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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

No Zodíaco dos Génios

Hugo Gomes, 30.11.20

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Herman J. Mankiewicz ou Orson Welles? Não vamos para aqui discutir quem é o verdadeiro génio por detrás de Citizen Kane, mas um facto é certo, os 79 anos a separar esta incursão de David Fincher com a obra-prima cinematográfica dão espaço para a desconstrução de uma Hollywood em peso, e para isso há que se servir dos mais comuns elementos do academismo atual. Eis o trabalho mais profundamente desinspirado de um realizador positivamente arruaceiro no formalismo hollywodesco, mais concentrado em dissecar a genialidade do que propriamente entendê-la e com isso, leva aos trambolhões a sua dita Hollywood. É “bem feito” dirão muitos … só que não chega.

Born in the USA

Hugo Gomes, 24.11.20

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“Nomadland” ilude-nos à partida, é um retrato da América (essa frase cliché). Mas a questão é saber qual América? Através de uma Frances McDormand despida de qualquer manto ficcional percorremos o profundo do país dos “Pais Fundadores”, escutando relatos de desespero ou de propostas alternativas à escravatura capitalista e observando paisagens inóspitas, outras por vezes abandonadas, em busca de um lugar a quem se possa chamar Lar, esse Império (=Empire) transformado em não-lugar. Esta América, esta mesmo, que caminhamos sem eira nem beira, por trabalhos temporários, na subsistência e dependência da solidariedade dos outros, é a América de Obama. Revelando aqui, subversivamente, o que antecedeu ao triunfo de Trump em 2016. O que fez seguir até o radicalismo. Só que soluções nem vê-las, nem mesmo tal pode acontecer, até por que a postura nómada da personagem de McDormand é uma liberdade insuflada, uma ilusão vendida para crentes.

"You didn't get me down, Ray"!

Hugo Gomes, 14.11.20

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Martin Scorsese dirigindo Robert De Niro em "Raging Bull" (1980)

Reza a lenda que “Raging Bull” (“O Touro Enraivecido”) não é propriamente a busca pela humanidade num “monstro” como Jake LaMotta, campeão de peso-médio de boxe dos anos 1940 reconhecido pela sua ferocidade quer dentro, quer fora do ringue, mas sim a redenção de Martin Scorsese. E que foi através desta “barata-humana” (o termo que o produtor Steven Bach usou para rejeitar a primeira versão do argumento) que Robert De Niro, seduzido pelo livro biográfico do pugilista, procurou e tentou persuadir um debilitado Martin Scorsese a dar a volta à vida para filmar esta história.

Em 1978, o realizador de “Taxi Driver” e do muito subvalorizado “New York, New York”, estava mergulhado num turbilhão vicioso de cocaína.  Uma recente overdose levava muitos a prever o iminente KO da carreira. Num primeiro contacto, Scorsese revelou-se desmotivado para concretizar a história daquele que tinha o cognome "Touro Enraivecido" porque não se interessava por filmes de boxe (“Taxi Driver”, vale a pena recordar, perdera os Óscares para “Rocky” dois anos antes). Após a paciência e persuasão de De Niro, lá arrancou para a tarefa de condensar aquela estranha forma de vida de Jake LeMotta para o cinema, tendo como cúmplice Paul Schrader, precisamente o argumentista de “Taxi Driver”.

Os frutos colhidos, como se pode perceber por esta celebração dos 40 anos, é um dos mais distintos ensaios do mais bem adaptado desporto ao cinema, contrariando a tendência “feel good” e da ascensão do “underdog” que “Rocky”, e muito bem, representava. Dir-se-á que “O Touro Enraivecido” é precisamente um anti-"Rocky", desde a sua estética fria e em certa parte artesanal (Scorsese usou vários métodos para que os combates fossem diferenciados da espetacularidade dos seus congéneres), até à falta de empatia para com uma figura como LaMotta (mesmo sabendo que o filme tenta a todo custo procurar réstias de clemência).

