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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Os Melhores Filmes de 2020, segundo o Cinematograficamente Falando ...

Hugo Gomes, 31.12.20

Nem sequer vou debruçar sobre o ano 2020 (essa data em que cada um de nós possui uma história particular para contar, possivelmente com desilusões e adversidades no meio) mas, como chegou aquela altura que se torna quase imperativo nomear 10 filmes (com estreia comercial no nosso pais) para os já habituais pódios, eis que, por fim, meto as mãos à obra. E mesmo sob adiamentos, cancelamentos, migrações para streamings, eis um cinema ainda rico de emoções, temáticas e estilos que, por momentos, fizeram-nos esquecer os 'coronavírus' e o mundo de avesso. Aqui, neste leque, o conflito israelita-palestino contínua presente, o Brasil demonstra a sua resistência e urgência, as mulheres tornam-se protagonistas das mais ricas narrativas do ano e a Reboleira é palco de uma das maiores evasões do cinema português. Eis que segue os meus 10 filmes de 2020:

 

#10) The Invisible Man

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“Se haverá sequela, universo partilhado ou "spin-offs" de qualquer natureza ainda é cedo para prever, mas, por enquanto, Leigh Whannell conseguiu um filme que vive por si só e, ao contrário do seu “monstro”, não tenciona mesmo passar despercebido. E com isso temos aqui uma entusiasta surpresa do cinema de género entregue por um grande estúdio de Hollywood.” Ler aqui

 

#09) There is No Evil

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Tido como um dos ditos realizadores iranianos “proibidos”, Mohammad Rasoulof comprometeu a sua carreia a denunciar, o que o levou (e leva) a inúmeras sentenças e consequências em território nacional. Com There is No Evil, vencedor do Urso de Ouro no último Festival de Berlim, prova, além da sua habilidade de “whitlesblower”, uma capacidade narrativa e de extrema sensibilidade (sem maniqueísmos propagandistas). Através do tema da pena de morte, ainda em uso no Irão, Rasoulof expõe quatro histórias sobre contactos diretos e indiretos para com essa questão político-social. Um relato que vai desde as vítimas até carrascos, decisões a dilemas, paz e tormento, passando por um primeiro ato de pulsações arendteanas [“A Banalidade do Mal”] até a um montanhoso e intacto limbo para acarretar culpas e humanismos. Sim, é um filme de tema a demonstrar que é mais do que somente o seu mesmo, é Cinema com causas e efeitos.  

 

#08) Les Miserábles

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“Mais do que tudo, o realizador Ladj Ly prova o seu conhecimento, a sua vivência e a sua humanidade. A sua sede por um cinema de sangue na guelra, imparcial e, ao mesmo tempo, que denuncia sem ser ideologicamente agressivo ou ter alicerces nas tendências do "cinema verité" [cinema-verdade].” Ler aqui

 

#07) Corpus Christi

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““Corpus Christi” revela-se encantado com esses métodos de redenção, na farsa que impõe e prolonga, com frieza técnica e o desempenho visceral do seu protagonista, Bartosz Bielenia, o qual, como Cristo, “abraça” o seu estatuto de mártir em cada missa. Com um olhar atento à imagem do seu Salvador, segundos antes de dar início à sua leitura religiosa para com os demais, (...)  poderia ser um "running gag", mas é uma reflexão da nossa capacidade de superar adversidades, cinicamente ligada ao estatuto que ansiamos ter neste mundo.” Ler aqui

 

#06) O Fim do Mundo

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“O Fim do Mundo” “captura” um universo em extinção e o encara como a sua propriedade, preservado em âmbar, neste caso em filme com as promessas da sua “eternidade”. Uma coprodução luso-suíça que envergonha muitos da sua espécie e da sua nacionalidade pela forma como bravamente utiliza o “know-how”, pavimento de sugestões, fora-de-campos e o “desenrasque” (palavra tão portuguesa) para nunca perder a credibilidade deste quadrante de violência em cada esquina.” Ler aqui

 

#05) Portrait de la Jeune Fille en Feu

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Jean-Claude Brisseau deixou-nos somente há poucas semanas, mas é um facto que sentimos aqui uma réstia da sua vida no convívio espectral que Portrait de la jeune fille en feu estabelece entre a carnalidade dos corpos das atrizes até às premonições de um fim próximo: “Porque que é que os amantes sempre pensam que estão a inventar o romance?“. Não se fica pela coincidência o nome da realizadora com o filme Celine de Brisseau, ou do referido contrato com as entidades extranaturais, mas também a exploração do prazer feminino, embrulhado sob uma definição de romance platónico, que já por si é um dos temas cada vez mais tabus para direções masculinas.” Ler aqui [texto escrito durante a sua estreia no Festival de Cannes]. 

