_3 (1).jpg

Nunca é ocultado o facto do realizador Rui Garrido ter sido, em tempos, aluno do tão atípico professor José Eugénio Sério Fernandes, docente da ESAP - Escola Superior Artística do Porto. Grato e ainda umbilicalmente agarrado a essa experiência, a sua primeira longa-metragem tem como objetivo assentar numa “passagem de testemunho”, onde o filme, creditado como tal, é tomado pelas forças algo espirituais de Fernandes.

A obra faz serventia dessa subtil, mas dominante, conquista, nunca desviando o documentário do “objeto-estudo”, e em certa forma, tendo como principal função com que a sua memória não caia no esquecimento (apoiando-se na velha máxima do cinema enquanto arquivo e de imagens anamnésticas para futuros incertos). E o “artefacto em exposição” não se resume à figura em si, ela é vista como uma terminada cinefilia ainda pregável nos cantos e recantos deste país, apenas sobrevivendo por entre as experiências angariadas pelos seus alunos e pelos nichos (muito) mais fechados.

Ora bem, O Mestre da Escola do Porto tem algo a seu favor o qual Garrido bem conhece e aproveita, o fascinante Sério Fernandes, desde a sua humanidade até ao discurso fervorosamente apaixonado, nunca vergando a sua aura de velha guarda cinéfila conduzida numa característica militância sobre a definição de Cinema a ser apregoado para posteridades. Tendo uma carreira longínqua onde se destaca as suas peças publicitárias [o qual fundou a Bei Film] e a longa-metragem de experiências sob experiências – O Chico Fininho (1982) – Sério Fernandes é um ser alienado e igualmente fiel ao seu próprio devaneio, narrando com tamanho ecstasy o seu papel na “instituição” denominada Cinema Português e ostentando um carinho inclassificável pelos seus animais (a sua ligação com os seus “patudos” são de uma sensibilidade transbordante).

O filme convida o espectador a conhecê-lo num registo do “eu”, deixando que Fernandes o domine praticamente, assim como toda esta jornada, Garrido passa para segundo plano na tentativa de acompanhar as indicações do seu mestre (como por exemplo, a rigidez com que a costumeira gaivota deve integrar na metragem). No fundo é uma Odisseia, emprestado título ao seu homónimo, megalómano e excêntrico projeto (cujas metade das bobines foram atiradas ao mar e que se previa que a outra porção fosse enterrada no Metro do Invicta, nunca chegando a acontecer) que facilmente extrai risos trocistas da nossa parte para que no final possamos redimir à sua abstrata “loucura”. Para Sério Fernandes, aquele determinado plano estático ou gesto de autoridade no autoral acarreta “toda a História do Cinema” (falta-nos mais esses tons quixotescos de quem olha para a imagem resumindo nela todo um universo cinematográfico).

E é isso, aquilo que estava previsto ser palco para o “cromo 101 da coleção de 100” transforma-se numa congratulação de aluno para o seu mestre. A condescendência ficou à porta, o amor pela arte entrou com convicção na preservação do último dos cinematograficamente românticos.  

O Cinema é ar puro do meio rural!

Hugo Gomes, 04.01.21

121020gunda_960x540.jpg

Em 2019, em conversa sobre o seu filme sensorial e sensação – “Aquarela” – o cineasta russo Viktor Kosakovskiy abordou, sob algum suspense, o seu próximo projeto. Falou-nos de uma obra que prometia ao espectador a impossibilidade de desviar o olhar. Um apogeu de cinema, sem música, climax, personagens, apenas porcos, galinhas, vacas e uma quinta harmoniosa.
 
Esse filme chegou a nós no último Festival de Berlim, e tem como título – Gunda - um ensaio que poderíamos equiparar a um Bela Tarr animalesco, onde, genuinamente, demonstra-nos o Cinema na sua forma mais pura, e como nós, perante todos os adereços trazidos pelas indústrias, vanguardas ou parâmetros hoje confundidos como linhas-guias cinematográficas, esquecemos dessa mesma elegância. Contra tudo e contra todos, Gunda é Cinema, meio primitivo na sua conceção o que não impede de ser rico e sincero. Talvez seja isso que realmente falta ao Cinema de hoje em dia – a sinceridade e o seu concreto minimalismo!
 
Torcemos para que Gunda tenha presença nas nossas salas em 2021. Merece e merece muito mais.

Na nossa "Vida Moderna", o Cinema é mais que necessário ... é urgente!

Hugo Gomes, 03.01.21

playtimestill01.jpg

Começar 2021 a rever Jacques Tati e o seu Playtime (1967), sátira citadina recheada de fait-divers, hoje uma produção impossível de replicar em toda a sua escala, é um dos exemplos que necessitava para priorizar, ainda mais, a experiência de cinema em sala. Já que enfrentamos um ano decisivo na preservação e subsistência desses mesmos espaços, esta nova passagem promete colocar a pratos limpos sobre o estado da projeção e a vitalidade dos cinemas. Nada melhor para relembrar, pelo menos, a minha necessidade da sala que espreitar um dos mais detalhados filmes da nossa modernidade, com o realizador, ator e “clown” Tati a conceber o mais rico não-lugar da História do Cinema - Tativille.
 
Playtime: Tempos Modernos é um exercícios de gags, de capacidades cénicas e figuristas e todo um olhar clínico ao nosso capitalismo fervoroso que bem abraçamos, e o progresso em marcha constante sem uma pausa que seja, porém, tudo isso é somente teoria para a profundidade com que esta obra nos guia. Num espaço de um ano, visitei Tativille pelo menos duas vezes, infelizmente num pequeno ecrã, nunca conseguindo totalmente absorver todos os seus pormenores. É um universo imenso que perde força na limitação da “tela”, cada vez mais pequenos, e como peixe fora de água, suplica pelo seu habitat natural – a Sala de Cinema!