Mas antes de partirmos para a resolução técnica e metódica que tanto distinguiu "O Touro Enraivecido", há que voltar a falar do ponto central deste "biopic", Robert De Niro. O interesse quase mórbido do ator percebe-se a léguas, claramente disposto a todo para a incorporar a “besta”, da sua espiritualidade até ao seu físico (ao longo do filme mais do que se destaca a sua transformação tanto para retratar a ascensão de LaMotta nos ringues como a igualmente turbulenta queda). Mas a grande revelação do filme é que o “boxeur”, apesar da sua evidente selvajaria e temperamento explosivo no centro das cordas, é também um autêntico animal na sua vida privada, sem sentimentos por quem quer que seja, incluindo ao seu leal irmão (um dos mais vigorantes desempenhos de Joe Pesci).

"O Touro Enraivecido" e a interpretação de De Niro nunca reduzem esta "besta" humana a uma caricatura histérica, nem sequer a um esboço da má índole. Ao desvalorizar à procura de pontos de empatia (uma prioridade habitual em "biopics" rotineiros à moda de Hollywood), este desfigurado lutador prossegue na narrativa como uma experiência moral, cuja ruptura com supostas epifanias o leva a um inesperado tom introspectivo. É que para com cada glória existe um fracasso que se aprofunda, num caos auto infligido. Neste filme, não é o destino que se culpa pelos socos da vida.

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Enquanto católico fervoroso (nunca cedendo ao radicalismo, diga-se por passagem), Scorsese “pinta” os arcos ou assaltos que ferem a narrativa linear como imagens sacras. O corpo fatigado e suado de LeMotta, pousado no seu banco durante as breves pausas dos enésimos combates, é lavado/refrescado numa sintonia de falsa-redenção, como Cristo pronto a ser crucificado. Para fortalecer essa ideia, eis o “You didn't get me down, Ray”, o “Não me deitaste ao chão, Ray” que grita, ensanguentado, derrotado e, enfim, orgulho, o nosso pugilista no último combate com Sugar Ray Robinson. Trata-se da sua afirmação perante a luz que vislumbra no hiato entre o arremesso e o choque dos golpes do seu rival. Terá sido o divino a comunicar com ele, imperando para que se arrependa dos seus inúmeros pecados? Se foi, Jake LaMotta ignorou. Vendeu a alma ao diabo.

O desfecho poderia funcionar como um “My Way” de Frank Sinatra. A despedida antes das cortinas assumirem o palco, resultando na confissão, sem a devida absolvição do seu próprio carácter. Anafado (De Niro engordou 25 quilos para representar o pugilista reformado), para relembrar o quão distante está da outrora estrutura de atleta, o agora comediante LaMotta, de frente ao espelho do seu camarim, completa o seu monólogo - “I coulda been a contender. I coulda been somebody, instead of a bum, which is what I am, let’s face it” [“Poderia ter sido um competidor. Poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que sou, vamos encarar isso”] – a citação direta de outro clássico americano, “On the Waterfront”, de Elia Kazan (1954).

No fim, este é um disfarce para não redigir a lição de humildade. E para quem estava à procura disso, certamente o esperançoso “feel-good” ficou com “Rocky”, porque aqui a luta era definitivamente outra...

 

Texto inicialmente publicado no Sapo em comemoração aos 40 anos de "Raging Bull".

 

 

Mais que nunca o Dia do Cinema deve ser “celebrado”!

Hugo Gomes, 05.11.20

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Voyage to the Moon (Georges Méliès, 1902)

Este ano, para muitos, atípico, para outros o início de uma nova fase da civilização moderna, poderão levar o cinema para caminhos de torturante subsistência, enquanto translada para o conforto das nossas casas assimilando cada vez à vontade do freguês e não como a resposta aos nossos dias. Não faço aqui juízos de valores sobre o que é cinema ou o que não é cinema, ou o velho sermão de que o Cinema só deve ser visto em sala como uma experiência partilhável, o que refiro é que chegamos a um momento crucial em que a Sétima Arte precisa de nós, para a iluminarmos e manter viva as suas memórias. É História preservada em pelicula, são ideias, gestos, paixões e arte. É como alguém disse e muito bem, perdendo-se na corrente das citações anonimizadas - Cinema é Vida!

O Cinema (ainda) não morreu, nem que o Godard tussa.