 

#04) It Must be Heaven

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“Portanto, em “It Must Be Heaven” somos deixados à geopolítica e com isso à globalização da sua mensagem, partindo para Paris até Nova Iorque, reconhecendo as metrópoles como um novo exotismo. Elia Suleiman filma-se a si próprio perante uma narrativa episódica, nada de igualmente novo na sua filmografia, porém, a sua costura autoral é gradualmente entorpecida perante um jogo de vontade. Saindo de Nazaré com um medo transluzente no seu olhar, deixando para trás os limoeiros que observa da sua varanda, as mulheres beduínas que carregam iogurtes pelo olival a dentro e os sacerdotes enfurecidos perante os rituais interrompidos (desta vez sem intervenção divina), e encarando um “Novo Mundo” com quem sente na pele a (desacreditada) Guerra sem fim (até mesmo o seu recorrente “I put a spell on you” entra na festa como uma recordação agridoce).” Ler aqui

 

#03) A Vida Invisível 

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“Este talvez seja, possivelmente, um dos filmes brasileiros mais belos dos últimos anos, que entra em diálogo com o mais belo produzido desta década – Elena, de Petra Costa. Ambos tornam-se cúmplices à melancólica derrota do desejo, o reencontro de um amor que só poucos perceberão a sua dimensão e que é disposto como uma busca à eternidade. A união que se desmaterializa como uma fantasia perante a ausência.” Ler aqui

 

#02) About Endlessness

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““Da Eternidade” nada restará (nem mesmo as ideologias com que abraçamos, aqui de maneira pictórica numa recriação do quadro “O Fim de Hitler”, de Kukryniksy), a futilidade da nossa sociedade que depende do transporte diário que encaminha milhões para as suas respetivas habitações como o seu mais consagrado Deus, marcando oposição a toda aquela matéria que supostamente constitui a alma. A nossa existência é ridícula, e até mesmo mesquinha, e Roy Andersson bem o sabe.” Ler aqui

 

#01) Martin Eden

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“Martin Eden” é, para todos os efeitos, um filme de coração-artista: tumultuoso e inquietante numa sufocante ânsia em criar a todo o custo. É assim a personagem (figura refém do desempenho anárquico e igualmente magistral de Luca Marinelli), é assim a obra que busca livremente os sopros do homónimo trabalho literário de Jack London (de cariz autobiográfico) para proclamarem como seus numa Itália abstrata e enevoada quanto à perceção de século XX.” Ler aqui

 

Menções honrosas - Small Axe: Lovers Rock, Mosquito, Uncut Gems, Da 5 Bloods, Soul

Nas tristezas e alegrias do homem mais solitário do Mundo

Hugo Gomes, 30.12.20

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“É impossível viver sem razão”

A razão, essa fonte irredutível de vida, é matéria maleável para Abel Ferrara, cada vez mais distantes dos padrões que havia regido décadas antes, assombrar e distorcer tendo como fruto colhido mais um ensaio esotérico sobre o solipsismo. Relatos e tormentos de solidão são plâncton no vasto oceano que é o Cinema, abundante, próspero e incansável no seu ressurgimento.

Nada contra esse tipo de introspecção, em grande tela o reflexo do Homem só continua a ser uma das suas melhores historietas, porém, chegamos a esta nova utilização do ator Willem Dafoe numa enésima experiência pedante de Ferrara, o de colocar o ator na representação óbvia do eremita global. Sibéria, a taiga gelada onde parece não albergar vida alguma é palco para o nosso protagonista, um estrangeiro em terra de ninguém, que gere um ainda mais remoto bar. Dafoe, sob o corpo e a alma fragmentada de Clint, lamenta-se e augura da sua própria sorte, ansiando por confessar os pecados ocultos que o forçaram a refugiar-se de todo, quer dizer, restante mundo.

Por entre a vodca servida como conforto em manhãs e noites gélidas, o nosso alienado procura paz e regalo no corpo feminino, acariciando e degustando os cantos e recantos desse prazer lascivo. Mas é quando uma grávida mal amparada entra no seu decadente estabelecimento, que Clint revive a luz que lhe havia faltado, a da vida, clarificada nesse “fenómeno” chamado maternidade (“Je vous salue, Marie”?). O encontro com este “milagre da natureza” o leva a refletir sobre a sua própria vivência, legado e através disso o destino da Humanidade, hipérboles geradas pelos seus “problemas de primeiro mundo”.

Sonhos correntes, esoterismo variados por entre febris e ocasionalmente molhados fantasias, memórias ripadas e replicadas, entidades que o visitam e os quais são visitados, elementos que trazem à jornada de Clint uma certa interiorização, mas sem razão de existência. A este protagonista o espectador é levado a seu egoísmo, narcisismo e egocentrismo de forma martirológica. Abel Ferrara já havia comprometido tais laivos na incorporação do seu parceiro (já vão na sexta longa-metragem juntos) desde que Asia Argento o assombrou em “New Rose Hotel” (1998).

O corpo de Dafoe é o mais próximo que se tem do divino e nas mulheres do Santuário, é tudo uma questão de representação e a sua atribuição em calores xamânicos, mais do que propriamente poéticos ou centrados em doutrinas do foro psicanalista. E esta viagem pelo entender de Clint e, em contrapartida, o reflexo de um realizador torturado plenamente ciente da sua insaciável insatisfação para com o Mundo ao redor e aquele o qual cria. Infelizmente, as promessas de Ferrara são em vão, ele não constrói nem re-imagina nova linguagem, tal já havia sido apropriada por Andrei Tarkovsky que sob as suas metas temporais induzia na sua história hereditária um fundido e ambíguo caudal entre realidade / surrealidades, sonho / fantasia, ficção / poesia. Todas as servidas dicotomias entrelaçavam e geravam a sua utopia (neste caso, nota-se uma gesto inspirado nesta viagem de Ferrara com a autognose em “Mirror” de Tarkovsky).

Em “Sibéria” presume-se a densidade, mas não sai do faz-de-conta. É umbiguismo revelador que parte de lado nenhum para chegar a “nenhures”, e nem a viagem compensa a trajetória. No fundo, Clint … aliás Dafoe, como ninguém, sendo Dafoe, resulta no espetáculo já confirmado de um ator de corpo e alma. Se é através dele que o filme se apoia incondicionalmente, então há capacidade, porque fora da sua órbita é somente fogo-de-vistas.

Que crítico és tu?

Hugo Gomes, 28.12.20

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O papel do crítico é levar as pessoas ao cinema”.

Não! Não é.

A relevância, ou não, do crítico evidencia-se na sua capacidade de se fazer pensar sobre os filmes e com isso desvendando a sua relação com o Mundo. Obviamente que não existe definição concreta nem pragmática sobre o que é um crítico de cinema, e nem vamos por aqui discutir a cerne desses mesmos propósitos. Mas eis que entra a minha crença: na disposição deste, digamos, “pensador” perante o seu filme, o seu Cinema, a sua Arte, entra um gesto egoísta, ou até mais, umbiguista, associando a experiência “pessoal” com a sua, derradeira (nem tanto), perspetiva.

Num ano onde o Cinema comemora os seus 125 anos, falar de críticos e de críticas de cinema é uma postura inglória, desviante e aparentemente burlesca para com esses sonhos de grande tela. O que refiro é, que em tempos onde o Cinema é posicionado na corda bamba, a crítica atira-se para as suas respetivas trincheiras, por um lado, salvar a sala incentivando o público, por outro, incentivar a reflexão cinematográfica, mas ambos unem esforços para preservar a cinefilia (porém, não há equações infalíveis).

De que lado deverão estar?

Quando o cinzentismo de Garrel trava a sua criatividade

Hugo Gomes, 23.12.20

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A este ponto, até eu [exausto] repito-me … de Philippe Garrel, nada de verdadeiramente (re)vitalizante parece vir dele desde o momento em que o seu coração assombrou-se pela sua espectral autobiografia (“Coração Fantasmas”, 1996).

A partir disto, o sonambulismo o domou, condenando-o, como Prometeu, a ser desventrado uma e outras vezes até ao fim da sua existência. Canso-me de argumentar perante um cineasta, igualmente … isso … cansado, deveras fatigado no seu recurso formal como também discursivo. Para um homem que lutou e que jurou lutar pela dignidade do proletariado (ou assim discursava) não arreda pé do seu próprio estatuto de privilegiado (o cognome autoral que o mesmo exibe para lhe dar a devida impunidade crítica). Não com isto afirmando, deter o absolutismo da palavra, e sim confessando a minha angustia pelas variadas colagens a frio entre prosas com a frieza das imagens naturalistas nestes últimos Garrel(s). É como se procurássemos as respostas do mundo na sua filmografia.

“O Sal das Lágrimas” (“Le Sel des Larmes”) é possivelmente o seu trabalho menos objetivo, à deriva nos diferentes sentimentos e geografias que o próprio realizador nos habituara nestes seus tempos adormecidos. A fotografia de Renato Berta (novamente) presta-se a pintar esta Paris salgada, melancolizada e monótona … mas já vimos estas cores, já “saboreamos” estes tons, é puramente redundante a esta altura do campeonato tecer elogios para aquilo que não é mais criativo, apenas transpassado.

Todavia, deixemos a coloração de lado, o filme avança com uma paragem de autocarro, uma rua e dois passeios separados por uma via de alcatrão, onde em cada uma das “margens” encontram-se dois desconhecidos que cruzam acidentalmente os seus olhares. Daqui, nasce, aquela que continua a ser a melhor de todas as histórias, “a boy meet a girl” (“um rapaz conhece uma rapariga”). A timidez destes futuros amantes rapidamente concedem a linha narrativa principal (segundo muitos admiradores da obra), esta seria a história a acompanhar (novamente apoiando-se nessa perspetiva). Mas estamos numa história garreleana, há traição nestes sentimentos e cobardia enquanto forças motoras.

O nosso protagonista, Luc (Logann Antuofermo), regressa à sua “terra natal”, nos conselhos e conforto que o seu velho e carpinteiro pai guarda e, bondosamente, entrega em cada necessidade. Nasce a cumplicidade aos olhos do espectador, nem que seja pelo carisma resiliente de André Wilms (uma das faces do muito cinema de Aki Kaurismäki). Garrel procura encontrar naquela figura a sua entidade paternal, os seus afetos perdidos e apenas permanecidos na sua memória, mas esta autognose o atinge, ele já não é mais filho do pai (o que poderia exercer o papel oposto nos seus filmes), e a importância disto é que o filme continua direcionado no tratamento da juventude, aliás a sua visão romântica daquilo que pensa ser a juventude “do agora”.

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O autor não acompanha estas andanças à modernidade, confunde a sua posição libertária com um moralismo castrador, ora, por exemplo, o trio amoroso (ou como dizem os franceses e muito bem … ménage à trois). Este é o teor dos seus últimos filmes, entregar-nos de bandeja um certo hedonismo ou refresco para no final pregar o seu sermão, agarrando à figura paternal, nunca ela devidamente presente, para servir de justificação dos seus atos.

A “miúda” da paragem (Oulaya Amamra), aquela lufada de ar fresco no cinema bafiento do cineasta é um oásis esquecido na gaveta para depois ser “resgatado” no reencontro mais patético entre ex-amantes, mas o que importa não é a natureza desta relação de mãos dadas aos diálogos redundantes e primários (só de imaginar que foram veteranos que escreveram aquele “engate de café”, lido e obtido na fixação racial, dá-nos um aperto), o relevante, para Garrel, é o seu uso para satisfazer a ideia de perdição, ora pecaminosa, do nosso protagonista.

Não querendo aproveitar o mais célebre diálogo de Wilms, mas já que estamos aqui – “Em questão de mobília, já tudo foi inventado” – passemos para “Em questão de Cinema, já tudo foi inventado”. Ou seja, pedir a Garrel a invenção da roda ou reinvenção do Cinema é uma impossibilidade, contudo, não é o solicitado. Para o nosso cineasta de velha guarda é pedido a reinvenção do seu cinema ao invés de se pregar pela cantiga do arco-da-velha – “o mesmo filme e sempre o mesmo filme”. Os convertidos à sua mimica continuarão a ser súbitos, não venho com isto alterar o curso dessa existência, é somente cinema confortável e cinema confortável todos têm (eu inclusive, mea culpa).

A grande questão no Garrel contemporâneo e sobretudo este filme em particular, é a relação deste com o exterior, e não refiro só o papel da crítica ou cinefilia, mas sim a do próprio realizador perante o mundo que o rodeia. Por instantes recordo a sua proclamação de feminismo para a imprensa para acompanhar o seu anterior “A Sombra das Mulheres” (“L'ombre des Femmes” [ler texto]), deslocado para aquilo que o filme realmente refletia. Ou seja, tal como qualquer “velhote”, Garrel é desbocado, fala sobre tudo e sobre nada, só que o seu recente cinema e é demasiado fechado, em constante observação do seu interior ao invés daquilo que realmente se insere.

Parou no tempo, mas ao contrário dele, o tempo prossegue vertiginosamente para a próxima mudança. Aliás, basta ver 2020, esse ano mais que atípico. 

Celebramos a Vida como o Cinema e celebramos o Cinema como a Vida …

Hugo Gomes, 19.12.20

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Eis a maior das ironias, surgir entre nós um filme como “Druk” (“Another Round”), um fantasma da nossa boémia abandonada por um bem maior por entre constantes vai-e-vens de confinamentos e desconfinamentos. Ah, que tempos! Éramos tão felizes e nem sequer sabíamos! Contudo, Vinterberg traz-nos a dita celebração com todos os seus cinzentismos, é como a tal vibrante melodia de Scarlet Pleasure que toca como entrave dos créditos finais - “Que vida, que noite, que bela, bela viagem”. Rimos, choramos, bebemos, comemos e sobretudo vivemos, não haveria filme melhor para encantar o nosso suposto regresso à “normalidade”.

Fenómenos ... da repetição

Hugo Gomes, 16.12.20

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A maneira como ele se repete é absurda”. Não sou eu que o afirmo, quem proclama é umas das personagens, numa espécie de desdém à “popularidade” de um autor, neste “The Woman who Ran” (“A Mulher que Foge”, inexplicável vencedor de um Prémio de Melhor Realização no último Festival de Berlim). Aproprio-me das suas palavras e as posiciono de frente a esta 24ª longa-metragem do sul-coreano e “falso-marginal” Hong Sang-soo, de forma a não empregar sentimentos muitos profundos do meu “ser”. Começo a desconfiar deste “fenómeno”, há aqui um radicalismo que já não se aguenta.

Das páginas ao ecrã, evidenciando cinema pela caneta de John Le Carré

Hugo Gomes, 14.12.20

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John Le Carré (1931 - 2020)

O célebre escritor, possivelmente o grande responsável pela redefinição do policial do século XX, encontrou no cinema, não a sua derradeira imortalização, mas um cúmplice para os seus "crimes". A imaginação de Carré aliou-se às imagens e nesse bando geraram filmes ... e muitos deles, que filmes! O autor deixou-nos ... maldito 2020 que não termina de jeito nenhum ... mas as suas histórias, essas, persistem nos diferentes formatos.

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The Tailor of Panama (John Boorman, 2001)

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Tinker Tailor Soldier Spy (Tomas Alfredson, 2011)

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The Spy Who Came in From the Cold (Martin Ritt, 1965)

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The Constant Gardener (Fernando Meirelles, 2005)

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The Deadly Affair (Sidney Lumet, 1967)

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A Most Wanted Man (Anton Corbijn, 2014)

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The Russian House (Fred Schepisi, 1990)

Vítor Norte: "José Fonseca e Costa talvez tenha sido um dos expoentes máximos do cinema em Portugal"

Hugo Gomes, 13.12.20

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Foto.: Loulé Film Office

Até Amanhã! O Futuro é Amanhã e obrigado!” Foi com estas palavras que o já veterano ator Vítor Norte agradeceu o Prémio de Carreira que lhe foi atribuído na 1ª gala dos Prémios Cinetendinha, que decorreu no passado sábado (05/12) no Auditório do Solar da Música Nova em Loulé, e será transmitida neste domingo (13/12) na Sic Radical.

Com intuito de promover e galardoar o melhor que se produziu num ano de cinema, a 1ª edição dos Prémios Cinetendinha contou com a presença do seu anfitrião, o crítico e jornalista de cinema Rui Pedro Tendinha, assim como com a das madrinhas, as atrizes Victória Guerra e Maria Leite (ambas louletanas), e ainda personalidades como os atores Ricardo Pereira, Rúben Garcia e Ruben Alves e a realizadora Ana Rocha de Sousa (“Listen”). Mas foi com Vítor Norte, também presente, que o evento teve um dos seus momentos altos.

Contabilizando 40 anos de carreira, Vítor Norte é um dos atores mais reconhecidos pelo público português, presente constantemente em diferentes ecrãs e palcos. No cinema orgulha-se de ter sido dirigido por um vasto leque de realizadores, entre os quais José Fonseca e Costa, o qual colaborou em 4 filmes (“A Mulher do Próximo”, “Nos Cornos de Cronos”, “Cinco Dias, Cinco Noites”, “O Fascínio”). No final da cerimónia, o ator conversou sobre o significado deste Prémio de Carreira, sobre novos projetos e sobre o seu “amigo e padrinho de casamento” José Fonseca e Costa.

Visto que declarou na gala que não está velho e que a sua carreira não termina aqui, para si, o que representa este Prémio de Carreira?

Não, eu estou velho [risos]. Mas é um facto que a minha carreira ainda não terminou. Acúmulo e possuo projetos e pessoas com quem vou trabalhar para o ano e para o próximo. É um prémio de carreira, mas não deixa de ser um prémio igual a tantos outros. E fico contente por ter-me sido atribuída tal láurea, e ainda mais ter sido fruto de uma reunião de pessoas. Fico grato.

Quanto à carreira propriamente dita, eu não me considero um carreirista. Sou um ator, e sou-o há vários anos. Faço teatro, televisão, cinema, tudo o que é inerente à minha profissão, só que não me sinto um carreirista, sinto-me um sonhador, alguém que aspira por um mundo melhor, por um teatro melhor, assim como cinema, e mais Cultura. Isso sim, agora carreira?

Quanto a esses novos projetos e filmes ainda por estrear, este ano estava previsto chegar às nossas salas “Terra Nova” de Artur Ribeiro, só que a pandemia alterou os planos. Já há nova data de estreia?

Não, ainda não há data de estreia. Para além do “Terra Nova”, tenho ainda “A Casa Flutuante” de José Nascimento, com quem trabalhei em “Tarde Demais”, “Para Cá do Marão”, de José Mazeda, e o novo filme de Bruno Gascon, realizador com quem trabalhei no “Carga”, e que tem como título “Sombra”.

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Cinco Dias, Cinco Noites (José Fonseca e Costa, 1996)

Numa entrevista ao SAPO Mag, o realizador Francisco Manso, o qual trabalhou como Aristides de Sousa Mendes em “O Cônsul de Bordéus”, referiu que tem na gaveta um projeto que continua esse filme de 2012 e tem colaboração na escrita do neto de Sousa Mendes. Devido à falta de apoios e meios, essa espécie de sequela encontra-se no limbo. O que pode dizer sobre esta possibilidade e se aceitaria regressar ao papel?

Sim há, aliás eu e o Francisco Manso já falamos sobre isso mesmo há uns anos: um projeto que abordava a vida de Aristide Sousa Mendes depois do salvamento daqueles judeus dos nazis, e o seu regresso a Portugal. Mas sobre o seu avanço? Não sei. Só espero que ele consiga concretizá-lo, e isso seria ótimo, o que não quer dizer seja eu a voltar ao papel.

“O Cônsul de Bordéus” foi um êxito, visto por mais de 35 mil espectadores, o que na altura revelou para muitos portugueses uma história diversas vezes ocultada. Possivelmente essa divulgação levou à transladação de Aristide de Sousa Mendes para o Panteão Nacional. Acredita que o sucesso e a popularidade do filme tiveram como impulsionador o seu protagonismo?

O filme foi um êxito sim, só que não acredito que a minha participação tenha realmente contribuído para isso. Qualquer ator que se preze, e digo ator com "A", conseguiria interpretar Aristides melhor que eu. As coisas são notáveis. Sim, o filme de Manso contou comigo no papel principal, mas então e os outros atores? A luz? A técnica? Eu não tenho bem o culto da personalidade do cinema, a mim começaram a chamar-me Vitinho e até hoje continuam [risos] …

Um dos realizadores com quem mais trabalhou e com quem fez alguns dos filmes mais importantes da sua carreira, foi com José Fonseca e Costa…

O meu amigo e padrinho de casamento José Fonseca e Costa talvez tenha sido um dos expoentes máximos do cinema em Portugal. E tinha uma cultura extraordinária, era possuidor de um conhecimento… Nós passávamos os jantares a ouvi-lo, e não custava nada, mas no plateau era um homem duro, melhor, um realizador duro que não abdicava nada.

Hoje em dia José Fonseca e Costa é recordado como um autor do nosso cinema, mas em tempos era dizimado pela crítica e desprezado como um “realizador comercial”. O próprio queixava-se dessa constante denominação...

Mas a crítica, bem, a crítica neste país é toda ela composta de ilhas, movimentos, de conhecidos e de amigos. Portanto, as críticas não são bem aquilo que deveriam ser, que era apontar os “bons” ou “maus” de um trabalho artístico, e são usadas para se fazerem ataques pessoais. Talvez seja isso que tenha acontecido ao José Fonseca e Costa, que era sobretudo um homem vertical.

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